Estudo publicado em maio pelo Ipea indica necessidade de investimento para evitar problemas na Copa de 2014

Grande parte dos aeroportos do Brasil opera no limite e não dá conta da demanda pelos serviços de aviação civil. A conclusão é de estudo publicado em maio pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que indica que a situação pode piorar ainda mais caso o Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB) cresça num ritmo de 3,5% ao ano. Se isso ocorrer, a previsão é de que o mercado doméstico de transporte aéreo aumente em pelo menos três vezes nos próximos 20 anos.

“Os maiores aeroportos já operam no limite. Parte disso se deve aos preços mais acessíveis e ao crescimento da economia brasileira. Há também a influência da complexidade industrial, que promove um crescimento recorde do transporte de mercadorias no âmbito interno e externo”, disse em 31 de maio o coordenador de Infraestrutura Econômica do Ipea, Carlos Campos, ao lançar o estudo “Panorama e Perspectivas para o Transporte Aéreo no Brasil e no Mundo”.

“Quando a solicitação de pousos e decolagens é maior do que a capacidade máxima de operação dos aeroportos, a solução é deslocar o voo para outros aeroportos ou para outros horários”, afirmou o pesquisador.

Consultor do Ipea para a pesquisa, Josef Barat explicou na época que 97% de toda a movimentação de passageiros e cargas do País passa necessariamente pelos 67 aeroportos administrados pela Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária). Destes, 31 são internacionais e 36, domésticos.

Os dados mais recentes computados, de 2008, mostram que eles movimentaram 113,3 milhões de passageiros e 1,5 milhão de toneladas de cargas. Guarulhos e Congonhas concentraram, naquele ano, 30% do total de passageiros do País, com 18,2 milhões e 12,1 milhões, respectivamente.

Segundo o estudo, nenhum dos dez aeroportos pesquisados tem capacidade para dar conta dos pedidos de pousos e decolagens nos horários de pico. Todos eles estão localizados em cidades que provavelmente serão sede de jogos da Copa do Mundo de 2014.

“Veja a situação em São Paulo. Guarulhos, por exemplo, tem capacidade máxima de 53 operações por hora. No horário de pico, a demanda é de 65 pedidos de pousos e decolagens. Em Congonhas, a capacidade é de 24, enquanto a demanda é de 34. O aeroporto de Brasília tem capacidade para operar 36 voos por hora, mas possui uma demanda (em horário de pico) de 45 pedidos”, disse Barat.
Em Manaus, a relação tráfego real e capacidade operativa é de 17 para 9. Uma diferença que chega a quase 100%. No aeroporto de Porto Alegre, essa relação fica em 14 (capacidade por hora) para 20 (número de solicitações de pousos e decolagens).

Em Curitiba (PR), a capacidade operativa é de 14 voos por hora, e a demanda durante o horário de pico é de 18. Em Natal, são feitos 8 pedidos para uma capacidade de 7 pousos e decolagens por hora. No aeroporto Santos Dumont (RJ), são registrados nos horários de pico 18 solicitações para uma capacidade de 15 voos por hora.

“Se não forem feitos investimentos adequados o País corre risco de não dar conta e enfrentar um apagão”, avaliou Barat. “Os aeroportos deveriam se preparar para receber mais passageiros e aviões mais modernos com uma antecedência de 40 anos”, acrescentou.

Segundo Barat, os fatores que restringem a expansão do sistema aéreo brasileiro são os gargalos de infraestruturas aeroportuária e aeronáutica, a escassez de recursos humanos qualificados em diversos segmentos e a elevada carga tributária do País. “Os aeroportos com maior crescimento de demanda não recebem vantagens de investimentos na mesma proporção".

De acordo com o pesquisador, para realizar investimentos, a Infraero precisa vencer dificuldades na obtenção de licenciamento, desapropriação de imóveis e também recursos, que atualmente não “alcançam a multiplicidade de obras necessárias para atender ao crescimento da demanda”.

Tráfego real x capacidade de operação

Relação entre a capacidade infraestrutural instalada e a efetivamente utilizada nos aeroportos

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Fonte: Ipea

Potencial de crescimento

De acordo com o estudo, que faz parte da série Eixos do Desenvolvimento Brasileiro, o Brasil possui atualmente 4.263 aeroportos e aeródromos. É a segunda maior rede do mundo, superada apenas pela dos EUA, com 14.497.

Apesar disso, a participação do Brasil e da America Latina é praticamente inexpressiva quando se considera o mercado mundial de transporte aéreo. “O continente sul-americano e o País, na verdade, estão à margem das principais rotas mundiais de negócios e turismo, bem como distantes dos mais importantes polos de irradiação do desenvolvimento globalizado”, afirmou o estudo. Em 2008, as empresas aéreas brasileiras foram responsáveis por apenas 1,6% dos passageiros/km transportados no mundo.

O estudo aponta o Brasil com o maior potencial de desenvolvimento na área de transporte aéreo entre os emergentes. Segundo o coordenador de Infraestrutura Econômica do Ipea, apesar de a América Latina ter pequena expressão nesse mercado, a região registra as maiores taxas de crescimento nesse tipo de transporte.

* Com Agência Brasil

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