Lembranças do acidente da Gol são diárias, diz viúva

Queda do Boeing 737 após colisão com jato da Embraer no ar completa quatro anos. Famílias de vítimas lançam campanha

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

Arquivo Pessoal
No quarto de Luíza, próximo às bonecas, o porta retrato com a rosa amarela
No dia 29 de setembro de 2006 o Boeing 737-800 da Gol, prefixo PR-GTD, voo 1907, foi atingido pelo jato executivo Embraer Legacy 600, e caiu matando todos os 154 passageiros. Ainda hoje, quatro anos após o acidente, a cada dois dias, Luíza, de 8 anos, troca a rosa amarela que deixa ao lado do porta retrato com a última foto que tirou com o pai, Rolf Gutjahr, uma das vítimas. Era a rosa que ele mais gostava e, frequentemente, dava de presente a ela e a mãe, Rosane.

No quarto dela ainda estão um tênis velho, um perfume e uma escova de cabelo com os dentes soltos. São os itens do pai que não deixou que fossem dados entre as centenas de coisas doadas após o acidente. Na garagem da casa da família, em Curitiba (PR), uma Hilux e um jipe de Rolf aguardam Luíza completar 18 anos para poder dirigi-los.

A empresária Rosane Gutjahr, de 52 anos, explica que o dia 29 de setembro é a “data coletiva” em que a população e a mídia se recordam da tragédia. Para ela e a filha, as lembranças são diárias. “É o marido que quando você deita não está na cama, são os lugares que você vai e lembra”, diz.

No Dias dos Pais a cadeira de Luíza fica vazia na sala de aula. A criança, diz a mãe, também deixou de comer bolinho de carne, um dos seus pratos favoritos. Mais do que isso chegou a chorar a primeira vez que os viu após a morte do pai. “Meu marido era um alemãozão, adorava cozinhar e sempre fazia bolinho de carne para ela. Depois de chorar, agora se alguém faz ela diz que não gosta mais. Acho que lembra muito ele (SIC)”, conta Rosane. “É uma dor que não dá para imaginar. A minha ainda administro, mas a de um filho te rasga por dentro”, completa ela.

A dor, diz a empresária, fica ainda maior por saber que aqueles que considera os principais responsáveis pelo acidente estão “soltos, trabalhando, viajando”. No caso, os pilotos do Legacy: Joseph Lepore e Jan Paul Paladino.

De acordo com o relatório da Aeronáutica sobre as causas do acidente, houve uma série de erros que culminou na tragédia. Entre eles, o plano de voo do Legacy, que estabelecia que ele deveria voar de São José dos Campos (SP) até Brasília a 37 mil pés de altitude e, depois, descer para 36 mil pés. Contudo, o jato se manteve na mesma altitude e às 16h56 atingiu o Boeing na via aérea que liga Brasília a Manaus.
A Aeronáutica indica também que o transponder, equipamento que alerta para o risco de colisão e poderia ter evitado a tragédia, foi manuseado de forma errada pelos pilotos e estava desligado. “Só foram ligar depois da colisão, está gravado na própria caixa de voz. É a mesma coisa que você entrar em um carro sem freio. Eles não conheciam a operacionalidade da aeronave”, acredita Rosane.

Por conta do que chamam de “assassinato” e “crime”, parentes das vítimas do voo 1907 lançaram, há cerca de 20 dias, a campanha 190 Milhões de Vítimas, na qual defendem que todos os brasileiros são, de alguma forma, também vítimas da queda do Boeing 737.

Paladino e Lepore, apesar de responderem a dois processos criminais do Brasil, continuam trabalhando normalmente. Paladino como piloto da American Airlines e, Lepore, da empresa de táxi aéreo ExcelAire. “Você corre o risco de sentar em um avião para os Estados Unidos, a Europa e ter o Paladino como piloto e ele cometer o mesmo erro que no acidente da Gol. Todos nós somos vítimas e, se não fizermos alguma coisa, corremos o risco de ter nosso irmão, filho, amigo morto da mesma forma”, enfatiza Rosane, que coordena a campanha.

Na internet, até por volta das 17h de terça-feira, o site da campanha  contava com um abaixo-assinado com 35.772 “vítimas” pedindo a punição dos pilotos.

Nesta quarta-feira, representantes da associação dos familiares das vítimas, incluindo Rosane, pretendem entregar na sede da American Airlines, em São Paulo, duas “caixas-pretas” de papelão, com CDs que contêm a gravação da caixa de voo e voz da aeronave. “É a prova técnica que mostra o que piloto fez”.

AE
Destroços do avião foram encontrados um dia após o acidente em uma área de floresta amazônica na Serra do Cachimbo, no norte do Mato Grosso

Indenização

Rosane afirma que diversas famílias fizeram acordo com a Gol. Algumas, segundo ela, por valores muito baixos, em torno de R$ 30 mil. “Tem famílias que dependiam do salário daquele que estava no voo e só não passoaram fome porque os parentes se reuniram e ajudaram”, diz.

Já ela e outros familiares não entraram em acordo com a companhia aérea. “Não quero dinheiro, quero que paguem pelo crime. Acidente é quando acontece sem querer. Eles (pilotos) sabiam que voando com o transponder desligado e tantos outros erros corriam o risco de matar e morrer.”

Procurada, a Gol informou por meio de nota que, "no atendimento às famílias das vítimas do acidente com o voo 1907, seguiu e, continuamente excedeu as normas internacionais que guiam e orientam as ações nesse tipo de situação". A companhia diz que "as famílias das vítimas sempre foram o foco prioritário das atenções e isso serviu de princípio para todas as decisões tomadas pela empresa no período" e acrescenta que é considerada referência mundial no setor".

A Gol informa ainda que fez acordos com familiares de 145 passageiros dos 154 que estavam no avião. "A Gol tem todo interesse em fazer mais acordos, tão logo seja procurada por representantes legais dos familiares".

Veja no infográfico os piores acidentes aéreos da história da aviação brasileira

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