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Neil LaBute, um dramaturgo irresistível

A Forma das Coisas leva à cena o texto do ex-mórmon que se transformou num dos grandes autores-provocadores do nosso tempo

Denis Victorazo, especial para o iG Cultura |

Está em cartaz em São Paulo A Forma das Coisas , uma espécie de versão moderna e perversa de Pigmaleão de Bernard Shaw. O texto do americano Neil Labute foi dirigido por Guilherme Leme e tem co-direção de Pedro Neschling.

O espetáculo ficou em cartaz no Rio de Janeiro com ótimas críticas e chega a São Paulo com o elenco afinado, mesma trajetória feita por A Gorda , do mesmo autor. São duas boas oportunidades para se conhecer um dos mais cultuados autores do teatro contemporâneo.

O texto original, The Shape of Things , teve sua primeira apresentação em Londres em maio de 2001, e em 2003 o próprio autor adaptou e dirigiu a versão para o cinema com o mesmo elenco (entre os atores, Rachel Weisz antes do Oscar por O Jardineiro Fiel , em 2006).
A peça mostra um jovem tímido e inseguro que conhece uma estudande de artes  inteligente, atraente e agressiva. Ela o influencia em todos os aspectos e, em algumas semanas, transforma a aparência e a vida do rapaz, criando um clima ruim entre ele e seus amigos que ela considera inferiores.
Não há como não temer pelo futuro do rapaz e pensar até onde se deve ir por amor. E também até onde um artista pode ir. Neil Labute, no caso, vai longe.

Concessão comercial
A biografia desse americano de 47 anos não ajuda muito a compreendê-lo. O que esperar de um estudante universitário que se torna mórmon enquanto estuda teatro e depois se transforma num dos mais instigantes dramaturgos da atualidade?

A fase mórmon-universitária  ficou para trás há bastante tempo, mas é interessante imaginar que ele deve ter convivido com os preconceitos quase excludentes de ser um dramaturgo provocador e um conservador religioso. Foi na universidade  que Labute conheceu o ator Aaron Eckhart, protagonista de diversos trabalhos seus.

Para se ter uma idéia de quanto seu trabalho é cruel e incômodo, é preciso dizer que ter dirigido o filme A Enfermeira Beth , com Reneé Zellweger, em que uma dona de casa confundia a trama de sua novela favorita com a realidade, foi seu flerte com o grande público, sua grande concessão comercial.
Nos anos noventa, depois da estreia do filme Na Companhia dos Homens , no qual assina roteiro e direção, foi chamado de misógino. Em seguida, "misantropo" era praticamente seu codinome. Alguns críticos se referiam a ele como "O Misantropo Americano".

Divulgação
O dramaturgo e cineasta americano Neil LaBute
LaBute virou cult e tem transitado por Londres e Nova York dirigindo teatro ou transpondo seus textos para o cinema. Só em 2009 um espetáculo seu saiu do circuito Off-Broadway e foi para a Broadway, mas Reasons to be Pretty teve a temporada cancelada antes do previsto. Parece que o espaço do autor é mesmo o circuito alternativo: por isso, estrear A Forma das Coisas num teatro da Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, vem a calhar.

Difícil mas irresistível
Antonio Fagundes, em 2009, ofereceu ao público paulista um monólogo de Neil LaBute, mas a belíssima montagem de Restos , com direção de Márcio Aurélio, não agradou a todos. Causava mal estar em alguns. Outros equivocadamente chamaram o espetáculo de “ “teatrão”. O que seria isso mesmo? Um teatro grandioso?

Muitas coisas incomodam e o teatro de Neil LaBute fala sobre isso, sobre as verdades que não queremos ouvir. O mais interessante é a maneira atraente como ele nos faz escutar,  como resistir a esta cena de encontro num museu que começa com o seguinte diálogo:

Uma jovem para em frente a um cordão de veludo.
Ela segura uma lata numa das mãos e olha fixamente uma enorme escultura. Depois de um tempo, um rapaz (de uniforme) para ao lado do cordão de segurança e se dirige a ela:

Adam
…você está pisando depois do limite. Senhorita…humm, você está pisando…

Evelyn
Eu sei. É “senhora”.

Adam
Ah!.Desculpa, senhora, mas…

Evelyn
Foi de propósito. Pisar depois da faixa…

Adam
O que? É, eu imagino que sim, quer dizer, o jeito como você pisou, meio que por querer. Você não pode fazer isso.

Evelyn
Eu sei. Foi por isso que eu fiz.

Adam
Por que?

Evelyn
…pra ver o que ia acontecer.

Adam
Ah! Bem…Eu.

Evelyn
“Eu?”

Adam
Não, quer dizer, o que acontece é eu ter que chegar como eu fiz e pedir para você dar um passo para trás. Você pode recuar, por favor?

Evelyn
E se alguém não obedecer? O que acontece?

Adam
…você não vai dar um passo para trás?

Evelyn
Ah…quer dizer, provavelmente vou, mas só por curiosidade, o que você faria se eu não recuasse?

Adam
Ah…eu…que dizer…não tenho certeza. Nunca aconteceu de alguém não obedecer. Eu só precisei dizer isso umas quatro vezes, e toda vez eles obedeceram. Deram um passo para trás.

Evelyn
E se eu for a primeira que não recua. O que acontece?

(tradução livre de The Shape of Things)


Divulgação
Os atores em cena na peça A Forma das Coisas

A Forma das Coisas
de Neil LaBute
Adaptação e Direção: Guilherme Leme e
Co-direção: Pedro Neschling
Espaço Parlapatões
Praça Roosevelt, 158 –Centro-SP
11 3258-4449
Quintas 21h
Sextas 21h30
Até 21 de maio

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