Dois anos após ter sua realização questionada, maior mostra de artes do Brasil retorna em meio a polêmica

Gil Vicente em frente à polêmica série
Augusto Gomes
Gil Vicente em frente à polêmica série "Inimigos"
No final de 2008, havia dúvidas quanto ao futuro da Bienal de Artes de São Paulo. Uma das mais criticadas edições da história do evento, naquele ano a mostra ganhara o apelido de "Bienal do Vazio" por deixar um andar inteiro do prédio sem uma obra sequer. Para piorar, o presidente da Fundação Bienal, Manoel Pires da Costa, era acusado de diversas irregularidades pelo Ministério Público e a instituição sofria com uma dívida estimada em R$ 4 milhões. Esse cenário desalentador começou a mudar em junho do ano passado, quando uma nova diretoria, comandada pelo empresário Heitor Martins, assumiu a fundação.

Um ano depois de ter "sua própria realização questionada", nas palavras do próprio Martins, a Bienal se prepara para abrir as portas de sua 29ª edição. Com um orçamento de aproximadamente R$ 30 milhões, a mostra tem como tema as relações entre arte e política e leva o título de "Há sempre um copo de mar para um homem navegar", trecho de um poema de Jorge de Lima. Antes de abrir para o público, no sábado, a 29ª Bienal já causa polêmica. Nesta segunda-feira, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pediu que o Ministério Público investigue se uma das obras expostas faz apologia ao crime.

A obra em questão é a série "Inimigos", do artista plástico pernambucano Gil Vicente. Ela traz uma série de imagens do próprio artista executando personalidades como o presidente Luís Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, George W. Bush, Ariel Sharon e o Papa Bento XVI. "Claro que isso é um exagero, um absurdo, um retrocesso. O fato de partir da OAB é ainda mais desalentador", critica Agnaldo Farias, um dos curadores da Bienal. Ele garante que a série será exposta. "Dizer que se trata de uma apologia à violência é o mesmo que dizer que Édipo Rei incentiva o parricídio e o incesto".

Dois dos três urubus que fazem parte de obra de Nuno Ramos na Bienal
Agência Estado
Dois dos três urubus que fazem parte de obra de Nuno Ramos na Bienal
Transformado em centro das atenções da Bienal, Gil Vicente se diz surpreso com a polêmica. "Sei que 'Inimigos1 tem um teor crítico forte, mas não esperava uma reação assim. Principalmente vinda de uma instituição com a história da OAB, com tanta tradição de luta contra a censura", afirma. "Já expus essas obras no Recife, em Natal e em Porto Alegre e nunca passei por uma situação como essa". Ele conta que a maior parte da série foi feita em 2005. No ano passado, ele a completou com um retrato do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.

Outro ponto polêmico da 29ª Bienal é a pichação. Na edição anterior, um grupo invadiu e pixou o Pavilhão Cicillo Matarazzo. A polícia foi chamada e uma jovem foi presa. "Naquele momento, a Bienal perdeu a oportunidade de discutir o assunto, ao tratar o tema como mero caso de polícia", acredita o curador Moacir dos Anjos. Agora, a pichação está de volta pela porta da frente. "Ela está presente através de documentação e debates. Não faria sentido oferecer um muro para ser pichado", explica. Segundo ele, o objetivo não é discutir se pichação "é ou não é arte". "Mas nos interessa colocar essas questões", diz. "Se estamos falando de arte e política, não podemos ignorar uma prática que comunica uma visão de mundo".

A Bienal abre ao público neste sábado (25), a partir das 10h, e fica em cartaz até 12 de dezembro. A entrada é gratuita. Os horários de funcionamento são os seguintes: de segunda a quarta, das 9h às 19h; quintas e sextas, das 9h às 22h; sábados e domingos, das 9h às 19h. A entrada só é permitida até uma hora antes do fechamento. O Pavilhão Cicillo Matarazzo fica no Parque Ibirapuera (Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, Ibirapuera). Site oficial: http://www.fbsp.org.br

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