Sergio Imbert
Moscou, 28 dez (EFE).- A três dias do Ano Novo, a Rússia voltou a
colocar a União Européia (UE) em xeque com uma nova "guerra do gás",
desta vez contra Belarus, por onde passa 20% do combustível
consumido pelos países do bloco.
A Comissão Européia (órgão executivo da UE), Polônia, Lituânia,
Eslováquia e até o enclave russo de Kaliningrado já expressaram seu
temor de tornarem-se reféns do conflito entre Moscou e Minsk pelas
tarifas do gás em 2007.
O presidente do monopólio russo Gazprom, Alexei Miler, anunciou
que seu consórcio cortará o abastecimento a Belarus em 1º de janeiro
de 2007 às 10h de Moscou (5h de Brasília), caso Minsk não aceite as
condições da Rússia.
"Gazprom não é Papai Noel para dar presentes a Belarus", disse o
porta-voz da empresa, Serguei Kupriyanov, afirmando que a empresa já
avisou sobre a crise e suas possíveis conseqüências aos sócios na
Lituânia, Polônia e Alemanha.
O Governo do presidente bielo-russo, Alexander Lukashenko,
respondeu que sem o correspondente contrato a partir dessa data, o
transporte do gás russo por seu país rumo à Europa também será
"ilegal".
A Gazprom respondeu que a parte bielo-russa do gasoduto
Jamal-Europa é de sua propriedade, e confirmou sua intenção de
cumprir todos os compromissos assumidos com clientes europeus.
Mas o vice-presidente do consórcio, Alexandr Medvedev, admitiu
que a Gazprom seria incapaz de compensar as perdas de gás se Minsk,
como Moscou teme, "roubar" combustível da rede.
"Espero que essa situação seja resolvida antes do fim do ano, no
pior caso ,nos primeiros dias de 2007, caso contrário seria um
suicídio para a economia bielo-russa", disse Medvedev.
A falta de acordo ameaça afetar os envios de gás russo por
Belarus para a UE, em uma repetição da "guerra do gás"
russo-ucraniana do início deste ano, que alterou por quatro dias o
fornecimento aos Estados europeus.
A Rússia é responsável por 25% do gás consumido na UE, que o
monopólio russo Gazprom fornece através dos territórios da Ucrânia
(quase 80%) e de Belarus (pouco mais de 20%).
A interrupção do fornecimento à Ucrânia, cuja "Revolução Laranja"
foi recebida pelo Kremlin como um desafio à Rússia encorajado pelo
Ocidente, provocou uma reação em cadeia por toda a Europa, onde as
importações de gás russo caíram em mais de 30%.
Desde 2002, Belarus recebe o gás natural russo a uma tarifa
preferencial de US$ 46,68 por mil metros cúbicos, e na quarta-feira
recusou o preço de US$ 110 oferecido pela Gazprom em 2007.
Essa tarifa é bastante inferior à fixada pela Gazprom a outras
repúblicas ex-soviéticas para o ano que vem, como, por exemplo, para
a Moldávia (US$ 170) ou para a Geórgia (US$ 235).
Em 2006, a Gazprom forneceu à Europa, através de Belarus, 44
bilhões de metros cúbicos de gás, mais outros 20 bilhões ao país
vizinho. Em 2007, pretende repetir esses números se conseguir
solucionar a crise com Minsk.
O comissário de Energia da UE, Andris Piebalgs, pediu hoje "uma
solução urgente" para o conflito entre Moscou e Minsk, a fim de
evitar que afete as exportações à UE, e sua preocupação foi
compartilhada, entre outros, por Lituânia, Polônia e Eslováquia.
No entanto, a Gazprom ameaçou impor uma tarifa de exportação à
Belarus, que atualmente não é cobrada, de 30% do custo do contrato,
o que aumentaria o preço final para US$ 260.
Como resposta, Minsk ameaça aumentar a tarifa de passagem do gás
russo em pelo menos 100%, e as duas partes trocaram acusações sobre
o possível corte do abastecimento à Europa.
No meio desta disputa verbal, a Ucrânia - que já resolveu seus
problemas com Moscou - expressou sua disposição em aumentar o
transporte do gás russo por seu território em caso de crise, para
"garantir o funcionamento estável dos países vizinhos da UE". EFE
se pk/an