Sou de uma geração que gosta de falar

Twitter, rock sertanejo e política são alguns dos elementos da conversa com Luciano, o outro lado da dupla com Zezé di Camargo

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

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Zezé com Luciano, que não se interessava por música e entrou na carreira por influência do irmão
Luciano, a face B da dupla com Zezé di Camargo, se diz triste com o modo como foi interpretado o fato de ter uma conta secreta no Twitter – inclusive por um roqueiro da mesma geração que ele, Roger Moreira, do Ultraje a Rigor. Afirma que ocultar o que pensa não é de seu feitio, e externa suas opiniões particulares sobre a relação entre o rock e o sertanejo, o Twitter e a Wikipedia, a política brasileira e o uso dos fãs por parte de artistas e marcas comerciais.

Para você, é novidade cantar esses “modões”?

Para mim sim, porque nunca cantei. Já cantei rancheiras, guarânias e chamamés inéditos nos nossos discos. A surpresa para mim foi fazer essa viagem no tempo, naquelas músicas que ouvi através do Zezé. Na década de 80 eu curtia rock brasileiro, Titãs, RPM, Capital Inicial, Ultraje a Rigor. Descobri esses dias que o Roger acha que eu sou um cuzão. Falou isso no blog dele, depois falou que não falou. Surgiu um boato de que eu tinha um Twitter falso, nunca tive. Eu tinha um Twitter no qual eu falava de todos os assuntos e não me identificava, para não influenciar ninguém. Mas, para chamar atenção, o menino da Folha colocou: “Luciano tem um Twitter falso”. E as pessoas menos informadas, no caso o Roger, saem replicando coisas que não conhecem. Eu não precisaria de um Twitter falso para falar, porque sou um dos poucos artistas que, na hora que teve que bater no governo e expor seu pensamento, fui lá e expus. Mas voltando, deixando o veneno de lado...

Se não fosse o Zezé talvez você tivesse virado um roqueiro?
Não. Eu não me interessava por música, passei a me interessar depois que o Zezé foi para Goiânia, me ouviu cantar e falou que eu era afinado. Foi uma coisa bem de casa, bem de irmão. Zezé fala que eu trouxe para ele esse lado pop da dupla. Escuto muito The Verve, Coldplay, Aerosmith, são as bandas lá de fora que gosto. Gosto de James Blunt, que é solo, um pop romântico. No Brasil continuo escutando essa turma do rock. Quando surgimos no mercado, tinha gente dentro do rock que achava que tinha que detonar só porque nós éramos outro estilo. Quando conheci Dinho Outro Preto, do Capital Inicial, ele veio com um carinho tão grande, caramba, um cara que tenho como ídolo vindo me parabenizar! Esses dias vi ele no CQC dizendo só gosta de rock. Rachei o bico, pensei comigo na frente da TV: “Dinho, sem-vergonha, e quando você falou para mim que gostava da minha música?”. Não tenho vergonha de dizer que adoro rock brasileiro, sou um eterno roqueiro. Eles foram os caras que tiveram a chance de gritar pós-ditadura militar. Estava falando com o Paulo Miklos dos Titãs, no avião, que os ídolos da minha geração Coca-Cola foram muito mais beneficiados, porque a gente não sabia o que gritar. Éramos todos meninos que não passamos pelo que eles passaram, e eles gritavam por nós. Ele disse: “Mas, Luciano, meus ídolos também gritavam por nós. É que a censura calou a boca deles”. Caraca, eu nunca tinha parado para pensar assim, que os caras que gritavam por eles foram calados e eles, de uma forma ou de outra, estavam retribuindo aquele grito.

Você sente falta de gritar na música?
É, sou de uma geração que gosta de falar, expor seus pensamentos. Se eu tiver que admitir que minha ideia há um ano era uma em relação ao governo e hoje é outra, eu tenho esse direito. Não tenho o direito de tentar influenciar as pessoas por uma causa minha, mas se a causa for do Brasil posso, sim, dar minha opinião. Até sirvo de repente como uma ponte, sinto uma responsabilidade.

O Twitter era para falar coisas que, como artista, você achava que não devia?

Eu via internet como um lugar livre, para você falar o que pensa. Tinha um Twitter particular no qual eu não me identificava para não influenciar ninguém. Não era para me esconder.

Um monte de artista deve fazer isso, a diferença é que você contou.

Mas não era falso. Seria falso a partir do momento que tenho um oficial e outro para falar mal. Mas na conta oficial da dupla (@zcloficial) eu não postava nada. Aí ficou acordado entre nós que se eu quisesse dar minha opinião ali naquilo que eu achasse relevante para o Brasil eu ia dar. O outro eu deixei de ter quando tive liberdade de falar o que eu queria. Vejo aqui hoje: “A alteração no texto do ficha limpa pode beneficiar políticos já condenados”. Achei ridículo, tirei foto na hora e coloquei lá: “Se protelarem, vamos colocar os nomes dos ficha suja no Twitter”. Por que foram me condenar? Fui uma das pessoas que encabeçaram contra a CPMF. Quando surgiu o manifesto Cansei, fui um cara que falou: “Caguei para o cansei”. Pus a cara para bater, discuti com um monte de gente.

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Luciano: "Meu candidato não está mais, é o Ciro Gomes"
É difícil expressar opiniões quando se é artista? Pode, por exemplo, ser perseguido por um político se falar bem do outro?

Pois é, mas nunca expus minha opinião porque gosto de um candidato e odeio outro. Não. Se for um assunto que está todo mundo falando, por que eu não posso dar minha opinião? Eu posso. O que não acho justo é um cara dizer que tenho um Twitter falso para falar mal de político e aí um outro imbecil falar que sou um cuzão porque não tenho coragem de falar isso às claras. Poxa.
Por exemplo, sou totalmente contra o que as marcas comerciais fazem. Outro dia entrou no Twitter uma menina com um logotipo da cerveja Antarctica na cara. Passei a seguir ela e perguntei: “Escuta, você tem essa marca tampando sua foto, é opção?”. Ela falou: “Não, entrei numa promoção”. Entra na promoção e quando sai a foto fica automaticamente com aquela marca. Ela está fazendo propaganda, sem ganhar nada. Isso não é uma ditadura? A Antarctica não está sendo autoritária fazendo isso? Se paga artista para falar da cerveja, por que se acha no direito de chamar para promoção e a pessoa sair com Antarctica na cara tampando o rosto? Fiz essa pergunta em aberto, e muitas pessoas começaram a se manifestar, “Luciano, participei de uma promoção e saí com uma marca de pinga Ypioca”. Muitos não sabiam como tirar a marca! Que façam isso, mas ensinem a pessoa a tirar se não estiver a fim.

Não sei se você faz isso, mas tem gente famosa que ganha dinheiro para citar nome de marca no Twitter.
Nós somos garotos-propaganda da Marabraz. Fomos fazer a propaganda da Copa 2010, gravei o making of e postei no Twitter, para os seguidores verem como é. Mas não coloquei marca de nada. Quando comecei a frequentar o Twitter oficial, entrou um cara com a mesma roupa do Mendigo e falou: “Mais um sertanojo para a gente zoar”. Vou atrás do cara, sendo que ao mesmo tempo que solta ele já corre e bloqueia para eu não ter direito de resposta? Tenta você postar alguma coisa no Wikipedia. Existe uma panela ali dentro que vão cortando o que você tenta acrescentar em algum assunto. Não preciso colocar as pessoas entrando para seguir Zezé di Camargo & Luciano e saindo com a cara marcada, igual muitos artistas fazem. Se a pessoa aceita porque é fã tudo bem, mas eu acho que é forçar a barra. Nessa coisa de indicar os finalistas para o Prêmio Multishow, sei o que tem de artista que alugou lan house e colocou um monte de gente lá dentro para ficar votando o dia inteiro. Se vou estar ou não entre os finalistas, pode ter certeza absoluta: não usei ferramenta nenhuma para estar.

Já sabe em quem vai votar?
Não, estou em dúvida. Meu candidato não está mais, é o Ciro Gomes. José Serra tem uma carreira política brilhante, mas e aí? O partido dele é um partido que não divide o bolo. O PT se mostrou um partido que não só divide o bolo, como também pega o recheio muito mais para ele. A posição do Brasil economicamente falando está bem, mas não podemos dizer que é resultado do governo do Lula, e sim de uma administração que vem aos poucos e era para estar mil vezes melhor. É um feito do povo brasileiro, uma educação política de muitos anos. Não posso dizer que sou contra o Lula, para mim ele é uma pessoa íntegra, que realmente pensa no social, no povo do Brasil. Mas, das pessoas que compõem o governo Lula, muitos não são. Eu gostaria que o Brasil tivesse a opção de votar ou não votar. Também não sou a favor desse monte de colunista que só sabe falar mal do governo, não enxerga nada. Amanhã, quando Lula sair, vai fazer o que da carreira dele? Se a Dilma não ganhar, vai falar o quê? Vai falar só bem do Serra? Existem os Diogo da vida que deveriam ponderar um pouco no que falam. Você só pode bater quando tem a convicção de que está batendo por muitos, não por você. E tem que pensar muito antes, porque um tapa na cara, amigo, dói muito. Tem cara que apresenta programa de economia, mete o pau no Brasil, fala sempre do jeitinho brasileiro, e eu já vi o cara tentando entrar na frente de todo mundo na fila do aeroporto. Pô.

Você assistiu o filme do Lula? Quiseram ir na cola do filme de vocês?

Assisti. Quanto à qualidade do filme, acho que é muito boa, só que não é verdadeiro. Despiram o Lula do que era o Lula daquela época. A pretensão que eles tinham, de 20 milhões de espectadores, não foi nem supervalorização do trabalho deles, foi desvalorizar o dos outros. São tantas empresas contribuindo, nunca vi um filme que teve tanto apoio quanto o do Lula. Vê lá todas as empresas, privadas, mistas, estatais, vê se você vê essas empresas apostando em outro filme. Aí fala que isso é não política?

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