"Palácio do Fim" leva a Guerra do Iraque ao teatro de São Paulo

Peça dirigida por José Wilker aborda três personagens que se envolvem no conflito; elenco tem Vera Holtz, Camila Morgado e Antônio Petrin

Guss de Lucca, iG São Paulo |

"É privilégio do teatro transformar fatos frios em algo interessante", explica José Wilker logo no início da entrevista de "Palácio do Fim", peça dividida em três monólogos de personagens envolvidos na Guerra do Iraque .

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Vera Holtz, Camila Morgado e Antônio Petrin em cena do espetáculo teatral "Palácio do Fim"
Depois de uma temporada no Rio, o espetáculo estreia em 20 de janeiro em São Paulo. No elenco estão Camila Morgado, Antônio Petrin e Vera Holtz nos respectivos papéis de uma soldado norte-americana acusada de tortura, um cientista britânico que mentiu sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque e uma ativista iraquiana morta num bombardeio.

Wilker, que assistiu à montagem original há três anos, em Nova York, ficou impressionado com a reação do público, e logo buscou os direitos do texto com a dramaturga canadense Judith Thompson.

"Eu conhecia aquelas histórias, mas não conhecia as emoções daquelas histórias. Você pode contar um atropelamento de várias maneiras. A forma como ela conta é muito bonita, poética", diz o diretor, revelando ter encontrado coincidências entre a peça e o cotidiano brasileiro.

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"Minha maior dificuldade foi não julgá-la", disse Camila Morgado sobre sua personagem
"Não há um sentimento inglês, iraquiano ou americano. É um sentimento brasileiro. A bestialidade cometida pelos dois lados do conflito no Iraque é semelhante a bestialidade daqui".

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Apesar das semelhanças apontadas pelo diretor, as reações da platéia brasileira se diferem das vistas por ele em Nova York. "Os americanos saíram do teatro incomodados, pois foi num momento em que a guerra fazia parte do cotidiano deles, transmitida diariamente na TV. No Brasil é mais catártico, as pessoas se comovem - e é tão bonito quando o teatro comove".

Wilker relacionou a reação do público com algo que ocorria nas salas de teatro antigamente, em que as pessoas permaneciam sentadas mesmo após os aplausos e as luzes acesas. "Antes de sair, elas ficam pensando no que viram. Assim o teatro cumpre uma função de serviço social da sensibilidade. E o 'Palácio' mereceu essa reação no Rio".

Questionados sobre a forma que encontraram para chegar aos personagens, o trio de atores apontou a internet como fonte de pesquisas. "Também me prendi bem ao texto, que é muito construído. Minha maior dificuldade foi não julgá-la, o que é difícil para o ator. O julgamento não cabe a mim, mas ao público", disse Camila Morgado.

"A tendência do ator é sempre defender seu personagem", completou Antônio Petrin. "Às vezes eu colocava uma emoção maior, pois como ator quero que as pessoas se compadeçam desse homem, e o Zé [Wilker] alertava para esse perigo. Essa coisa de julgar o personagem é complicadíssimo".

Para Vera Holtz, diferentemente do que ocorre em novelas, no teatro a relação do ator com o personagem precisa ser de contaminação. "Muitas vezes um personagem se completa com a chegada do público, com a troca entre o ator e a plateia".

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"Muitas vezes um personagem se completa com a chegada do público", disse a atriz Vera Holtz
Um espetáculo discreto

A tônica da montagem brasileira de "Palácio do Fim" é a discrição. Foi assim que José Wilker definiu o uso de iluminação, figurino e cenografia da peça. "Não queria que nada se destacasse, só o trabalho dos atores. A cenografia é discreta, a música é discreta, a iluminação é discreta... E dessa forma ficam imensas."

Ao receber elogios sobre o trabalho de iluminação de Maneco Quinderé, que utiliza recortes de partes do corpo dos atores, o diretor revelou que antes de refletir ele busca por sua beleza. "Primeiro quero olhar e dizer 'que bonito'. Depois desenvolvo uma teoria sobre isso".

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Antônio Petrin afirmou que a "tendência do ator é sempre defender seu personagem"
Crítico às leis de incentivo, Wilker citou durante a coletiva uma série de dificuldades que compõem o fazer teatro atualmente no Brasil. "Com essas leis, as empresas visam mais vender o seu produto do que fazer um projeto cultural. Normalmente a primeira exigência é saber onde vai ficar o nome do patrocinador".

"Eu preferia que ao invés do mecenato ou patrocínio tivéssemos sócios. Porque o mecenato desobriga a empresa, e a sociedade a torna cúmplice do projeto".

Primo pobre

Além disso, o diretor cita a falta de boas salas de espetáculo no País e a dificuldade de escalação de um elenco que muitas vezes está comprometido com mídias que tomam muito tempo, como a televisão. "O teatro virou o primo pobre dessa relação", reflete.

Apesar do tom, Wilker disse que todas as dificuldades não tiram o prazer do processo. "É muito prazeroso. Acho gostoso e necessário, pois saímos mais ricos ao passar por todas essas dificuldades".

"Palácio do Fim"

Teatro Anchieta - SESC Consolação
Rua Doutor Vila Nova, 245, São Paulo
Telefone: 3234-3000
De 20 de janeiro até 11 de março
Sextas e sábados às 21h. Domingos às 18h
Ingressos: R$ 32 inteira, R$ 16 meia e R$ 8 comerciários
Classificação - 14 anos

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