Marcelo Médici fala sobre o início da carreira, o encontro com Marília Pera, o apoio de Cláudia Raia e o papel na novela Passione

Marcelo Médici:
Denis Victorazo, especial para o iG Cultura
Marcelo Médici: "Eu sou desconcentrado, indisciplinado. Gosto de aprontar na coxia, como hambúrguer, fumo"
Marcelo Médici, o ator que interpreta o romântico e atrapalhado carteiro Mimi, que começa a mostrar a que veio na novela Passione , já brigou – fisicamente – por uma piada.

Uma vez, um colega de espetáculo roubou a única fala engraçada que cabia a ele no texto. “O cara se aproximou do público e disse a frase antes de mim. Eu não acreditei! No final da peça, fui falar com ele e ouvi uma grosseria. Dei um monte de porrada nele. Claro que me arrependi depois, mas não me segurei. Não gosto de ator batedor de carteira”, decreta.

Romântico? Atrapalhado?

Na vida real, Marcelo é tímido, não gosta de ser observado, o que é inevitável para um ator no ar na novela das oito. “Mas não mudei nada na minha vida. Claro que saio menos, sou mais criterioso na hora de dizer sim para uma entrevista, mas continuo o mesmo, às vezes pego até metrô.“

Aos 38 anos, em sua terceira novela na Globo (as anteriores são Belíssima , de 2005, e Sete Pecados , de 2007), ele garante que nunca se achou engraçado. “Na verdade, não gostava de humor, não me considerava capaz de fazer rir. Nunca fui o mais engraçado da turma, nem mesmo da família! Não sou aquele que anima o churrasco. Fico tímido se apareço e as pessoas acham que chegou ´o circo´ “, explica.

"De perto, Gianecchini é muito feio"

Quando está à vontade, ele reconhece que fica mais fácil fazer piada, e ri até de suas diferenças. Nesta experiência atual, por exemplo, está cercado de vários bonitões: Reynaldo Gianecchinni, Carolina Dieckmann, Cauã Reymond, Mariana Ximenes, Daniel de Oliveira. Ele dá risada. “Ah! Eles são tão feios de perto!”

No twitter, onde já passou dos 54.000 seguidores, avisou que a televisão engorda de cinco a dez quilos. “Então, quando eu aparecer na novela, pensem que eu sou dez quilos mais magro”, apelou.

Nome falso

Depois de muitos anos batalhando no teatro, Marcelo pensou em desistir da carreira. Numa fase de total falta de dinheiro, se inscreveu num concurso de humoristas. Por vergonha e insegurança, usou outro nome. Afinal, tinha certeza de que não ganharia. Quando divulgaram que o vencedor havia sido um tal Marcelo Franco Alves, pouca gente soube que os dois eram na verdade a mesma pessoa. “Nunca quis ser comediante, apesar de adorar alguns personagens do Chico Anysio e do Jô Soares, que são geniais. Mas aí veio a TV Pirata, que não tinha comediantes, eram atores fazendo humor. Era oriundo do besteirol, da mesma escola do (espetáculo de teatro que também virou filme) Irma Vap . Lá tinha a Cláudia Raia muito engraçada, Débora Bloch, Luiz Fernando Guimarães, Ney Latorraca. Só faltava a minha atriz predileta, que é a Marília Pera, ainda mais fazendo humor.”

Dublê de Marília Pera

Na fase de testes para integrar o elenco do diretor Antunes Filho no CPT (Centro de Pesquisa Teatral), onde ficou por um ano, Marcelo imitava Marília nos corredores. Talvez ali tenha começado um exercício importante, e, quem sabe, tenha se espalhado sua fama de engraçado entre a classe artística. Muitos anos depois, no Projac, ele se aproximou timidamente da diva e se apresentou. Marília respondeu: “Você que é o Marcelo, que me imita, né?” conta ele, fazendo aquela voz anasalada e debochada, característica da atriz.

“Eu já tinha estudado teatro quando fui fazer A Praça é Nossa , mas foi ali que acabei com qualquer preconceito contra o humor. Admirei tanto aquelas pessoas! O Jorge Loredo, que faz o Zé Bonitinho, é um gênio; o Golias era outro. A Zilda Cardoso é uma mulher inteligentíssima, mas só é vista como a Catifunda. Todo mundo já morreu de rir com a personagem da Velha Surda, que o Roni Rios fazia e era um primor, mas ninguém falava dele quando estava vivo”, lamenta.

Tem muita gente que eu admiro, mas quem me tiraria do eixo seriam a Sônia e a Marília
Denis Victorazo, especial para o iG Cultura
Tem muita gente que eu admiro, mas quem me tiraria do eixo seriam a Sônia e a Marília
O efeito catifunda

A passagem pelo espetáculo Terça Insana , onde atuou com atores engraçadíssimos como Grace Giannoukas, Marcelo Mansfield e Otávio Mendes, também foi muito importante para Marcelo . “Éramos todos muito diferentes, e isso era muito legal. Porém, eu queria experimentar personagens novos e muitas vezes o público tinha ido lá para ver especificamente o Mico-Leão-Dourado ou o motoboy corinthiano Sanderson. Precisava testar coisas novas e o público queria sempre os mesmos. Senti na pele o efeito Catifunda.”

Por insistência dos amigos, Marcelo escreveu um texto, juntou 10.000 reais e produziu um espetáculo solo, Cada Um Com Seus Pobrema , com direção de Ricardo Rathsam. Foi um dos maiores êxitos teatrais dos últimos anos. O espetáculo partiu de um teatro pequeno para lotar uma grande casa de espetáculos. Lotação esgotada, muitas celebridades na platéia, mais de 150.000 espectadores assistiram e esperam por uma parte dois.

Entre dois amores

Uma bela noite, enquanto Marcelo se preparava para entrar em cena, o interfone toca e o diretor atende. A coisa era séria. “Tinha alguém na platéia que iria me deixar muito nervoso, eles achavam melhor nem me contar. Eu perguntei: ´é a Marília? A Bibi? O Paulo Autran?´ A aflição continuava, o Ricardo estava branco. Eu insisti: ´Fala logo! É a Bjork?´ E ele: ´pior ainda!”

A pessoa em questão era a Sônia Braga. Marcelo era fã da atriz desde pequeno, em Vila Sésamo , depois seguiu sendo fã nas novelas, mais tarde nos filmes. “Tem muita gente que eu admiro, mas quem me tiraria do eixo seriam a Sônia e a Marília.” Aquele dia eu bebi muita água, respirei fundo e pensei: ´fodeu!´”

Em 2009, quando decidiram remontar Irma Vap , o maior êxito da história do teatro brasileiro, Marcelo Médici assumiu o papel que fora de Marco Nanini na versão original - Cássio Escapin entrou no lugar de Ney Latorraca. Na direção, a mesma Marília Pêra da primeira montagem.

A conhecida rigidez de Marília contrastava com o jeito de Marcelo. "Eu sou desconcentrado, indisciplinado. Gosto de aprontar na coxia, como hambúrguer, fumo", lembra. “No começo dos ensaios eu ficava tão nervoso que precisei fazer um trabalho comigo mesmo, quebrar o gelo, senão não ia conseguir. Hoje sou apaixonado por ela e a gente tem um projeto de teatro para o segundo semestre, com direção dela. Marília é um gênio!”

Brilhe e deixe brilhar

Quando fez o musical Sweet Charity , com Cláudia Raia no papel principal, Marcelo ficava tímido na cena do elevador, considerada uma das melhores do espetáculo. “Tinha medo de aparecer demais, a cena era melhor para o meu personagem que para o dela. Então Cláudia me chamou para dizer que a cena estava chocha. Quando expliquei minha situação, ela falou: ´Eu quero que você brilhe e faça o teatro vir abaixo!´ Eu já admirava muito a Cláudia, depois de trabalhar com ela eu a amo para sempre. Trabalhar com gente talentosa e generosa assim é tão bom!”

Na novela Passione , Marcelo vive mais um momento privilegiado. “Que ator deslumbrante é o Emiliano Queiroz, que jogo de bola fantástico é contracenar com ele na novela”, comemora. A dupla, que interpreta avô e neto, já mostrou que vem muita diversão por aí.

Depois de quatro horas de conversa, o ator que já deu porrada para defender seu espaço se prepara para ir embora. Ao subir na sua moto em frente ao café, em São Paulo, é reconhecido por um homem que já se aproxima rindo. “Você está de volta ao teatro?”, pergunta. Ao que Marcelo responde: “Agora não, mas daqui a pouco eu volto.”

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