Zeca Pagodinho causa constrangimento em lançamento de CD

Cantor reúne imprensa no Rio e, depois de algumas cervejas, perde o tom

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro | 16/09/2010 19:49

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“Cadê o motorista? Ele foi jogar no ‘bicho’ para mim e não voltou. Vê se ele foi jogar mesmo ou fugiu com meu dinheiro”. É assim, aos berros e fazendo graça, que Zeca Pagodinho entra na sala onde jornalistas o aguardam na sede da sua gravadora, na Barra da Tijuca, no Rio, para divulgação do lançamento do seu novo CD, “Vida da minha vida”. “Mandei ele jogar no cavalo. É o número da sepultura do meu amigo, que acabou de ser enterrado. Tomara que ele me mande uma cervejinha de onde estiver”, continua. O incensado humorismo alcoólico de Zeca Pagodinho até aí é o mesmo de sempre, gosta dele quem quer gostar. Aos poucos, porém -- e depois de várias cervejas --, o que poderia até ser considerado engraçado descamba para a grosseria, causando constrangimento inclusive em sua própria assessoria.

O assunto morte acaba permeando o começo da conversa. Aos 51 anos, Zeca diz não temer o fim da vida. “Falo isso (que tem medo de morrer) só para dar um charme, mas nem me sinto velho, não. Sobre quem gostaria de encontrar no céu, ele pensa por rápidos segundos. “Se for morrer, vou querer levar todo mundo comigo. Quer dizer, todo mundo não. Imagina se for jornalista junto? Vou chegar lá e vai vir um cara com um bloco na mão perguntando se a viagem foi boa. Que saco!”, zomba.

Foto: Fabrizia Granatieri

Zeca: "Se for morrer, vou querer levar todo mundo comigo"

O celular toca, mas sua assessora não deixa que ele atenda, mesmo sob seu pedido para que lhe entregue o aparelho. “Deixa eu atender, pô. Vai que é minha mulher. Ela não sabe que eu estou aqui... Mas tudo bem, ela confia em mim”, emenda, diante dos olhares dos repórteres à sua volta. “Sinto que hoje acordei mais barrigudo”, diz, alisando sua protuberante barriga para, em seguida, abrir uma latinha de cerveja. Zeca insiste em se sentir o tempo todo como numa mesa de bar rodeado por amigos bajuladores. Chega a oferecer um copo para um ou outro jornalista. “Trato todo mundo igual, do Lula à babá no meu neto”, diz. Mas logo se contradiz.

Rabo de saia

Zeca não gosta dessas obrigações com a imprensa. E deixa isso claro. Entrevista não é sua praia. Pelo menos não quando não tem a sua frente uma mulher bonita. “Prefiro falar com mulher. Se eu gostasse de dar entrevista para homem, se gostasse de bater papo com homem, andaria com a foto do meu pai na carteira, ué”, diz.

Os minutos vão passando e a quantidade de copos ingerida pelo cantor aumenta proporcionalmente à grosseria do artista. “Agora sou cafetão. O lance é andar só com mulher rica”, solta o cantor, bebericando sua cerveja, sem saber bem o que estava respondendo. Enquanto isso, é clicado pela fotógrafa dessa reportagem. Joga beijos para ela. “Pegou meu beijo? Não pegou? Depois te mando outro”, brinca. “Você vai ficar assim, deitada na minha frente, para fazer a foto? Vai me pegar inteiro?Nossa, não vou resistir”, diz.

Foto: Fabrizia Granatieri

Uma das pérolas de Zeca: “Bêbado é a coisa mais bonita empurrando carrinho de bebê"

A cerveja o anima a mudar o foco da conversa. “O país está uma merda nestes últimos dez anos. Vá a Irajá, Bonsucesso, Nova Iguaçu, é tudo caos. Não tem nada de bom acontecendo por lá, não. Em Xerém (na Baixada Fluminense) tem surto de meningite.”, vocifera. Xerém é um paupérrimo distrito de Duque de Caxias, município fluminense, onde Zeca ainda tem uma casa para reunir os amigos aos finais de semana. Sua residência oficial, há alguns anos, no entanto, é um confortável condomínio na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. É esta ensolarada Barra que ilustra o encarte de seu CD.

Mais um gole de cerveja e ele mesmo puxa assunto sobre o fato de ser avô. Um comentário ao seu estilo. “Bêbado é a coisa mais bonita empurrando carrinho de bebê”, diz o cantor que pôs no repertório “Candeeiro da vovó”, de dona Ivone Lara, e “Orgulho do vovô”, parceria sua com Arlindo Cruz. “Inventaram essa porcaria de lei da cadeirinha para crianças andarem no banco do carro. Acabo de passar por uma praça cheia de criança pedindo dinheiro. Por que só se preocupam com lei que protege filho de rico? Por que não fazem lei para criança na rua?”, diz, admitindo que já comprou uma cadeirinha para passear com seu neto Noah, de sete meses.

O papo vai terminando como começou. Zeca recebe um bilhete com seu jogo do bicho. Sorridente, ele coloca o comprovante da aposta no bolso. É impossível falar sério com Zeca. “Você quer mais uma foto? Agora vai me pegar por cima, delícia?”, diz ele para a fotógrafa.

Foto: Fabrizia Granatieri

"Se mandarem eu pintar meu cabelo de verde, não vou pintar. Sei o que estou fazendo", diz o sambista

Este é Zeca. E ele não pretende mudar. Em nenhum sentido. O CD é mais um nos mesmos moldes dos anteriores que têm dado certo – samba sobre um personagem engraçado (“O Garanhão”), sobre dor de cotovelo (“Desacerto”, “Chama de Saudade”), uma ou outra alegre (“Vida da minha vida”, “Poxa”).

Zeca não está nem aí para o que vão pensar dessa sua mesmice. “Esses produtores adoram ficar inventando umas coisas malucas. Se mandarem eu pintar meu cabelo de verde, não vou pintar. Não gosto que se metam comigo. Eu sei o que estou fazendo”, avisa.

O CD “Vida da minha vida” chega às lojas no próximo dia 21 com 50 mil cópias iniciais, um bom número em tempos de crise no mercado das gravadoras. Zeca vai embora ainda tentando fazer graça. Poucos riem.
 

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