29/12 - 09:25 - Valor Online
SÃO PAULO - Os investidores estrangeiros estão fechando 2006 com posicionamento no mercado futuro de câmbio da BM & F coerente com os cenários traçados para a economia mundial e a brasileira. O capital externo passou o ano inteiro montado em elevadas posições vendidas em dólar.
A aposta era de desvalorização da moeda americana, vale dizer, contra o dólar e a favor do real. Ela foi correta já que o dólar caiu 8,98% este ano. A esta variação deve se acrescentar o juro real pago pela Selic, de 10,84%. Por proporcionar ganhos muito elevados e fáceis, as posições vendidas nos mercados de derivativos de câmbio da BM & F chegaram a atingir US$ 17 bilhões em meados do ano. Mesmo assim, foram se reduzindo gradualmente. A aposta vendida caiu para US$ 7,12 bilhões no final de outubro e para US$ 5,55 bilhões no final de novembro. Em dezembro, contudo, o capital estrangeiro retomou as vendas e o total elevou-se para US$ 7,44 bilhões pela posição do dia 27. Não houve nenhuma preocupação externa em zerar posições, prática habitual em viradas de ano. Os dados não mostram uma reversão de tendência. Mês a mês, a posição vendida é cortada, mas se recupera em dezembro, num sinal positivo para 2007. Segundo operadores, os fundos institucionais persistem realizando arbitragens oportunistas entre os mercados de câmbio à vista e os derivativos. Entre estes, podem ter surgido oportunidades de ganho entre o cupom cambial e o dólar futuro, mas não envolveria cifras expressivas.O crescimento das posições relaciona-se ao mercado internacional. Não há alterações para pior no cenário americano que justifiquem apostas na alta do dólar. Pelo contrário, os dados recentes sobre o setor imobiliário americano, considerado o gatilho que dispararia um processo recessivo nos EUA, são reconfortantes, pois mostram vendas em recuperação. Para surpresa geral dos economistas, que esperavam uma queda de 1% na revenda de residências no mês passado, a comercialização de casas usadas cresceu 0,6%. O cenário se consolida no sentido de uma economia com crescimento moderado e baixas pressões inflacionárias. Internamente, não surgiram motivos para inquietações. O fluxo cambial persiste altamente positivo - o dólar fechou ontem o último pregão do ano com desvalorização de 0,41%, cotado a R$ 2,1370 - e os estrangeiros não se importam em assumir posições positivas para o futuro. Não se assustam com as informações de que Lula não pretende fazer as reformas liberais destinadas a garantir a solidez fiscal. O pacote de desoneração tributária, embora de alcance limitado comparativamente a sua ambição de destravar o crescimento, não sugere a disposição de mudanças radicais na política econômica. A retomada das posições vendidas no fim do ano mostra que os fundos estrangeiros não se deixaram contaminar pelas análises apocalípticas segundo as quais o aumento do salário mínimo e a correção da tabela do IR sinalizam um segundo mandato de leniência fiscal, ampliação da gastança pública e retorno da inflação. De qualquer forma, o espaço para apreciações adicionais do real em 2007 está cada vez mais exíguo em face da base de comparação já deprimida. Resta o ganho, em queda, do juro real.Risco-país tomba 36,51% no ano - O risco-país caiu ontem 1,53%, para 193 pontos-base, novo patamar mínimo histórico. Como o risco Brasil fechou 2005 em 304 pontos-base, no acumulado de 2006 tombou 36,51%. O dado de ontem ainda não é o definitivo do ano. É que, ao contrário dos mercados domésticos, que encerraram 2006 ontem, os pregões de Nova York funcionam hoje. E pode haver negociação de títulos da dívida externa brasileira. A queda de ontem teve como motivo central o mesmo dos recordes anteriores, batidos ao longo de dezembro. Foi um reflexo automático da alta dos juros dos papéis de 10 anos de emissão do Tesouro americano. A taxa avançou de 4,66% para 4,71%. (Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)
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