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Análise: Mercado gosta das férias de Lula

03/01 - 08:58, atualizada às 09:44 03/01 - Valor Online

SÃO PAULO - O viés positivo exibido pelos mercados financeiros no primeiro pregão do ano revela que a boa notícia superou a má. O fator ruim foi a ausência de compromissos no discurso de posse de Lula com as reformas trabalhista e previdenciária.

Trata-se de uma mudança relevante em relação ao discurso da primeira posse, em 2003, quando o presidente citou diretamente as duas reformas agora ignoradas.

No discurso de segunda-feira, mencionou apenas as reformas política e tributária. A primeira não interessa muito aos mercados e a segunda é entendida como as desonerações contidas no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), a ser anunciado mais para o final do mês.

O mercado defende reformas tributária e previdenciária para valer, capazes de reduzir a carga fiscal e, com isso, retirar do foco das atenções os gastos com pagamento de juros.

Do total arrecadado pelo governo este ano, cerca de R$ 723 bilhões, o equivalente a 39% do PIB, algo como R$ 164 bilhões, se destinaram às despesas com juros da dívida pública interna.

Sem o ônus do juro, a carga tributária cairia para 30,2% do PIB. Fica claro que o incentivo ao investimento produtivo e ao crescimento passa pelo corte das despesas gerais e sobretudo dos juros.

Ao empreender uma reforma tributária séria, o governo se mostraria disposto a reduzir seus gastos correntes, retirando de cena a delicada questão da dívida pública.

Sem ela, torna-se mais premente a necessidade de cortar as despesas com a dívida. As próprias inflamadas discussões específicas em torno das reformas tributária e previdenciária no Congresso e na mídia tirariam do foco do interesse o problema da dívida.

Mas a falta de compromisso oficial com a seriedade fiscal foi compensada pela boa notícia. Os mercados receberam como positiva a informação de que o presidente Lula irá tirar férias de dez dias. Segundo analistas, trata-se da primeira vez na história que um presidente da República toma posse, não anuncia Ministério nem medida alguma, e sai de férias.

Em contradição com o discurso oficial de que o Brasil tem 'pressa', as férias foram entendidas como sinal de que nada muda nos três pilares - superávit primário das contas públicas, sistema de meta de inflação e câmbio flutuante - da política econômica.

A reiteração dos postulados herdados do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso é até mais importante, para os mercados, do que as reformas liberalizantes.

Se Lula pretendesse de fato fazer um governo desenvolvimentista, não tiraria férias. O mercado gostou muito da falta de referência, no discurso de posse, ao PT.

O entendimento dos analistas foi de que o presidente rompeu de vez com o petismo e assumiu de vez o lulismo. E se 2007 será um pouco mais do mesmo piorado (por mais gastos públicos e menos juros) resta aproveitar a maré de alta liquidez internacional enquanto há tempo.

O fechamento das bolsas de Wall Street, em luto ontem pelo falecimento, dia 27, do ex-presidente americano Gerald Ford não atrapalhou o dia positivo. O único segmento que destoou do otimismo geral foi o secundário de títulos da dívida externa brasileira.

Após a forte alta de 4,60% para 4,70% registrada na semana passada, a rentabilidade dos papéis de 10 anos do Tesouro americano recuou ontem para 4,68%, puxando o risco do Brasil para 194 pontos-base, dois pontos acima do recorde de baixa de 192 pontos-base reiterado na sexta-feira.Mas o mercado de câmbio não se espelhou no risco-país para definir a tendência do primeiro pregão do ano.

A demanda não conseguiu dar conta da oferta dos exportadores e dos investidores estrangeiros. E o Banco Central não fez questão de equilibrar as forças de mercado. No primeiro leilão de compra de 2007, adquiriu três lotes de apenas um banco e pagou R$ 2,1335. No fechamento, o dólar exibiu desvalorização de 0,28%, cotado a R$ 2,1320. No mercado monetário, queda geral dos juros futuros.

O swap de 360 dias recuou de 12,40% para 12,30% e embute agora juro real de 7,92%.(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)



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