Teve artista petrificado diante do Roberto

Lançando o CD Double Face, Zezé di Camargo fala do Rei, do fracasso de Lula, o Filho do Brasil, e dos candidatos à presidência

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG |

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Zezé di Camargo e Luciano: sertanejo pop e "modões" no mesmo disco
Depois de 19 anos dedicados a um único e bem-sucedido modelo de pop sertanejo, Zezé di Camargo e Luciano decidiram confessar em público que possuem, pelo menos, duas caras. Double Face é o nome pomposo do novo trabalho da dupla, feito de dois volumes acoplados. Um é feito de canções inéditas, mas segue o formato do sertanejo pop de sempre.

O outro é constituído pelo que os dois cantores goianos chamam de “modões”, canções sertanejas mais tradicionais, regravadas por eles à maneira como foram lançadas originalmente por outras duplas, sobretudo nos anos 80 e 90. Embora não sejam inéditas, o ato e o modo de gravá-las é uma novidade na história da dupla.

Em entrevistas separadas, os irmãos falaram ao iG sobre música, mas também sobre outros assuntos da predileção de ambos, como política, no caso de Zezé, e internet, no caso de Luciano. Zezé, a face A da dupla, explicou as intenções de Double Face e comentou a confusão em que seu irmão mais novo se meteu há poucos dias, ao revelar à Folha de S.Paulo que tinha uma identidade secreta no Twitter – segundo o jornal, uma conta “fake” para criticar políticos e “ficar brigando e xingando todo mundo”. Começamos com Zezé di Camargo:

Por que o disco foi feito nesse formato?

Eu tinha muita vontade de fazer um projeto do que a gente chama de “modões”, músicas sertanejas de um certo período, anos 80 e início dos 90, um apanhado de coisas de Chitãozinho & Xororó, João Mineiro & Marciano, Trio Parada Dura... Queria fazer sem bateria, com violões, cordas, trompetes, sanfona e baixo. Mas tinha medo, porque tem um preconceito de que artista, quando para de produzir, começa a gravar discos de projeto. Aí me veio a ideia do Double Face, faço um disco de músicas atuais para atender o mercado e pegar execução em rádio, e boto junto um de modão, do jeito que gosto. A gente fez um disco mais pop, o som que se faz hoje, e no outro a gente sentou o pé na jaca. Pegamos essa fase das influências de harpa paraguaia, as polcas paraguaias, os chamamés da Argentina, os mariaquis mexicanos, rasqueados, guarânias, canção rancheira.

Qual dos dois CDs é mais a cara de vocês?
Olha, acho que o pop é a nossa cara. Nós trouxemos uma informação mais pop para a música sertaneja, gravamos "Menina Veneno". Mas se você me perguntar qual disco eu quero ouvir, quero ouvir o de modões. É o que boto no carro e não consigo tirar. Fiz esse disco para nós e para os amigos. Estávamos em Uberlândia, cinco ou seis duplas dessa turma nova, sentamos para fazer uma violada e só saíram essas músicas. Não tem jeito, todo mundo gosta, ninguém cantou nada atual. A gente está cantando um tipo de música, mas querendo ouvir outro tipo. Na hora que o cara vai ouvir, não é aquela que ele canta.

Teve algo a ver com o encontro de todos no especial sertanejo do Roberto Carlos?
Não, o Double Face eu já estava fazendo antes. Mas Roberto Carlos é impressionante, ele influenciou a carreira de todos que estavam ali. Todo artista sertanejo canta meio romântico graças ao Roberto Carlos, aos Beatles, a essa geração. Teve artista que no ensaio não conseguia falar nem cantar, porque estava petrificado diante do Roberto. Estava ali realizando o sonho de conhecer e chegar perto de Roberto Carlos, não era nem de cantar com ele. É muito bom, porque senti isso também, na primeira vez que estava diante dele. Fiquei olhando se ele era como eu imaginava, do tamanho que eu imaginava.

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Zezé: "Tem artistas que merecem ter a história contada, né?"
Virou moda fazer filmes parecidos com 2 Filhos de Francisco . Teve o do Lula, vai ter o do Frank Aguiar. Você vê semelhanças?
Tem artistas que merecem ter a história contada, né? Acho que alguns se precipitam, não vou falar quem. Não vi o filme do Lula, mas achei que ia ser um sucesso bem maior do que foi. A história dele é maior do que a nossa, mas às vezes uma boa história não é tão bem contada assim, não dá sorte. Antes do nosso filme ser lançado, estava me sentindo como aquele cara romano que é jogado na cova dos leões para ser comido vivo. Aí o filme veio e quebrou a cara de muita gente que já estava preparada para dar um tapa e teve que assoprar. Quando veio o do Lula, todo mundo estava imbuído de um espírito igual ao nosso, e aí, não sei por que razão, acabou não sendo tão grande. Nosso grande mérito foi que o diretor do filme, Breno Silveira, foi muito feliz, transformou uma história boa em ótima.

Qual é sua opinião sobre o caso do perfil do Luciano no Twitter?
Não me envolvo muito nessa coisa de Twitter e internet, confesso que sou meio conservador com isso. Luciano diz que tinha um Twitter fake, mas não falava que era ele para não influenciar os que iam ler. É muito fácil influenciar as pessoas se você é um líder, uma pessoa que tem muitos seguidores. E o jornalista entendeu que Luciano não queria assumir, peitar as opiniões dele.

É difícil para um artista famoso dar opinião livremente?
Eu já paguei, mas não tenho medo de me posicionar politicamente. Antes de ser cantor sou um cidadão, gente. Tenho direito de expressar minha opinião, não vou esconder jamais em quem eu penso em votar ou em quem não vou votar. Como artista não posso usar isso porque acaba influenciando as pessoas, mas o cidadão Mirosmar José de Camargo tem total direito de expressar suas opiniões.

É mais comum os artistas esconderem o que pensam.

É, o artista tem essa mania. Como tem medo de perder popularidade, de agradar uns e desagradar outros, ele se esconde, coloca o escudo do artista na frente do cidadão. Posso até estar errado e me decepcionar com coisas em que confio, mas isso é natural, a gente se decepciona todos os dias com amigo, com filho, com mulher. Quando assumi a campanha do Lula, quem assumiu a campanha 100% fui eu. Luciano ficou sempre na retaguarda, quem batia de frente sempre era eu. Quem convenceu Luciano a fazer shows para o Lula fui eu. Não só assumi o lado artístico, como fui um cabo eleitoral.

Sente orgulho de ter feito isso?
Sinto muito orgulho, fazendo uma análise geral do governo Lula, de como era o Brasil e como é hoje. “Ah, mas está bom porque ele herdou do governo passado”, não me interessa. Ele podia muito bem chegar lá e meter o pé na jaca. Lido muito com a massa popular, e comparando o Brasil antes dele e hoje, a vida do cidadão mudou. Não é o ideal, mas você não conserta uma situação da noite para o dia. Que está melhor, está. Que houve avanço, houve. Tem algumas atitudes dele que critico, como essa posição de ser mediador do problema da bomba nuclear do Irã. Ele quis ser maior do que é, acabou comprando uma briga com a comunidade mundial. O Brasil devia se manter neutro ou até a favor das sanções, porque está provado por A mais B que o Ahmadinejad é um genocida.

Mesmo essa posição é polêmica, as opiniões estão divididas.
É, não quero defender o Irã nem a posição do Lula, mas alguns países do Ocidente, como os Estados Unidos e as grandes potências, têm a bomba atômica. Eu tenho o direito de ter um revólver para dar um tiro em você, mas você não tem o direito. Se são contra a proliferação das armas nucleares, por que não acabam com as armas deles também? Vamos ficar desarmados, todo mundo.

Pretende fazer algum tipo de campanha nas eleições deste ano?
Não, fazer campanha mesmo, não. Mas que vou manifestar minha opinião quando for procurado, vou manifestar.

Aproveito e pergunto já, então.
Não decidi em quem vou votar, sinceramente. Acho que a Dilma é uma boa ideia, se você olhar a história do Lula que está por trás dela tudo bem. Mas ela, como presidente, nós não temos essa experiência. Tenho uma pessoa que me fascina muito pelo que já ouvi ela falando, que é a Marina Silva, mas não quer dizer que seja uma conquista definitiva. Serra acho que é continuação de uma coisa que é meio termo no país inteiro, que é o PSDB. Tivemos experiência com dois mandatos do Fernando Henrique Cardoso, estamos tendo anos e anos de experiência aqui em São Paulo e não é nada daquilo que se propaga. Se vai fazer, transformar o Brasil, faz aqui em São Paulo primeiro então. Fica essa incógnita, você não deu conta de arrumar a sua casa, como quer arrumar a rua inteira?



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