Opinião: 'Proibidão do Stand Up' tenta fazer graça com humor chulo adolescente

Após denúncia de racismo, projeto de comediantes teve sua segunda edição nesta segunda-feira em SP

Thiago Ney, iG São Paulo |

"Só me chamaram aqui para cumprir a cota de negros."

Este foi Marcelo Marrom, o último comediante a se apresentar na segunda edição do "Proibidão do Stand Up", na noite desta segunda-feira (dia 19), no Kitsch Club, em São Paulo. Ele fazia referência a um episódio ocorrido na estreia do projeto, na semana anterior, no qual o músico Raphael Lopes, negro, acusou o humorista Felipe Hamachi, branco, de racismo ao sentir-se ofendido por uma piada.

Thiago Ney
Termo que o público assina antes de entrar no Proibidão do Stand Up
Raphael tocava teclado na banda que acompanha os comediantes no palco do show. Após encerrar uma piada em que dizia que transava sempre com macacos, Felipe olhou para o músico e questionou-o com um "né?". O músico chamou a polícia, e seu advogado disse que vai processar o humorista e a casa de show .

Nesta segunda-feira, o episódio foi citado por quase toda a dezena de humoristas que subiu ao palco - dos quais dois eram negros (Marcelo Marrom e Robson Nunes, além de um dos músicos da banda). Até um falso advogado foi chamado ao palco para "orientar" o teor das piadas.

"O Felipe faz piada ruim há um tempão e só agora vieram pegar no pé dele?", brincou Robson, o primeiro a se apresentar, após a introdução de Luiz França, o organizador da noite. Robson usou como mote para algumas piadas uma tia negra que se incomodava de ser chamada de negra.

Em seguida foi a vez de Rodrigo Capella - que pegou Robson como alvo para fazer piada envolvendo King Kong e o tamanho do pênis dos negros.

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A cor da pele não era o único fio condutor das piadas. Tentou-se fazer graça com gordos, com japoneses, com deficiências físicas. Por serem delicados, são temas que pedem um mínimo de talento e de sensibilidade dos comediantes para serem transformados em boas piadas. Porque senão vira apenas grosseria - foi o que aconteceu.

Outra linha utlizada pelos humoristas foi fazer gozações com sexo anal, com excreções - até com corintianos. Temas velhos, surrados. Fica-se num humor chulo, primário, pré-adolescente.

Leia também: Músico vai processar humorista do 'Proibidão do Stand Up' e casa de shows

Penúltimo da noite, Felipe Hamachi citou o ocorrido com o músico e disse que não é racista. E brincou com Preta Gil. "Mas a piada é por ela ser gorda", avisou. Já não passou o tempo de usar personagens como Preta Gil e Sandy para fazer graça?

Marcelo Marrom encerrou a noite. Fez piadas com a cor da própria pele e também com a denúncia de racismo ("Ele ficou bravo porque o pagamento era em dinheiro e não em banana"). Depois brincou com alguém do público e cantou versos rimando, por exemplo, "enquete" com "boquete". Foi o mais aplaudido.

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