Especialistas discordam de que raio tenha causado queda de avião

Forte tempestade e mudança abrupta do vento são as possíveis causas do desastre

Maria Fernanda Ziegler de Castro, iG São Paulo |

Nesta segunda-feira, um Boing 737-700 da companhia aérea Aires que pousava em meio à forte tormenta no aeroporto Gustavo Rojas Pinilla, em San Andrés, na Colômbia, partiu-se em três pedaços . Apenas uma pessoa morreu aparentemente de infarto, enquanto pelo menos outras 124 ficaram feridas, sendo cinco em estado grave.

AP
Avião que caiu durante pouso é visto em pista do aeroporto da ilha de San Andrés, na Colômbia
O piloto do avião, capitão Wilson Gutiérrez, disse que, quando faltava menos de 80 metros para chegar à cabeceira da pista, a aeronave foi atingida por um raio e isso teria desestabilizado o avião.

Especialistas ouvidos pelo iG , porém, afirmam que raio não desestabiliza o avião a ponto de derrubá-lo. “A aeronave foi projetada para receber raios”, disse o professor do centro de estudos estratégicos de transporte aéreo da UFRJ, Respício do Espírito Santo.

“Foi um pouso mal-sucedido. Provavelmente o piloto perdeu o controle do avião por causa de correntes inesperadas”, disse o comandante aposentado e professor de Ciências da Aeronáutica da PUC-RS, Ênio Dexheimer.

Os dois professores concordam que a queda e a quebra do avião deram-se por grandes instabilidades do ar na hora do pouso e principalmente pela ocorrência das chamadas tesouras de vento – rajadas de vento verticais, que vêm de cima para baixo e se bifurcam.

Respício afirma, no entanto, que desde o acidente da Delta Airlines em Dallas, em 1980, a aviação comercial utiliza um radar que detecta a formação das chamadas tesouras de vento. “Provavelmente, esse radar não estava acionado ou funcionando”, disse.

O avião voava a baixa altitude, pois já estava em procedimento de pouso, o que torna a ação das tesouras de vento mais devastadoras: elas jogam o avião para baixo. “Em alta altitude, quando o avião passa por tesouras de vento, não há tanto perigo. Apenas o susto e a sensação de a aeronave estar caindo em um buraco.”

Um fato que pode ter contribuído para a quase total sobrevivência de passageiros e tripulação é a quantidade de combustível. “Nessas situações, o perigo de explosões e incêndio é muito grande. Provavelmente havia pouco combustível na aeronave”, disse.

Dexheimer já teve a experiência de ter seu avião atingido por raio algumas vezes enquanto piloto. Ele lembra que o raio não desestabiliza a aeronave e muito menos causa um acidente como o da Colômbia.

“Acredito que o raio foi um coadjuvante nesse caso. Devia haver grande instabilidade do ar na hora do pouso. Quando o avião é atingido por um raio, nada acontece fora um grande clarão e um cheiro forte de fio queimado”, disse.

O professor explica que esse cheiro forte não tem relação nenhuma com fogo. Ele se dá quando a corrente elétrica do raio rompe partículas de oxigênio (O2) próximas ao avião e ocasionalmente elas podem se transformar em gás ozônio (O3), que tem cheiro forte de fio queimado.

Procurada pela reportagem, a Boeing informou que está mandando uma equipe de análise técnica para acompanhar as investigações da agência colombiana de aviação (DJAC).

Arte/iG
Avião que vinha de Bogotá caiu durante o pouso na ilha caribenha de San Andrés

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