"Trair e Coçar É Só Começar" completa 25 anos em cartaz

Espetáculo "se propõe a divertir e diverte", explica o autor Marcos Caruso

Augusto Gomes, iG São Paulo |

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O autor e ator Marcos Caruso
Vinte e cinco anos em cartaz e mais de seis milhões de espectadores. Os números da peça "Trair e Coçar É Só Começar" são impressionantes. E tornam ainda mais curioso o fato que, quando foi escrita por Marcos Caruso, em 1979, não houve ninguém disposto a encená-la. Na época, Caruso estava, segundo suas próprias palavras, "quebrado". "Decidi então escrever um espetáculo que fosse um sucesso", conta. E assim ele fez, "matematicamente". "Me inspirei nos mestres do vaudeville. É um gênero imbatível, que tem essa matemática para fazer o público se divertir", explica.

Deu certo, mas levou tempo. "Trair e Coçar" pode ter batido todos os recordes do teatro brasileiro, mas ficou seis anos na gaveta até finalmente entrar em cartaz. "Eu sabia que seria sucesso se fosse montada. Mas passei um ano mostrando para as pessoas e ninguém se interessou", conta. Os anos se passaram e Caruso teve um grande êxito com "Sua Excelência, o Candidato". "A peça ficou dois anos em cartaz. Quando saiu, o (diretor) Atilio Riccó me perguntou se eu não tinha outro texto na gaveta. Aí me lembrei do 'Trair e Coçar'."

Na trama, dois casais suspeitam que estão sendo traídos, tudo por causa de uma sucessão de mal-entendidos provocada pela empregada Olímpia. Caruso é o primeiro a admitir que o espetáculo não tem outro objetivo a não ser o de divertir. "Mas ele não é menor porque não aborda um tema importante", ressalta. "A reflexão faz parte da obrigação de um espetáculo quando ele se propõe a fazer refletir. O choro faz parte quando ele se propõe a emocionar. E o riso faz parte quando ele se propõe a divertir", explica.

Nesses 25 anos em cartaz, essa foi a principal crítica feita à peça: a de que se trataria de um humor sem conteúdo. "Isso já me magoou muito", reconhece Caruso. "As pessoas diziam para mim: por que você escreveu um texto tão raso e ingênuo se você tem condições de fazer coisas mais importantes? Porque 'Trair e Coçar' realmente não tem o que outros trabalhos meus como 'Porca Miséria' e 'Sua Excelência, o Candidato' têm, de colocar o dedo na ferida", diz. "Mas a sua função como teatro é amplamente cumprida. Ela se propõe a divertir e diverte."

Divulgação
Elenco da atual montagem de "Trair e Coçar É Só Começar"
O preconceito contra o humor "raso" da peça, quem diria, quase impediu que a atriz mais marcante de sua história participasse da peça. Denise Fraga, a principal intérprete da empregada Olímpia, pensou duas vezes antes de aceitar o papel. "Quando o Atílio Riccó me convidou para substituir a Suely Franco, eu pensei: fazer vaudeville? Será? Na época, eu tinha um grupo e queria fazer algo mais sério, mais profundo", lembra. Mesmo assim, aceitou e acabou vivendo Olímpia por quatro anos. "Foram 1550 apresentações. Eu contei."

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Denise Fraga
Ela não consegue imaginar como seria sua carreira sem o espetáculo. "Eu já tinha feito uma novela, era razoavelmente conhecida. Mas depois de 'Trair e Coçar' tudo mudou. O convite para fazer a TV Pirata, por exemplo, só veio por causa da peça", diz. Foi uma grande escola de atuação. "Foi lá que aprendi o timing da comédia. Cheguei ao ponto de ficar analisando as risadas do público. Quando eu não gostava de uma cena, as pessoas falavam para mim: 'mas todo mundo riu, Denise'. E eu respondia: 'mas eles podiam ter rido mais'."

Para Caruso, o saldo foi de muito orgulho. Tanto que, até hoje, ele assiste ao espetáculo com regularidade. "Vi há três semanas no teatro Bibi Ferreira. Gosto de sentar na última fila e acompanhar a reação do público, as ondas de risos", afirma. Quanto ao lucro que a peça proporcionou, ele prefere não comentar. "Foram muitos cruzados, cruzados novos, cruzeiros, cruzeiros reais e reais", brinca.

Para comemorar os 25 anos em cartaz, o texto da peça foi lançado em livro. "Foi só quando recebi o convite da editora que percebi o aniversário", diz Caruso. "Ser bem-sucedido em teatro significa ficar em cartaz sete, oito meses, até um ano. Tanto que, quando completamos dois anos, recebemos uma placa no teatro Princesa Isabel", conta. "A partir do sexto ou sétimo ano, eu me acostumei. Agora sou obrigado a aceitar que a pessoa não vai sair de cartaz nunca."

Outros sucessos

Diante dos 25 anos de "Trair e Coçar É Só Começar", oito anos em cartaz pode até parecer pouco. Mas o feito de "Carro de Paulista", escrita por Mário Viana e Alessandro Marson, não é pequeno. A comédia estreou em São Paulo em 2003 e, desde então, praticamente não saiu mais de cartaz. Até março, era encenada no Ruth Escobar. Em julho, reestreia em outro local ainda não definido. "Foi uma pequena pausa para dar uma refrescada", explica o diretor Jairo Mattos.

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Elenco da peça "Carro de Paulista"
Assim como aconteceu com Marcos Caruso, Mario Vianna teve de esperar até colocar "Carro de Paulista" no palco. "A primeira versão do texto ficou pronta em 2000. Demorou três anos até encenar", lembra o dramaturgo. O texto só saiu do papel quando o diretor Jairo Mattos leu. "Por coincidência, ele estava trabalhando com alguns atores super jovens. Nós não tínhamos um tostão. Acho que montamos a peça com R$ 800."

O espetáculo estreou em 2003, no Centro Cultural São Paulo. A história acompanha quatro jovens que deixam a Zona Leste de São Paulo para se divertir no centro da cidade. Viana inspirou-se em jovens que via na rua. "Eu moro perto da avenida Paulista, e sempre via jovens amontoados num carro velho indo para a rua Augusta barbarizar", diz.

Assim como "Trair e Coçar", "Carro de Paulista" é uma comédia que busca a comunicação fácil com o público. "Ela inclusive dá mais certo quando é montada em bairros mais populares. Em bairros ricos ela não funciona tão bem", afirma Vianna. Na opinião de Jairo Mattos, a explicação para o sucesso é a plateia juvenil. "Quase não há espetáculos para essa fatia do público. E eles são fiéis. Quando gostam, eles voltam e trazem a família junto."

A terceira campeã de longevidade no teatro de São Paulo é "A Filosofia na Alcova", em cartaz desde 2003. Mas, enquanto "Trair e Coçar" e "Carro de Paulista" são comédias, o espetáculo em cartaz no Espaço dos Satyros vai por outro caminho: baseado na obra clássica do Marquês de Sade, conta a história de uma jovem aluna dominada por dois mestres libertinos.

Serviço

"Trair e Coçar É Só Começar"
Teatro Bibi Ferreira
Avenida Brigadeiro Luis Antônio, 931, Bela Vista
Sextas, 21h30; Sábados, 21h: Domingos, 20h
Ingressos: R$ 50 (sexta e domingo) e R$ 60 (sábado)

"A Filosofia na Alcova"
Espaço dos Satyros 2
Praça Franklin Roosevelt, 134, Consolação
Sábados, 23h59
Ingressos: R$ 30

"Carro de Paulista"
O espetáculo reestreia no meio do ano, em teatro ainda não definido

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