Rap virou trauma da Virada Cultural

Confusão no show do Racionais MCs há três anos deixou gênero longe da programação do maior evento da cultura em São Paulo

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Três anos. Esse é o tempo em que o rap, de música, passou a ser um trauma para a Prefeitura de São Paulo, pelo menos na Virada Cultural. Em 2010, o gênero ficou mais uma vez de fora dos principais palcos da festa , a maior da capital paulista, e foi pulverizado nos CEUs, centros educacionais na longínqua periferia. Tudo por conta de um malfadado show do Racionais MCs em 2007, na Praça da Sé: a catedral testemunhou uma batalha campal entre público e polícia, quebra-quebra, um carro queimado e 11 pessoas presas. A partir daí, a relação azedou e o hip hop ficou com fama de vilão. Sem entrar no mérito da culpa de um ou de outro, o fato é que a vista grossa da Virada atualmente tem sido encarada como preconceituosa e até racista.

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Mano Brown, líder do Racionais MC's, em foto de arquivo: inimigo público nº 1?
É a opinião de Emicida, o rapper Leandro Roque de Oliveira, 24 anos, estrela ascendente da cena nacional. Escalado para uma apresentação no CEU Vila Curuçã, ele não vê problemas na extensão da Virada a locais distantes do Centro, pelo contrário. Reclama, isso sim, da falta de divulgação e de atrações relevantes. “Existe a exclusão social, a exclusão digital, por que não a exclusão cultural?”, ele alfineta. “Pra mim, é preconceito somado àquele velho racismo brasileiro que está aí há anos e se justifica de mil formas sem se referir ao tom da pele. ‘Rap é coisa de preto, favelado, deixa eles lá na favela pra não ter problema’. Essa é a mentalidade dos caras, que se juntam com mais meia dúzia de pessoas que poderiam intervir, mas preferem ser neutras pra não pegar mal.”

Mais conciliador, Rappin Hood, na agenda do CEU Lajeado, acredita que o retorno do rap à Virada vai acontecer aos poucos. Alertado pela reportagem do iG que estava confirmado na programação, o músico, apresentador e agora vice-presidente da escola de samba Imperador de Ipiranga afirma que o hip hop, limado nos anos anteriores, está voltando “devagarzinho”. “Não vou me prender a reclamar. Vai chegar a nossa vez, temos que continuar lutando. Quem sabe correndo tudo bem, a gente volta para o nosso lugar de direito.”

O coordenador de programação da Virada Cultural, José Mauro Gnaspini, está ciente da importância do rap. “Como Secretaria Municipal de Cultura, é completamente estapafúrdio ignorar um gênero presente em todas as camadas sociais. O hip hop é uma expressão muito importante da cultura paulistana, são 30 anos de história. A gente sabe disso e apanhamos bastante por tentar fazer”, garante.

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Carro incendiado na Praça da Sé em 2007, depois do confronto entre público e polícia
Ele admite que a confusão na apresentação do Racionais está por trás da cautela redobrada nas edições posteriores, tanto que, publicamente, Mano Brown ficou taxado como uma espécie de inimigo público número 1. Grafite, dança de rua e DJs têm presença garantida na Virada, mas o rap, o quarto elemento, enfrenta dificuldade de conquistar um lugar. “Tem um olho público em cima disso, uma preocupação enorme. É uma questão de imagem arranhada, fica uma cicatriz para todo mundo – pega mal para o evento, para a polícia e para o artista.”

No ano seguinte ao show, em 2008, a equipe de Gnaspini bateu pé que dava para fazer um evento de hip hop “na paz” e resolveu criar um palco exclusivo para o estilo. Segundo o coordenador, a polícia sugeriu Interlagos, no extremo sul da cidade. A insistência fez com que a programação, dedicada a veteranos do rap, fosse para um espaço cercado, próximo ao Terminal Dom Pedro II. Nem tudo, no entanto, deu certo. “A preocupação era tão grande que havia um pente fino da polícia. Lá era o único lugar da festa em que havia revista corporal para quem entrava. Apesar da melhor das intenções, acabamos segregando de novo.”

Divulgação / Janaína Castello Branco
Emicida: "Para resolver, ia dar um trabalho, então é melhor tirar o rap e botar a culpa nele"
Bode expiatório

KL Jay, o DJ dos Racionais MCs, tenta não dar muita importância para o caso, mas não se esquece do incidente na Sé. “Acho que foi meio premeditado pela polícia. A desordem já estava rolando fazia tempo, antes da gente chegar. Esperaram o Racionais entrar no palco para associar uma coisa à outra, arranjar um bode expiatório”, acusa. O coordenador de programação da Virada desconversa e fala que todos têm sua parcela na história. “É muito difícil apontar um culpado. Alguns vão dizer que a culpa é da polícia, outros da banda, que a música incita isso. A culpa é um pouco de todo mundo.”

Sem meias palavras, Emicida coloca um ponto estrutural em discussão: a atuação da Polícia Militar. “Os policiais estão preparados realmente pra lidar com a população? Um problema traz vários outros à tona... Para resolver, ia dar um trabalho, então é melhor tirar o rap e botar a culpa nele. Funciona há anos”, diz.

A violência, enfantiza KL Jay, está em qualquer tipo de música, não só no rap, ainda mais em eventos na rua. Mesmo assim, o DJ parece conformado, inclusive com o convite inicial para seu trabalho solo, Rotação 33 , participar da programação não ter sido concretizado. “Sinceramente, sem pretensão nenhuma, o rap não precisa da Virada Cultural. O pessoal lá da produção deve ter sofrido pressão, recebido ordens de superiores para não fazer nada. A gente não pode se abalar com isso, o rap nasceu independente. Nosso trabalho é constante, não só uma vez por ano. Se nos chamarem, vamos com certeza, mas não preciso ir lá pedir pelo amor de Deus.”

Eduardo Ribas
KL Jay: "O rap não precisa da Virada Cultural. Nosso trabalho é constante, não uma vez por ano"
Em meio aos últimos preparativos para o evento, Gnaspini explica que a única forma de mudar a mentalidade do poder público e da população é fazer shows grandes de rap na Virada, como a confirmação, na última hora, do grupo Z’África Brasil no palco principal deste ano, na madrugada de domingo, graças à desistência do Los Sebozos Postizos. “O negócio é entrar comendo pelas beiradas. As pessoas ficam se colocando dentro de trincheiras – o cidadão, a polícia, a turma do hip hop –, e isso vai totalmente contra o que a gente quer fazer com a festa. Sei que minha missão como programador é fazer isso devagar. Não posso me comprometer, porque do contrário isso vai acirrar ainda mais essa rivalidade. Se acontecer alguma coisa de novo, pronto, vira sinônimo de caos.”

Além do Z’África Brasil, outras duas atrações divulgadas de forma discreta, longe dos holofotes, são os shows de Thaíde e Cabal em uma pista black e soul montada próximo à rua Santa Efigênia. São as únicas opções no Centro. De resto, só as apresentações nos CEUs, do próprio Z’África Brasil (Vila do Sol), de Emicida, Rappin Hood, Thaíde (Parque São Carlos) e Nelson Triunfo (Sapopemba). Mais? Quem sabe no ano que vem.

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