Odeio a superficialidade

O fotógrafo brasileiro Cláudio Edinger fala ao iG Cultura sobre sua trajetória, sua obra e seus projetos atuais

Augusto Gomes, iG São Paulo |

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A praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, vista pelas lentes de Claudio Edinger
São Paulo e Rio de Janeiro. A Venice Beach de Los Angeles e o Chelsea Hotel de Nova York. A loucura do Juqueri e a decadência do Edifício Martinelli. Cuba e Índia. A obra do fotógrafo brasileiro Claudio Edinger trata dos temas e locais mais variados. As técnicas usadas também são inúmeras: preto e branco ou cor, foco seletivo, flashes coloridos, médio e grande formatos. "Minha preocupação desde o começo foi tentar descobrir minha identidade, saber quem sou. Nesta trilha fui experimentando com as várias formas de fazer fotografia", explica.

Aos 58 anos, ele continua a experimentar. "Estou fazendo um livro sobre o sertão da Bahia, outro sobre a Amazônia, outro sobre Paris e um último sobre a Downtown Los Angeles", revela. "São projetos que comecei a fazer e que são demorados mesmo. No fim todos se ajudam muito nesta pesquisa artística, que é a raiz do que eu faço. Cada projeto tem vida própria, como um filho que vai enriquecendo a família toda". Na entrevista abaixo, ele conta um pouco sobre sua trajetória e sua visão da fotografia. Com vocês, o maior fotógrafo brasileiro, Claudio Edinger.

Quando surgiu seu interesse por fotografia?
Meu interesse surgiu quando eu ainda era menino e ganhei uma kodak de plástico. A paixão amaduredeu durante a faculdade. Eu fazia economia no Mackenzie, ao lado da faculdade arquitetura. Eles tinham um laboratório fotógrafico e era onde eu passava meu tempo, revelando e ampliando fotos. Era a época da ditadura e tínhamos muito o que contar. Minha maneira de contar essas histórias era através da fotografia, que comecei a fazer seriamente a partir de 1975, quando me formei economista. A economia foi fundamental para me dar uma base politico-social. Mas nunca trabalhei com isso. Saí direto pra fotografia.

Seu primeiro trabalho foi um ensaio sobre o Edifício Martinelli?
Sou amigo do Lucio Kowarick, um dos grandes sociólogos nacionais. Num jantar, em 1975, ele contou da pesquisa que fazia no prédio. Eu pesquisei um pouco da história e o lugar era uma perfeita metáfora para ilustrar os problemas da vida urbana. Foi o edifício mais elegante de São Paulo, o primeiro arranha-céu da América Latina (o dono, o Martinelli, teve que ir morar no último andar do prédio pois todo mundo achava que ia desabar). Com o tempo, o lugar foi se deteriorando e virou um cortiço sensacional. Sujo, mal cuidado, o elevador funcionando em só cinco dos 30 andares. E no entanto era cheio de vida, como num romance do Charles Dickens, com personagens inacreditáveis. Sempre me interessei muito por paradoxos, por opostos que ao invés de se anularem explicam um pouco o que é tudo isso.

Logo depois disso, você já se mudou para Nova York
Saí do Brasil no começo de 1976. Eu tinha 23 anos. com essa idade - era uma outra época - eu já tinha exposto no melhor museu (MASP) e trabalhado para a melhor revista (Veja) do Brasil. Em Nova York as revistas Life e Look estavam de volta e o International Center of Photography tinha acabado de ser inaugurado. As oportunidades eram grandes demais eu tinha uma grana que havia ganho como fotógrafo (ainda morava com meus pais) e resolvi ir passar um ano por lá.

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São Paulo, fotografada por Claudio Edinger do alto do Edifício Itália
Você mal chegou a Nova York e já começou a fotografar os judeus hassídicos
Eu andava pelas ruas de Nova York quando vi um grupo grande deles. Visualmente eles são muito interessantes, era uma época em que eu lia muito Julio Cortazar e ele falava disso, de sair à rua fantasiado para escapar da rotina, para se desenvolver como artista. Eles faziam isso direto, me diverti com essa idéia aplicada a eles. Aí descobri que moravam em comunidades. Eu era um hippie que sonhava com comunidades, as peças foram se encaixando. Eu estava também interessado na busca filosófico-espiritual e lá estavam eles vivendo isso. Fui até seu bairro e encontrei no mesmo dia um ótimo apartamento por cem dólares mensais. Me mudei pra lá e comecei a fotografar.

O período em que você morou no Chelsea Hotel foi logo depois disso?
Quando terminei o trabalho com os judeus estava melhor preparado para a vida em Nova York. Minha estada no Brooklyn com os hassídicos serviu como uma câmera de descompressão, para preparar um brasileiro como eu para o ar rarefeito novaiorquino. Fui procurar um lugar na cidade, comecei a dar aulas de fotografia na Parson's New School e o hotel Chelsea era bem perto. Encontrei um quarto com banheiro no corredor barato e me mudei pra lá - sem intenção de fotografar. Mas com o tempo, vendo personagens inesquecíveis por toda parte, não resisti. Morei no hotel cinco anos, três dos quais fotografando dia e noite para o livro que saiu em 1983.

Você sempre fotografa pensando em publicar o material num livro?
Meu sonho foi sempre fazer livros. Adoro projetos de longo prazo, esta coisa de poder me aprofundar num assunto até o limite me alimenta como artista. Odeio a superficialidade. Procuro me dedicar a um projeto de cada vez mas ultimamente tenho feito vários simultaneamente para poder viabilizá-los.

Durante esses primeiros anos em Nova York, o que você fazia para sobreviver?
Eu vivia do trabalho para as grandes revistas americanas - Time, Newsweek, Fortune, Vanity Fair, etc. Fazia trabalhos também para relatórios anuais de empresas. Ultimamente, tenho vivido de fotografar só o que quero sim. Faço livros, consigo patrocínios e, de quatro anos pra cá, com ajuda da minha galeria Arte 57, tenho vendido fotos para coleções particulares e para museus. Isto tem ajudado muito a financiar meus futuros projetos, que é o que quero passar a vida fazendo.

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Foto feita por Claudio Edinger no Hospital Psiquiátrico do Juqueri
Na sua volta ao Brasil, você fez um trabalho importante no Hospital Psiquiátrico do Juqueri. Como esse tema apareceu na sua frente?
Minha avó querida de 86 anos (mãe da minha mãe) teve Alzheimer. Isso mexeu muito comigo. Eu era o neto mais velho e adorava e era adorado por ela. Ela era uma mulher incrível, partiu de Riga (na Letonia) com dois filhos pequenos e reconstruiu sua vida aqui. Falava seis línguas era uma mulher de muita classe... Em 1984, eu morava em nova york. Vim visitar o Brasil e a encontrei de cama, tomando mamadeira e de fralda. Foi uma situação terrível pra mim, tanto que comecei a fotografá-la. Nunca tive coragem de mostrar estas fotos. Ela era muito vaidosa e teria ficado triste com isso. Ela morreu logo em seguida, mas o tema loucura ficou comigo. Todo artista vive equilibrado nesta linha tênue entre uma loucura e outra. Quando vi um documentário sobre o Juqueri na TV fui pra lá pedir permissão pra fotografar. Depois de oito semanas negociando consegui acesso. Consegui até um quarto de um dos enfermeiros para ficar duas semanas.

Quais foram os teus dilemas éticos ao fazer essas fotos?
Não tive dilema ético algum. É preciso que a sociedade preste atenção à loucura e não fazer como é feito, em que os loucos são trancafiados longe do escrutínio de todos. O papel do artista é levar as pessoas à reflexão, à consciência, à mudanças. Somos um mistério sem fim. Este é o paradoxo principal: quanto mais sabemos sobre nós, menos sabemos... Pensei muito antes de fotografá-los, quis fazer no formato quadrado, registrar o caos indecifrável da loucura na previsibilidade do monótono formato. Com filme de grão super fino e utilizando um flash, procurei criar uma ilusão de palco, como se os doentes mentais dissessem 'olhe pra mim, pare de me ignorar'. Só 5% dos pacientes recebem (raras) visitas dos familiares. A maior carência deles é a atenção, e a nossa maior carência é saber quem somos.

Você também tem livros sobre São Paulo e Rio de Janeiro. Como eles refletem sua relação com essas cidades?
Eu nasci no Rio mas nunca morei em minha cidade. Sempre foi um lugar de passagem, de visitas, onde passei todas as férias de verão na infância, na casa de uma tia no Alto da Boa Vista. Sonhava em fazer este trabalho com máquina de grande formato e principalmente com foco seletivo. O foco seletivo cria um paradoxo que, ao mesmo tempo, aceita e questiona os lugares absolutamente ambíguos em que vivemos. Vivemos na cidade grande em permanente conflito. Adoramos e odiamos estes lugares, queremos ficar e queremos ir embora. Em diferentes níveis, todo mundo é assim. Ao fazer estas imagens gosto de levantar estas questões, de refletir sobre isso, de provocar as pessoas. A fotografia que me interessa é a fotografia que atenta à alma, força a alma a botar a cabeça pra fora, desafia a gente, informa com o foco e desinforma com o desfoque. O foco prende, o desfoque libera a imaginação.

E sua relação com São Paulo?
São Paulo é meu lar, onde estão quase todos os meus melhores amigos e a minha família. É uma cidade com um grau de ambiguidade que beira o ridículo. Temos,por exemplo, e foi uma das imagens que me levou a fazer este trabalho, no teto da igreja Nossa Senhora do Brasil, na esquina das avenidas Brasil e Europa, uma cópia do teto pintado por Michelangelo na Capela Sistina. Quando vi isso, ri. 'Que ridículo', pensei. Por que não podemos ter uma coisa nossa, que tenha mais a ver com nossa cultura, seja lá o que for isso? Mas ao mesmo tempo pensei 'as pessoas simples que nunca poderão ir ao Vaticano, pelo menos aqui, têm uma amostra'. Essa ambiguidade está em tudo, em toda parte e é o que torna a cidade tão fantástica e por isso moro aqui. Gosto também de trabalhos comparativos: fiz o Chelsea Hotel em Nova York e Venice Beach em Los Angeles. Fiz loucura num asilo e loucura nas ruas, no carnaval. Fiz também Habana Vieja e a India. Gosto de trabalhar com duplas de projetos. Estes trabalhos comparados se enriquecem, aprofundam minha pesquisa, como é o caso do Rio (preto e branco) e São Paulo (fotografado em cor).

São fotos pouco "reais", você concorda com isso?
(Risos) Nenhuma imagem é "real". São recortes, recortes absolutamente parciais, precários (se comparados com o que retratam) e preconceituosos dos artistas, dos fotógrafos.

Qual o equipamento que você usou nessas fotos do Rio e de São Paulo?
Usei uma câmera Sinar 4x5, de grande formato (são chapas fotográficas de 10x12,5 cm). É meio complicado de carregar pela rua, pesa uns 25 quilos e em geral levo num carrinho. Este é meu equipamento favorito, é como um Fórmula 1 das cameras fotográficas. O negativo grande é muito rico em detalhes, as cores ficam melhores, fica tudo melhor. Além disso, pela primeira vez eu não vejo mais através de uma camera, mas junto com ela. O filme quando colocado na máquina, na hora de bater a foto, não permite que vejamos enquanto batemos a chapa. É muito melhor isso, eu vejo o mundo e não só um retângulo ou quadrado como antes, com cameras menores, de médio (6x6 cm) ou pequeno (de 35mm) formatos.

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Foto de Paris, na França, um dos atuais projetos de Claudio Edinger
Neste momento, em que projetos você está trabalhando?
Estou fazendo um livro sobre o sertão da Bahia, outro sobre a Amazônia, outro sobre Paris e um último sobre a Downtown Los Angeles. São projetos que comecei a fazer e que são demorados mesmo. Enquanto um amadurece visualmente faço outro. No fim todos se ajudam muito nesta pesquisa artística, que é a raiz do que eu faço. Cada projeto tem vida própria, como um filho que vai enriquecendo a família toda.

Você lançou no ano passado seu primeiro romance, 'Um Swami no Rio'. Ser fotógrafo, de alguma forma, o levou a escrever?
Minha formação sempre foi literária, sempre li muito, furiosamente. Lembro de passar inúmeras noites em claro quando o livro era bom, completamente absorto. Sempre fui um escritor, mesmo quando não sabia escrever, adoro histórias, adoro poesia. Um fotógrafo é um poeta e não conheci um poeta que não fosse um ótimo fotógrafo, mesmo que nunca tenha pego numa maquina fotográfica. É o que somos. A relação entre literatura e fotografia é a mais íntima de todas as relações das artes. o "Um Swami no Rio", meu romance, foi amadurecendo durante os últimos 25 anos. Demorei sete anos para escrevê-lo. A disciplina e a capacidade de síntese que um fotógrafo tem que ter são aprimoradas na escrita. Todo fotógrafo deveria escrever (e vice versa).

As histórias ou temas desse livro já haviam aparecido nas suas fotos? Ou foi o contrário, algo que só poderia ser tratado na escrita?
Toda minha pesquisa do romance veio com a experiência que tive como fotógrafo, junto com minha experiiência fazendo meditação e seguindo os ensinamentos de um mestre da Índia (Paramahansa Yogananda) por mais de 35 anos. Claro que há coisas que só um romance ou só um texto podem descrever. O clichê que uma imagem vale mais que mil palavras é estabelecer uma relação que não existe, como se um pudesse substituir o outro. Não tem como. Mas são sim artes complementares. Quando lemos formamos fotografias próprias na mente e quando vemos uma foto nossa imaginação consegue inventar um capítulo inteiro sobre ela se for ótima.

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