Painel de Di Cavalcanti no Cultura Artística é restaurado

Reforma do afresco é primeira fase das obras no teatro, que têm custo total de R$ 75 milhões

Augusto Gomes, iG São Paulo |

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Detalhe do painel de Di Cavalcanti no teatro Cultura Artística
Quem passa pela rua Nestor Pestana, no centro de São Paulo, não pode deixar de ver a gigantesca estrutura que recobre toda a fachada do teatro Cultura Artística, um dos mais tradicionais da capital paulista. A cobertura está lá há pouco menos de um mês, protegendo os trabalhos de reparo do painel de Di Cavalcanti que adorna a frente do edifício. A obra, um afresco de 48 metros de largura por oito metros de altura, é o único remanescente do incêndio que destruiu a sala, em agosto de 2008. Seu restauro é a primeira etapa das obras de reconstrução do teatro.

"O trabalho de restauro do painel começou no início de junho. Iniciamos uma etapa de limpeza, que será bastante demorada, porque deve ser repetida muitas vezes", explica Isabel Ruas, arquiteta responsável pelo restauro. "Os principais danos encontrados no painel são fissuras, lacunas, áreas estufadas pela ação do calor e outros danos causados pela poluição e água das chuvas. Mesmo assim, o painel está bastante conservado, sendo a sua recuperação muito viável", afirma.

A previsão é que o restauro dure cerca de treze meses. "Estamos confiantes em terminar o trabalho dentro do prazo que estipulamos", garante Isabel. Projetado especialmente para o Cultura Artística, o painel de Di Cavalcanti é de 1950 e se chama “Alegoria das Artes”. Ele deveria retratar as nove musas filhas de Zeus com Mnemosine, a deusa da memória. No entanto, a obra representa dez mulheres. É o maior de todos os afrescos de Cavalcanti, um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros do século 20.

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O Cultura Artística após o incêndio de 2008
A etapa seguinte é a reconstrução do interior teatro. "As obras civis seguirão simultaneamente ao restauro do painel. Os próximos passos serão a demolição da estrutura interna, que não será utilizada pelo novo teatro, e detalhamento do projeto arquitetônico", diz Eric Klug, porta-voz da Sociedade Cultura Artística. "O teatro será muito diferente, com apenas uma sala, muito maior que a anterior; com fosso de orquestra; um foyer muito maior com escadas rolantes e elevadores; além de equipamento cênico de última geração", adianta.

O custo total das obras é de R$ 75 milhões. "Estamos finalizado a captação recursos da segunda etapa neste momento. Até o momento não recebemos nenhum apoio financeiro do governo", conta Klug. Enquanto o novo Cultura Artística não fica pronto - a previsão para o término de todas as obras é 2012 - os espetáculos da Sociedade Cultura Artística continuarão acontecendo na Sala São Paulo, no centro, e na Sala Cultura Artística do Itaim, na zona sul da capital paulista.

Os trabalhos de restauro do painel poderão ser acompanhados de perto, por meio de visitas previamente agendadas e monitoradas. Essas visitas acontecerão uma vez por mês e serão voltadas para arquitetos, restauradores e estudantes universitários. "O foco das visitas é a técnica do processo de restauro de mosaicos. A equipe responsável de restauro explicará o trabalho e mostrará suas oficinas", explica Ana Maria Xavier, responsável pela exposição sobre a história do Cultura Artística montada na fachada do teatro.

Não deu para Silvio Santos

Ao mesmo tempo em que o Cultura Artística inicia sua reforma, outra importante sala de São Paulo garante sua preservação. Na semana passada, foi oficializado o tombamento do Teatro Oficina, sede da companhia Uzyna Uzona de José Celso Martinez Corrêa. O edifício, projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi, já tinha preservação garantida pelo governo estadual, e agora foi tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), um órgão federal.

Augusto Gomes
O terreno do Grupo Silvio Santos, com o Teatro Oficina ao fundo, à direita
O tombamento inclui o entorno do Oficina. Atualmente, existe um estacionamento ao lado do Oficina. O terreno, no entanto, pertence ao grupo Silvio Santos, que tinha planos de construir um shopping center no local, depois alterados para três prédios residenciais. De acordo com o Iphan, "qualquer construção realizada no lote vizinho deverá respeitar os parâmetros predefinidos". A vegetação existente também deve ser protegida, para que permaneça emoldurando a visão externa existente a partir do interior do teatro.

O Oficina funciona no local desde 1961. Na década de 1980, o local passou por uma reforma capitaneada por Lina Bo Bardi, responsável por características como o teto retrátil e a parede envidraçada de 150 metros quadrados. É um dos principais projetos da arquiteta nascida na Itália e radicada no Brasil, também autora de outros marcos paulistanos, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e o Sesc Pompeia.

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