O jornalismo televisivo, 34 anos atrás

Especialidade de Helio Costa, matérias com tom épico e dramático foram trocadas pela velocidade nervosa do telejornalismo atual

Pedro Alexandre Sanches |

“Foi como se o próprio Sol tivesse se aproximado da Terra por uma fração de segundo”, afirma uma voz masculina calma e aveludada. “O clarão derreteu a retina de todos que olharam.” É noite de um domingo qualquer de 1976, e o repórter global Hélio Costa narra no Fantástico um memorial sobre a bomba atômica lançada em Hiroshima e Nagasaki 31 anos antes. À percepção de ouvidos dos anos 2000, a voz tranquila do locutor contrasta gritantemente com o conteúdo tenebroso dos fatos narrados e das imagens exibidas. Assim era o jornalismo televisivo 34 anos atrás.

As reportagens de tom épico e dramático eram a especialidade de Hélio Costa, que narrava preferencialmente histórias impactantes sobre medicina e ciência, lançando mão de artifícios que, aqui e ali, as aproximavam da ficção científica (mesmo se fossem reportagens fundamentadas e consistentes, como a da bomba atômica). Inimaginável nos domingos pop de hoje em dia, a sonoplastia privilegiava fundos sonoros entre a música erudita e a trilha sonora hollywoodiana.

Em 1974, Costa contava novidades sobre o “marcapasso cerebral ”, útil em casos de epilepsia, mal de Parkinson, paralisia cerebral, derrame e convulsões. Em 1976, comovia o país com o drama do menino que vivia dentro de uma bolha de plástico . Em 1977, vestia-se em terno todo branco para revelar que os astronautas que haviam viajado à Lua padeciam de “distúrbio nervoso” e “forte depressão”, isolavam-se de outros seres humanos, relatavam experiências telepáticas e/ou aderiam ao ocultismo e à parapsicologia.

Sob música levemente inspirada no filme 2001, uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, o jornalista editorializava a reportagem sobre astronomia e misticismo com opiniões contra a guerra e a destruição operada pelos terráqueos, hábito que seria dizimado pelos dogmas de jornalismo (supostamente) neutro das décadas seguintes. A voz jamais perdia a maciez, nem mesmo quando, em 1983, transmitia um dos primeiros apanhados noticiosos sobre a Aids .

Um perfume de sensacionalismo emana dos vídeos disponíveis no YouTube, se forem assistidos tendo em mente os parâmetros de 2010. A voz de cordeiro parece se somar às dos ditos “astronautas místicos” em proposições como “o mundo está prestes a encontrar uma nova forma de energia”. Em comparação, o Fantástico de hoje aparenta, à primeira impressão, uma sobriedade temática relativamente maior, em contraste com o sensacionalismo que se disseminou no telejornalismo tipo Ratinho, TV Fama etc. Mas é difícil afirmar se o fervor pela sensação diminuiu de fato, ou se essa impressão se deve só à retirada do verniz épico que forrava cada reportagem.

De todas as diferenças, de ritmo é a mais marcante. São quase incompreensíveis para o padrão fast food de hoje as longas pausas, os segundos gastos com imagens do sol brilhando poeticamente, os intermináveis 15 minutos de cada reportagem. Tudo chega a parecer lento e moroso, se a referência for a velocidade nervosa do telejornalismo atual. Irônico é que tanta pressa e dinamismo não economizam o apresentador Zeca Camargo de deixar escapar um gostoso e emblemático bocejo entre uma e outra locução do Fantástico 2010. As aparências enganam, sempre enganaram.

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