“O filho eterno” é baseado no livro que o premiado Cristovão Tezza escreveu sobre sua vivência pessoal

“Crianças com down são feias, baixinhas, como ogros de boca grande... O que me conforta é que não há velhos mongoloides. Eles morrem logo”. É com frases de natureza nua e crua que o personagem de “O filho eterno” vai destrinchando sua relação com o inesperado de sua paternidade.

O monólogo, adaptado do premiado livro do curitibano Cristovão Tezza, aborda a relação de um pai e seu filho, portador da síndrome de down . Nos quinze primeiros minutos, o personagem se comporta em uma euforia comum a quem, aos 28 anos de idade, vai saborear a missão de ser pai pela primeira vez.

Charles Fricks:
Isabela Kassow
Charles Fricks: "Meu personagem diz o que muitos não têm coragem de expor"

Muito fiel ao relato pessoal que Tezza fez na literatura – o que lhe rendeu oito importantes prêmios (incluindo o Jabuti 2008 de melhor livro), a peça desmascara o preconceito interior que, muitas vezes, não se tem coragem de expô-lo à tona. “Não vejo como sendo uma peça que fala unicamente da síndrome de down, mas como não sabemos lidar com o que nos é diferente. A universalidade do livro está neste ponto, ao falar da dificuldade de aceitarmos o que não é como a gente queria que fosse”, explica Charles Fricks, ator que surpreende com suas mudanças de tempo em cena.

Cena de
Isabela Kassow
Cena de "O Filho Eterno"
Dos olhos brilhantes dos primeiros minutos de encenação à consternação solitária no quarto da maternidade, ao lidar com a frieza dos médicos que lhe entregam a notícia, o personagem parece caminhar para a loucura. Frases apontadas como lanças afiadas são jogadas à plateia. “Não há mongoloides na história. Nem Dostoiévski comenta, este sempre atento aos humilhados e ofendidos”, compara o pai, sempre no limite entre a perplexidade e a tentativa de se segurar numa falsa normalidade de vida.

Em voz alta

Em cartaz a partir desta sexta-feira, 3, no Oi Futuro Flamengo, no Rio, “O filho eterno” é uma montagem da Cia de Atores da Laura, com 18 anos de estrada. O diretor Daniel Herz defende o personagem. “Estas frases de impacto podem provocar reações diversas no público. No fundo, são pensamentos que não temos coragem de dizer em voz alta. Mas aos poucos ele aprende a lidar com isso e percebe o amor que tem pelo filho”, afirma.

Em tempos de bullying e campanhas pela tolerância com as minorias, a peça vem abrir mais uma ponte de diálogo quanto ao preconceito. O que a torna mais ácida e vil é o fato de que os personagens se encontram todos no seio familiar, o primeiro núcleo social de uma criança e, por isso mesmo, onde ela deveria estar protegida dos olhos em chamas do mundo.

“O filho eterno” tem uma dinâmica bem direta. Não basta guardar o preconceito para si, mas fazê-lo diluir em compreensão da vida.


Serviço :
Peça "O Filho Eterno"
De 3 de Junho a 11 de setembro
Oi Futuro Flamengo - Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo, RJ
Tel: (21) 3131-3060
Sexta, sábado e domingo às 19h30m
Preço: R$ 15

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