Paulo José ficava incomodado cada vez que recebia um papel assinado com as iniciais A.C.

Paulo José ficava incomodado cada vez que recebia um papel assinado com as iniciais A.C.C. - naquele ano de 1982, ele recebera a missão da Rede Globo de criar uma atração que enfrentasse o sucesso do popularesco "O Povo na TV", exibido pela já extinta TV Tupi durante toda a tarde. "Como corria o risco de ter a concessão cassada, a Tupi mantinha o programa no ar o maior tempo possível, a única alternativa para continuar trabalhando", relembra Paulo, que criou "Caso Verdade", minissérie que, ao longo da semana, dramatizava histórias verídicas enviadas pelos telespectadores.

Integrante do Departamento de Análise de Textos da Globo, A.C.C. (que Paulo nem sabia se era homem ou mulher) criticava impiedosamente os roteiros do programa, tachando-os de superficiais, simplórios, folhetinescos e até de inverossímeis. "De fato, havia um certo exagero, pois contávamos histórias como a da mulher que tentou o suicídio pulando de um prédio e se salvou porque a alça do cinto de sua calça jeans prendeu na janela do apartamento de baixo", lembra Paulo, ressaltando que o salto mortal era mostrado na segunda-feira, mas o resgate só acontecia no capítulo de sexta.

Anos depois, o ator e diretor descobriu a identidade por trás daquelas iniciais: eram da poeta Ana Cristina César que, depois de uma temporada de estudos na Inglaterra, assumira aquela função na emissora. "Pena que foi tarde demais saber que aquelas avaliações foram feitas por uma poeta inovadora, vigorosa, original." Sim, tarde demais - Ana C., como gostava de ser chamada, suicidou-se em 1983, atirando-se do oitavo andar pela janela do apartamento dos pais, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro.

O diálogo que ficou entalado, a conversa que não teve com a poeta inspirou o ator a criar um espetáculo, "Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César", que estreia sábado, no Sesc Santana, em São Paulo. Paulo José divide a cena com sua filha, Ana Kutner, e, juntos, relembram poemas, observações, trechos de cartas, comentários que marcaram a vida de Ana C. - considerada uma das expoentes da geração dos anos 1970, ela não fazia concessões. Tanto escrevia palavras ríspidas como surpreendentes, que apontavam para uma descrença na vida mundana, mas uma esperança na eternidade.

Durante a temporada no Rio, "Um Navio no Espaço" foi visto por diversos amigos da poeta, que, emocionados, apresentavam cartas ou bilhetes deixadas por ela. "Eram momentos muito fortes, que traziam Ana de volta ao nosso meio", conta Paulo, lamentando apenas uma ausência: a da escritora e editora Heloisa Buarque de Holanda. "Eram muito amigas e acho que Heloisa não suportaria a emoção." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César - Sesc Santana (349 lug.). Av. Luiz Dumont Villares, 579. Tel. (011) 2971-8700. 6ª a sáb., 21h; dom., 19h30. R$ 20. Estreia sábado.

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