Atriz fala, com exclusividade ao iG, de sua relação conflituosa com a televisão que a projetou internacionalmente. O papo também vai ao sexo e a sua fase hippie

Esta entrevista aconteceu no meio da rua. Literalmente. Após o debate “Histórias das telenovelas”, já não havia tempo para se permanecer dentro do suntuoso Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro do Rio. Foi caminhando para a parte externa, que Sonia Braga conversou com a reportagem do iG .

O que, de manhã cedo, é um frenético vai e vem de pedestres disputando espaço com carros e ônibus, à noite é apenas uma sossegada via. Antes de sair do prédio, entretanto, a atriz não resistiu em posar junto ao pôster da Mulher Maravilha, desenho do cartunista Ziraldo, em exposição no local. “É rapidinho, é só uma foto”, pediu ela para o segurança, como se alguém fosse capaz de negar um pedido dela, da eterna “Gabriela”.

Aos 60 anos - bem vividos, Sonia se diz um pouco como a personagem “Mulher Maravilha”, por que não? “Principalmente quando estou diante do Homem Aranha”, brinca ela, para em seguida dizer que não tem herói algum compartilhando seu espaço. “Estou solteira, gastei minha cota de homens nesta vida”, afirma. Sobre relacionamentos com mulher – como o que interpretou na série americana “Sex and the City”, ela escracha sua opinião: “Se um dia eu for lésbica, quero comer a Melancia. Aquela melancia deve ser uma delícia”, diz, deixando sua voz ecoar no silêncio da noite.

George Magaraia
"Não me sinto atriz, sou mais um ser do audiovisual. Ator de verdade gosta de texto. Eu gosto da cena", diz Sonia

Mas Sonia não é só simpatia. Quando quer ser, ela se veste de uma dificuldade natural às grandes estrelas. Questiona as perguntas, as devolve em tom agressivo e, em seguida, sorri. Sonia, a eterna “Gabriela” de Jorge Amado, a inesquecível Julia Matos de “Dancing Days”, não gosta de teatro. Tem aflição. “As pessoas me perguntam por que não faço teatro. Respondo que é porque camarim não tem janela. Mas a verdade é que tenho verdadeira aflição a encarar atores sem câmera por perto”, diz.

Em outubro Sonia quebra o jejum da TV, com uma participação na série “As Cariocas”, da TV Globo. Sua freqüência escassa - sua última novela foi em 1999, “Força de Um Desejo”; depois disso apenas uma breve aparição em “Páginas da Vida”, em 2006 – não tende a mudar. “Não vou aceitar fazer um papel para ganhar um salário que é a mesma coisa de dez anos atrás”.

A entrevista termina quando seu táxi chega. A atriz, que mora em Niterói, entra no veículo jogando sua echarpe no banco traseiro, não sem antes virar para trás, jogar os cabelos e dar um aceno. A rua, que por alguns bons minutos ficou lotada de Sonia Braga, voltava à sua condição de silêncio da madrugada.

iG: Revendo há pouco sua trajetória na TV brasileira, você se emocionou. O que se passou na sua cabeça?
SONIA:
Fiquei emocionada revendo estas cenas, porque 80% daquelas pessoas que passaram por ali já morreram. A morte não me assusta. A passagem do tempo só me assustou quando meu pai morreu, e eu tinha 9 anos. E minha família teve que se virar sem ele. Agora não mais. Acho que esta passagem é relativa.

iG: Por que você faz tão pouca TV no Brasil?
SONIA:
Corre um boato de que não me encontram para eu fazer TV. Como me encontram para fazer parte de um livro, um documentário, para dar depoimentos sobre qualquer assunto? Acho que não devem saber qual é o meu telefone.

iG: Será que não te chamam por que você é muito cara?
SONIA:
Não posso aceitar que queiram me pagar a mesma coisa que me ofereciam há dez anos. Como assim? Quanto se paga por um comercial de um minuto desses na grade? É muita coisa. Não acho caro pedir um minuto desse comercial como salário por semana. Não me incomodo de não trabalhar tanto. Só acho complicado ter que ficar um ano e meio no Brasil, para ter que provar às pessoas que quero trabalhar aqui.

iG: Por se impor desta forma, você tem inimigos na TV?
SONIA:
Você acha? Quem são meus inimigos? Que trabalhos eu recusei fazer na TV?

iG: Você é quem deve responder. Volta e meia surge boato de que você está para fechar participação em alguma novela, mas isso nunca se vinga.
SONIA:
Que papéis são esses? Que novelas são essas? Desconheço. Você é que está fazendo estas perguntas que nunca ouvi antes.

iG: Por que você não fez “Belíssima”, de Silvio de Abreu, por exemplo?
SONIA:
Ele foi a Nova York, conversamos por horas, fechamos um acordo para fazer a novela, mas não vingou. Por quê? Não podia aceitar por uma questão salarial.

iG: E teatro? Por que até hoje só fez uma peça (“Hair”, 1969)?
SONIA:
As pessoas me perguntam isso... Respondo que é porque camarim não tem janela. Mas a verdade é que tenho verdadeira aflição a encarar atores sem câmera por perto. Por que um ator, para ser considerado bom, tem que fazer teatro, se não se acha confortável fazendo aquilo? Ele pode ser bom fazendo outras coisas.

iG: Não é normal um ator falar que não gosta de teatro.
SONIA:
Pois é, eu sei. Não me sinto atriz, sou mais um ser do audiovisual. Ator de verdade gosta de texto. Eu gosto da cena. Vou te contar uma boa... Meu sonho era falar a frase “a porta da rua é a serventia da casa”. Aí pedi uma vez pro Gilberto (Braga) escrever uma cena com esta frase para mim. Imagina se ele, todo chique, ia escrever um clichê assim (risos). Um dia chegou o roteiro na minha casa com um bilhete dele ‘olha sua fala na página 33’. Achei o máximo falar aquela frase cheia de pose para a câmera.

iG: Por isso prefere as câmeras?
SONIA:
Sim, gosto do visual. Adoro provar roupa, testar figurino... tudo o que os atores de verdade odeiam (risos). Adoro tapete vermelho. Tem alguma coisa ali que me atrai muito. Posar para fotos, ai, adoro!

iG: Você já disse que foi com “Gabriela” que a mulher brasileira se deu a chance de se sentir bonita. Como você avalia hoje este olhar sobre o feminino?
SONIA:
Complicado, porque a gente globalizou tudo. Naquela época, éramos teleguiados pela imagem europeia. Todo mundo queria ser Brigitte Bardot, apesar da nossa bunda enorme. Com “Gabriela”, passamos a valorizar a beleza nacional. Mas hoje a gente tem absorvido muito do mau gosto universal, principalmente agora com a internet. Mulher brasileira tem de todo tipo. Tem eu, que sou baixinha e gordinha, e tem a Gisele Bundchen. Renata Sorrah emagrece e eu engordo. Olha que loucura!

iG: E as mulheres-frutas? O que pensa sobre elas?
SONIA
: Devem ser deliciosas, mas nunca experimentei nenhuma. Devo te confessar que me dá um desejo enorme de experimentar um dia aquela Melancia. Se eu encontrar aquela mulher, sou capaz de dar uma mordida nela (risos). Tem a Morango, né? Existe a mulher banana? Aquela que tira a casca e se mostra toda? Tem coisas que passam do limite e se tornam engraçadas.

iG: Você já interpretou uma lésbica em “Sex and the City”. Como você avalia este assunto sendo tratado na TV brasileira?
SONIA
: Às vezes perguntamos as horas, às vezes perguntamos em que ano estamos. Por conta do tipo de tema, parece que falamos de alguns assuntos estando no século passado. Fico boba quando um assunto desses é levado às páginas dos jornais. É ofensivo que ainda exista o preconceito, que é levado como uma exceção.

iG: Voce já se envolveu com mulheres?
SONIA:
Não sou gay, mas deixo as portas abertas. Para ser gay, basta ser homem ou mulher. Deixo todas as minhas portas abertas. Eu ainda não sou. Inclusive para as mulheres-frutas. Se um dia eu for lésbica, quero comer a Melancia (risos).

George Magaraia
"Não me sinto atriz, sou mais um ser do audiovisual. Ator de verdade gosta de texto. Eu gosto da cena", diz Sonia

iG: Quem é mais careta atualmente: a TV ou a sociedade?
SONIA
: Os dois lados. Encaretou geral, todo mundo. Nos anos 70 e 80, quando aconteceu a Aids, houve um retrocesso. Estávamos muito evoluídos no assunto sexo. A sexualidade estava bem discutida entre os jovens. Transar com camisinha foi um retrocesso nisso tudo.

iG: O que você ainda traz da fase hippie que viveu ativamente nos anos 70?
SONIA
: Trago tudo! Só não puxo fumo, mas o resto... Também não tomo nenhuma droga, não bebo, não fumo. Essas coisas que fui parando de fazer, né? Na realidade, acho que nasci assim, hippie.

iG: O que é ser hippie para você?
SONIA:
Não tenho a menor ideia. Acho a palavra linda. “Gabriela” era uma hippie.

iG: Há pouco você posou com o desenho da Mulher Maravilha. Aos 60 anos, se sente como tal?
SONIA
: Me sinto a Mulher Maravilha quando estou diante de um Homem Aranha (risos).

iG: E quem é seu Homem Aranha?
SONIA
: (Ela finge morder o gravador do repórter). Quer mesmo que eu responda? Eu não. Acho que gastei toda a minha cota de homens, não é possível.


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