O chamego do lobisomem

O choque de realidades da Virada Cultural de São Paulo

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG |

Agência Estado
Praça Julio Prestes durante a Virada Cultural

Parece uma guerra dos mundos a Virada Cultural da cidade de São Paulo. Durante parcas 24 horas, a lógica da destruição entra em confronto de morte com a estética da construção. Um ambiente que nos demais 364 dias do ano mais se assemelha a uma imensa praça de guerra faz, de repente, a virada para um cenário feérico de festa, diversão e harmonia. No choque entre duas realidades opostas, a cidade parece estar em guerra pela paz. E a festa guarda, ainda, um semblante assustador de holocausto nuclear ou de fim do mundo.

Num dos tradicionais cinemas pornôs do centro, o Cine Dom José, a programação extraordinária é totalmente devotada a filmes de lobisomem. O velho e imponente cinema está cheio, embora não lotado. O filme é Grito de Horror, de Joe Dante, sobre uma repórter de TV que luta contra lobisomens, mas acaba por se tornar um deles. Na primeira cena de grande tensão, um homem sofre de todas as dores imagináveis ao se converter em homem-lobo. Ao mesmo tempo, uma briga eclode dentro da sala de cinema: um homem reclama de três jovens de aspecto gótico que lhe atiraram água, dois grupos se formam e se agridem mutuamente, as luzes se acendem, espectadores assustados largam o filme de terror pelo meio por medo da realidade.

Lá fora, a sujeira habitual do centro degradado não só prevalece, como aumenta exponencialmente com o assédio de estimados 4 milhões de cidadãos ao evento promovido pela prefeitura. Conflitos à parte, São Paulo faz valer por algumas horas uma utopia de convivência democrática entre os mais variados grupos e camadas sociais. Na mesma frente de batalha, estão engalfinhados negros, pardos, brancos, gays, héteros, mulheres, homens, transexuais, jovens, idosos, crianças, religiosos, ateus, (muitos) pobres e (poucos) ricos. Hoje não estão em guerra uns contra os outros, mas curiosamente a impressão é de que estão – daí o nervosismo causado pelo filme farsesco de lobisomem, talvez?

Os shows que passam como filmes diante dos olhos e ouvidos durante a caminhada ajudam a compor um monumental teatro de contrastes. Vanusa e Tulipa Ruiz. Luiz Caldas e Booker T. Gringos que fingem ser bandas mortas há deécadas e o jazz-candomblé futurista da Orquestra Rumpilezz do baiano Lettieres Leite. Wilson Simonal na voz de seus filhos e Wilson Simonal em pessoa nas picapes dos DJs. A festa carioca Bailinho instalada, confortável e surpreendentemente, no cenário íngrime e inóspito da Ladeira da Memória. Um show de alguém que o cidadão detesta de repente se revela uma ótima e divertida atração. A cracolândia, por incrível que pareça, está cheia de vida nas poucas horas de carinho que alguém resolveu dedicar a elas. E os homens-zumbis que costumam zanzar por ali feito bailarinos de Michael Jackson em Thriller, onde será que se esconderam hoje?

O gigantismo dos palcos contrasta com uma programação marginal que não está registrada nos mapas da festa, mas por golpes de sorte se revela a mais sensacional da Virada. Um pequeno aglomerado toca e dança xaxado na praça da Biblioteca Municipal. Um grupo de negros quase sem instrumentos musicais comanda o samba na rua do Arouche. A cultura, como a guerra e a paz, se revela algo que se faz no chão de asfalto, mais que nas alturas dos palcos iluminados. Os bêbados e os sóbrios balançam as cabeças ao mesmo tempo, por motivos diferentes, ou pelos mesmos motivos.

Outra atração que não tem horário marcado na programação oficial é a arquitetura do centro da cidade, de tirar o fôlego de quem possa admirá-la sem as aflições de todo dia. O prédio decadente e malcuidado da av. São João é transformado por projeções e pulsa ao som da música eletrônica, ganhando durante uma madrugada a vida que dissimulará no resto do ano. O garoto de periferia que para e admira aquele inesperado transformer se esquece, por ora, da pichação que fez outro dia no banheiro do parque Ibirapuera: “Só venho ao centro porque preciso trabalhar. Se pudesse ficava sempre na periferia”.

Milagrosamente, está quase tudo em paz e harmonia – “apenas” um adolescente morreu durante a guerra de mundos de 24 horas. Um dos lugares mais bacanas para estar, durante essas horas esquisitas, é a praça Roosevelt, o mesmo cenário pós-apocalipse onde outro dia atiraram no dramaturgo. Ali acontece uma “convenção de nerds”, ou algo que o valha. É um formidável espetáculo de convivência pacífica em que se esbaldam juntos Darth Vaders, princesas, robôs com espadas de luz à la Guerra nas Estrelas, gente com figurinos vitorianos ou máscaras venezianas, polichinelos e outros personagens de desenho animado, todos em carne e osso.

Trata-se da mais perfeita metáfora para a Virada Cultural de uma cidade que no resto do tempo não se respeita (a propósito, os rios Tietê e Pinheiros foram convidados para a refestança?). A convivência cenográfica entre diferentes simulada pelos “nerds” da Roosevelt é a mesma que está acontecendo, no duro, ao vivo e em cores, nas ruas, largos, praças e fronts ao redor. O próximo desafio, para os gestores da Virada e para os que dela usufruem, poderia ser expandir a ficção científica de lobisomens fofinhos doidos por um chamego para os dias duros da “vida real” além-virada.

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