Paula Lavigne: "Fugi da escola, mas casei com Caetano"

A produtora fala com exclusividade ao iG sobre drogas, política e da relação com o ex, Caetano Veloso

Valmir Moratelli, enviado a Nova York |

Produtora de um dos filmes brasileiros mais aguardados do ano, “O Bem Amado”, que estreia nos cinemas dia 23 de julho, Paula Lavigne tem mais uma missão pela frente. Cravar a marca significativa de “acima de um milhão de espectadores” para outra produção nacional. Não que isso seja tarefa difícil para ela. Nos últimos filmes dos quais esteve à frente, o sucesso veio como garantia certa. Foi assim com “Lisbela e O Prisioneiro” (de 2003), “Meu Tio Matou Um Cara” (2005) e “2 Filhos de Francisco” (2005), entre outros.

Em Nova York para divulgar o novo longa, dirigido por Guel Arraes, durante o “Cine Fest Petrobras Brasil – NY”, Paula conversou com a reportagem do iG . Avessa a entrevistas, ela abriu uma exceção e topou falar sobre tudo. Da sua relação com o mundo “machista”, da experiência recente que seu filho mais velho teve com drogas (ela tem dois, Zeca, de 18 anos, e Tom, de 13, com Caetano Veloso) e da relação que tem com o ex. “Fugi da escola, mas casei com Caetano. Tudo com ele é intenso demais”, diz.

A seguir, a “inquietude” de Paula Lavigne.

Divulgação
Foto: Mariana Vianna

iG: Você é uma das produtoras de maior prestígio no cinema nacional na atualidade. É um “toque de Midas”?
PAULA: Cinema é brincadeirinha de gente grande. Vim de um mundo saudável dos anos 80 com a indústria fonográfica. Digamos que foi um “background”. Sou viciada em grandes negócios, é do meu temperamento. Deixei de ser atriz, porque não achava que era boa naquilo, não tinha uma carreira de sucesso. Comecei a encarar outra coisa e ter sucesso nisso. Sou uma boa profissional, hoje penso que sim.

iG: O universo da produção cinematográfica é dominado por homens. Isso é uma vantagem ou desvantagem para você?
PAULA: O mundo é dos homens, isso eu vejo claramente. A primeira mulher a ganhar o Oscar de direção só veio agora em 2010 (Kathryn Bigelow, com “Guerra ao Terror”). O mundo é dos homens. Na China, as famílias pedem desculpa quando nasce filha mulher. Temos duas candidatas mulheres para a eleição presidencial, isso é fantástico. Mas não acho que a discussão está definida para este lado, homem ou mulher. É mais uma questão PT e PSDB. Apesar de eu votar na Marina (Silva), do PV.

iG: Como observa esta “desvantagem” feminina?
PAULA: A gente está em desvantagem, sempre, em todas as áreas. A mulher já nasce em desvantagem, das coisas mais bobas às mais peculiares. Se eu viajo por quatro dias, não posso levar um só par de roupas. Vão falar que apareço com uma roupa só e não tomo banho. Sting foi ao Brasil e apareceu direto com uma camisa só, ninguém falou nada. Tudo é mais difícil por ser mulher. Daí queremos nos impor mais. Por isso surgem muitas “Paulas Lavignes” por aí, essas malucas cheias de progesterona (risos).


iG: Recentemente, Caetano Veloso escreveu um artigo para um jornal carioca se posicionando contrário à legalização das drogas. Como encara o assunto?
PAULA: Sou super a favor. Caetano disse que não era a favor, mas eu discordo dele. O crack entrou no Pelourinho, em Salvador, e dominou tudo. Caetano viu cenas muito fortes lá, por isso escreveu a crônica. Mas acho que, legalizando tudo, vai gerar mais dinheiro com impostos. Daí investe em campanhas e tratamentos, conscientização das pessoas... A gente toma muita droga, o tempo todo, sem se dar conta disso. Eu tomava desde pequena Ritalina (remédio utilizado para jovens com déficit de atenção), porque era uma criança muito ativa. É uma anfetamina! São drogas vendidas na farmácia, prescritas por um médico.

iG: Mas o crack mata.
PAULA: É claro que o crack mata. Se você fumar maconha, vai ter afetação no cérebro. Se cheirar cocaína, vai ser um chato... Tem que ser na base da conversa. Por isso que converso com meus filhos, sobretudo agora que estão adolescentes. Levei um susto com o contato do meu filho mais velho com o mundo das drogas. O Zeca fez 18 anos, está tocando como DJ, freqüentando as noites... É uma preocupação muito grande. Ele levou um susto com o mundo das drogas. É claro que eu preferia que ele estivesse estudando na escola a ação das drogas no organismo.

iG: Ele experimentou?
PAULA: Não sei, ele tem 18 anos, né. Entrou em ambientes diferentes. Não importa se usou, o que usou. O que importa é que ele está bem agora. Fiquei em pânico quando soube... A questão é a conversa. Se tivessem falado na escola o efeito das drogas, se explicassem que cocaína vem de uma planta, ele reconheceria o efeito da serotonina quando fosse tomar uma droga, e por aí vai...

iG: Como foi sua educação quanto às drogas?
PAULA: Sou filha da geração dos anos 70. Minha geração pegou as coisas mais alertadas. Fui criada por um pai advogado criminalista e por uma mãe psicóloga. Se eu não fosse uma pessoa esclarecida, não sei como seria. Muitas drogas me deram susto na vida. E olha que meus pais me educaram muito bem.

iG: Que “sustos” foram esses? Você experimentou de tudo?
PAULA: De jeito nenhum. Nem nunca vou experimentar de tudo. Não pode ser assim, tem coisas que você não pode! Imagina eu cheirar cocaína? Não, impossível (risos). Sou elétrica por natureza. Não suporto esta porcaria. Tem coisas que a gente não deve experimentar, não. É coisa séria, se você der um vacilo, pode te pegar. Elas agem de forma diferente em cada pessoa.

iG: Você é contra o consumo, mas é a favor da legalização. Não é incoerente?
PAULA: Não é um oba-oba, “ah, a Paula quer todas as drogas livres por aí”... O que eu quero é que se perca menos tempo com polícia e cada vez mais com médico. Polícia é para quem precisa de polícia. Drogado precisa de tratamento. A pessoa ser levada para a delegacia porque estava com um cigarro de maconha? Olha o dinheiro que se perde com um processo bobo. Dinheiro que podia estar sendo investido, por exemplo, em campanhas para a população.

iG: Falando como produtora, droga é um bom assunto para cinema?
PAULA: Claro que sim. Um dos meus filmes preferidos é “O Bicho de Sete Cabeças”, é dos que eu mais gosto. Tem essa coisa de jovem, curiosidade, adolescência, está tudo ali.

iG: Quais são seus filmes favoritos?
PAULA: Tive a sorte de estar casada com Caetano, ele me mostrou um pouco de tudo, muito cinema nacional, artes em geral... Brinco dizendo que fugi da escola, mas casei com Caetano (risos). “Matou a Família e Foi ao Cinema”, “O Bicho de Sete Cabeças”... Um meu, o “Meu Tio Matou Um Cara”, adorei ter feito esse. Tem o “Onde Fica a Casa do Meu Amigo” (do diretor iraniano Abbas Kiarostami), adoro... E “Chuva de Verão”, do Cacá Diegues. Pronto!

iG: É fácil ser ex-mulher de Caetano?
PAULA: Nada é fácil quando se está com Caetano (risos). Mas a gente aprende a administrar. Nada é fácil no sentido de barato, de susto. Ele é intenso, tem toda uma profundidade no que se refere a ele. É uma pessoa muito verdadeira. Se muda algo na cabeça dele, ele fala, se sente livre para falar o que pensa, é de uma liberdade incrível.

iG: Você parece uma mulher muito inquieta. Em casa é mais sossegada?
PAULA: Acordo cedo, tipo 8h da manhã, e vou logo malhar. Para gastar energia e meus filhos poderem me aturar. Tenho insônia. Tenho que me drogar para dormir. Tomo Frontal (remédio de uso controlado) toda noite. Vou para cama pensando em mil coisas, vou, vou... É uma inquietude, é, tenho inquietude.

* O repórter viajou a convite do Cine Fest Petrobras Brasil – NY

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