Palco de polêmicas, Bienal de São Paulo é revitalizada

Com nova direção e viés político, 29ª edição do evento retoma papel da cidade como pólo da arte contemporânea

Guss de Lucca, iG São Paulo |

Paulo Vitale
"Bandeira Branca", de Nuno Ramos: obra tornou-se emblemática por causa da polêmica envolvendo os urubus
Exorcizando os fantasmas de sua edição passada, a 29ª Bienal de Artes de São Paulo deu um passo em direção à recuperação de seu prestígio, adotando como tema central a ideia de que é impossível separar a arte da política - fato comprovado por uma série de polêmicas em que o evento foi envolvido.

Logo em sua primeira coletiva, os dois curadores chefes da mostra, Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, foram questionados sobre a admissão dos responsáveis pelas pichações da 28ª edição. Alguns pichadores ganharam espaço neste ano para mostrar registros de suas ações e debatê-las sob o nome "Pixação SP".

Defendida pela doutora em Filosofia da Arte Paula Braga, a participação dos pichadores serviu como ponte para aqueles que encontravam dificuldade em sentir-se parte da mostra. "Achei ótimo desde o começo, pois por um lado funcionou como uma forma de romper com essa elitização da arte contemporânea, que só faz sentido para iniciados. Quando os adolescentes viam uma obra que reconheciam, eles se sentiam parte desse mundo da arte contemporânea", explicou.

Além dessa, outras polêmicas colaboraram para potencializar o viés político do evento, como a suspensão da obra "El Alma Nunca Piensa sin Imagen" (a alma nunca pensa sem imagem, na tradução), do artista argentino Roberto Jacoby, que reproduzia uma campanha política utilizando imagens de José Serra e Dilma Rousseff - com destaque à candidata petista. Por infringir a lei que proíbe a "veiculação de propaganda de qualquer natureza" em bens públicos, o trabalho ficou coberto até o término da eleição.

Outra obra que entrou em discussão foi a série de quadros "Inimigos", do artista plástico pernambucano Gil Vicente, em que o próprio surge executando personalidades como o presidente Lula e o Papa Bento XVI. Apesar de questionada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que apontou uma possível apologia ao crime por seu conteúdo, o trabalho não foi retirado da Bienal.

Mas nenhuma instalação marcou mais essa edição do que "Bandeira Branca", do artista Nuno Ramos, que apresentou três grandes blocos de concreto rodeados por enormes redes, nas quais três urubus permanecem presos – mas com grande espaço para voar. Após ser alvo de pichadores, que escreveram "liberte os urubus" em uma de suas colunas, a obra foi autuada pelo Ibama, que exigiu a retirada das aves da Bienal.

"Acho que essa foi a obra emblemática desta edição. Rendeu uma polêmica e autenticou a própria proposta da Bienal", disse Teixeira Coelho, curador do Masp. "Houve uma predominância de valores externos sobre valores internos à arte. Não havia irresponsabilidade por parte do artista ou dos curadores - as condições eram controladas. Mas houve predominância de uma reação extra-artística por parte de alguns setores da sociedade. Um fato sério que precisará ser meditado."

Em entrevista ao iG , o veterinário William dos Anjos, responsável pela criação dos três urubus no Parque dos Falcões, em Sergipe, declarou achar a polêmica mais política do que técnica, realçando inclusive o desconhecimento do órgão ao salientar exigências descabidas em relação às aves.

"A revolta das pessoas prova o quanto aquela obra é hermética. Não é possível que alguém que tenha uma questão ecológica contra três urubus de cativeiro, habitando um espaço amplo, igual ou melhor de onde eles vivem, saia na rua, veja crianças nas calçadas e ache aquilo normal", ressalta Paula Braga.

Ao final, o balanço da 29ª Bienal de Artes de São Paulo mostra-se positivo. Revela um evento que contou com 550 mil visitantes, sendo mais de 250 mil oriundos do programa educativo, e ainda chamou a atenção da sociedade e de veículos especializados com as discussões ligadas ao seu tema central.

"Se uma Bienal não desperta esse tipo de polêmica, dizem que ela não cumpriu seu papel. Se surgem polêmicas, questionam seu surgimento. Na verdade, as pessoas nunca estão satisfeitas. Vejo como um sinal positivo. E é melhor que aconteçam do que não aconteçam. Ainda mais com um tema como esse, que é arte e política", concluiu Teixeira Coelho.

Serviço – 29ª Bienal de Artes de São Paulo
Pavilhão da Bienal (Portão 3, Parque do Ibirapuera)
Até domingo, 12 de dezembro de 2010
Das 9h às 18h (sexta-feira, até as 22h, com entrada até as 21h)
Entrada franca
Informações: (011) 5576-7600 ou no site oficial

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