Wilco: astros do rock livres de tormentos

Jeff Tweedy, líder da banda, fala ao New York Times sobre novo álbum e seu lugar no rock

The New York Times |

Em um churrasco em comemoração ao Dia dos Pais, na véspera de três noites consecutivas de shows com ingressos já esgotados no Wiltern Theater, Jeff Tweedy, líder da banda Wilco, falava sobre seu filho Spencer, que aos 14 anos é baterista da banda Blisters. Filho de um trabalhador da linha férrea de Saint Louis, Tweedy chegou ao fundo do poço a caminho da magnitude do rock. Ao longo dos últimos cinco anos ele havia chegado a um entendimento sobre si mesmo que também se aplicaria a seu filho: Você não é um astro do rock. Você faz coisas de astros de rock, disse ele para seu filho.

Usando uma camisa de colarinho abotoado e um boné do Brewers escondendo a cabeleira, enquanto ele falava em um escritório emprestado a poucos passos da festa de um amigo, Tweety não parecia nem um pouco com o rei do rock alternativo. Entretanto, ele demorou alguns dolorosos anos até encontrar um lugar para se encaixar entre o cara bonzinho no churrasco e o líder de banda no Wiltern.

A turnê atual do Wilco é um sucesso ¿ a crítica especializada está em êxtase ¿ e Tweedy está muito satisfeito com o brilhante novo álbum da banda: Wilco (The Album). Entretanto, aos 41 anos, Tweedy parece estar muito mais interessado no fato de ter finalmente conseguido conciliar suas ambições musicais e pessoais: morar em Chicago, fazer parte de uma banda e também de uma família, ficar sóbrio (já se passaram cinco anos desde que ele se livrou do vício de analgésicos) e sobreviver a um simulacro de normalidade.

O piquenique em família que serviu de pano de fundo para a entrevista tinha muito mais a ver com a forma com que ele conduz sua vida atualmente do que com uma questão de gerenciamento de mídia. Aquele artista atordoado dentro do ônibus da turnê, cujos únicos companheiros constantes eram as pílulas e os demônios que ele tinha de domar, já não existe mais. Tweedy agora faz viagens curtas entre os shows e dedica mais tempo à família. Enquanto fala com um repórter, seus dois filhos dão uma passadinha no local - ele parece ficar mais à vontade quando eles ou sua esposa, Sue Miller, estão por perto.

Não é que ele se sinta completamente confortável com o sucesso e a estabilidade ¿ ele costuma ser um cara bem complicado até em seus melhores dias ¿ mas, ao contrário da máxima do mundo do rock de que apenas a agonia crônica produz música de expressão, ele diz que a ausência de caos tem sido boa para seu trabalho.

Eu nunca me sentia bem quando estava em meus piores dias, diz ele, olhando para fora da janela enquanto seus filhos ¿ Spencer e Sam, de 9 anos ¿ balançam e dão gargalhadas em um trampolim. Quando eu fazia algo realmente bom no passado, era porque conseguia transcender as partes do meu ser que não estavam sãs.

Mito do sofrimento

Apesar de ter aquela falta de pretensão peculiar do Meio-Oeste americano, Tweedy é um entrevistado extremamente volúvel - não porque não tente responder as perguntas, mas justamente por tentar respondê-las. Para ele é importante ser compreendido e ele se esforça para se explicar, pois, como qualquer escritor irá te dizer, é bom estar feliz, mas é difícil explicar isso.

Acho que é porque tudo na minha vida está melhor, sendo assim sou uma pessoa bem mais feliz ¿ bem, não estou sendo muito eloqüente em relação a isso, disse ele, que fez uma pausa e continuou: Ter uma base sólida nos permite olhar para coisas mais obscuras e na verdade pensar sobre elas. Eu entro em discussões com as pessoas sobre esse tal mito do sofrimento, essa coisa de artista atordoado, e quase nunca elas se dão por convencidas.

O novo álbum trás letras que ainda se enveredam pelo caminho apocalíptico pessoal, mas o fatalismo é atenuado pela doçura. Aquele cara no palco do teatro Wiltern na noite seguinte ¿ aquele que costumava deixar uma lata de lixo próximo ao palco para poder vomitar entre as canções ¿ não é mais atormentado por enxaquecas, ataques de pânico e frascos de comprimidos que costumavam acompanhar uma das bandas mais consistentes e respeitadas do rock alternativo. Agora ele parece um cara normal se divertindo e fazendo coisas que os astros de rock fazem.

Quando Tweedy surgiu no palco do Wiltern diante de 2.300 fãs, muitos deles provavelmente submersos nos 15 anos de tradição da banda, as apresentações se tornaram desnecessárias. Ele as fez, de qualquer maneira, escolhendo a canção Wilco, do álbum Wilco, para abrir o show da banda Wilco.

"Este som é um abraço, é um ombro sônico onde você pode chorar; Wilco vai te amar, baby", cantou Tweedy em um discurso direto, bem incomum para o rock. Depois dos anos de tumulto que se tornaram uma batida de fundo para a música do Wilco, parecia apropriado oferecer um velho e bom abraço.

Acho que a banda escolheu o nome Wilco para o novo álbum porque eles sabem quem são, e eles estão prontos para serem donos desta identidade de maneira muito confiante, disse Rita Houston, diretora de música da WFUV, rádio progressiva de Nova York.

Parece que a escolha está funcionando. O single You Never Know, o primeiro do novo álbum, ocupa a quarta posição da lista AAA ¿ Adult Album Alternative. É compreensível que na data do lançamento do CD, no dia 30 de junho, os 10 CDs mais vendidos da Amazon eram de Michael Jackson. O décimo primeiro, entretanto, era Wilco (The Album).

Som mais direto

As faixas básicas do novo álbum foram criadas quando a banda estava visitando a Nova Zelândia, bem longe do Wilco Loft em Chicago, local que vem servindo como um laboratório para reconsiderações às vezes até radicais do som da banda, geralmente assistida pelo produtor e músico experimental Jim ORourke. Como ele andava ocupado com filmes, a produção do álbum ficou a cargo da própria banda e de Jim Scott, engenheiro de som que trabalhou em vários dos álbuns mais recentes da Wilco.

Eles trouxeram para o álbum um som mais direto e mais musicalidade, apoiando-se mais em melodias e refrões fáceis de lembrar. As letras também são mais engajadas, menos preocupadas com a alienação da vida moderna do que em encontrar seu caminho em meio a tudo isso. O álbum tem sua parcela de afinação sônica pesada, característica do trabalho anterior da banda. Mas, como disse David Dye, apresentador do programa World Café, transmitido pela rádio WXPN da Filadélfia: Esse álbum não tem nada de desagradável.

Quando canta, a música de Tweedy parece fluir, é quase um balanço ¿ ao contrário do passado, quando ele parecia estar fazendo um exercício para vencer a resistência ao cantar. Ninguém vai confundi-lo com o Frank Sinatra, mas ele se tornou um vocalista de rock surpreendente, disse Houston.

O álbum não conta com o experimentalismo incrível de Yankee Foxtrot Hotel, de 2002, ou com a força sinistra de Ghost Is Born, de 2004. Trata-se, porém, do tipo de compilação de uma banda que se encontra no auge de sua carreira. Provavelmente esse álbum pareça mais com uma somatória do que os outros, pois a banda se permitiu fazer praticamente quase todas as coisas diferentes que achamos que fazemos muito bem no mesmo álbum, disse Tweedy.

A Wilco nasceu em 1994 em meio a conflito, como resultado da separação da influente banda do country alternativo Uncle Tupelo. Mas o Wilco conseguiu aos poucos ir espalhando suas raízes da cultura americana. Cada novo álbum era um drama - incluindo o bem-sucedido Yankee Hotel Foxtrot, que vendeu 650.000 cópias ¿ criando uma narrativa para fãs fanáticos e críticos que se posicionavam como integrantes do antigo regime soviético, seguindo cada movimento da banda. Para uma banda das proporções da nossa, que não chegava a ser grande o suficiente para fazer parte da esfera do show business, sempre fomos muito vigiados, disse o baixista John Stirratt, que faz parte da formação original.

A banda dava muito que falar. Seus integrantes brigavam entre si e com as gravadoras e, no caso de Tweedy, contra perseguidores mentais que o levavam e o tiravam das drogas e das clínicas de reabilitação - devido ao uso excessivo de Vicodin e benzodiazepinas, que teve início no final dos anos noventa.

Morte ao lado

Ninguém volta do fundo do poço são e salvo. Jay Bennett, o talentoso multi-instrumentista demitido publicamente no documentário I Am Trying to Break Your Heart,de 2002, morreu de overdose em maio, poucas semanas depois de processar Tweedy e a banda por quebra de contrato.

Ainda vejo isso como uma das primeiras decisões que tomei para me tornar saudável. Foi uma decisão de toda a banda, disse Tweedy, sem alterar seu tom de voz, se referindo à saída de Bennett. Aquilo não ia acabar bem (Outros integrantes da banda comentaram sobre a morte de Bennett com tristeza, descrevendo a mesma como uma perda significativa para a música).

Mesmo com a aclamação crescente da banda em sua primeira década de existência, integrantes entravam e saiam, enquanto Tweedy se esforçava para desempenhar seu duplo papel de letrista sensível e líder de uma banda em ascensão. Com a mesma formação há cinco anos, Tweedy conseguiu reunir músicos que conseguem se equiparar a sua visão exigente. Além de Stirrat, o lineup inclui Nels Cline, um dos melhores guitarristas de todos os gêneros; Glenn Kotche, compositor que é também um baterista brilhante; e outros dois músicos igualmente talentosos, o tecladista Mikael Jorgensen e o multi-instrumentalista Pat Sansone.

No teatro Wiltern, o Wilco mostrou que suas duas principais vertentes de tradição musical ¿ roots music e experimentalismo em ritmo rápido ¿ produzem um grande espetáculo ao vivo. Assistir a formação atual dando início ao show é como ver uma enorme escavadeira sendo acionada. Durante a extensa apresentação de duas horas e meia de duração, Tweedy parecia estar aproveitando das duas maneiras.

Ao centro, o jovem Tweedy integra a banda Uncle Tupelo

Ver a vida através da música se tornou uma obsessão, disse ele durante o churrasco. Meus discos, minha relação com meus discos, com os astros do rock, enfim, com tudo que está em volta disso, realmente tem sido uma das únicas maneiras que me fez finalmente começar a entender o mundo.

Ambicioso e competitivo

Depois de formar a Wilco, Tweedy se viu dividido entre ser o cara que venera o rock e o outro, que está no palco. Eu queria ser como o David Lee Roth, que alguma parte disso fluísse naturalmente para mim; mas sou muito encabulado, em algumas noites é difícil transcender essa preocupação, disse ele. Tenho um ego observador por cima de um ego que costuma se divertir com muitas coisas. Em determinado momento, consegui me abrir e compreender que na verdade também estou do outro lado disso. Parece que é muito mais trabalhoso esconder um ego do que simplesmente encontrar um ponto de equilíbrio com ele.

Seja em estúdio ou em shows, ele sempre foi claro sobre seus objetivos. Jeff é muito boa gente, mas é também ambicioso e competitivo, o que quer dizer que é exigente com os músicos e com a banda, disse Dan Murphy, guitarrista da banda Soul Asylun, que tocou com Tweedy no projeto Golden Smog.

Ganhador de alguns Grammys e com renda mais do que suficiente para sustentar Spencer como baterista (todos os álbuns em estúdio do Wilco venderam mais do que 200.000 cópias), Tweedy está em um estágio de sua carreira no qual a maioria dos músicos não se importaria nem um pouco com a opinião pública sobre sua música. Ele, porém, continua lendo as críticas e escutando a lengalenga de integrantes mais antigos do culto. Nunca vou deixar de me importar, disse ele, tirando seu boné para dar uma folga para suas madeixas. Gosto de ter o retorno do público, mas sou tão ingênuo que isso sempre acaba me afetando.

Acho que ele está em uma ótima fase, disse Miller sobre seu marido. A antiga proprietária de uma casa noturna de Chicago explicou: Acho que ele está se sentindo muito confortável consigo mesmo. Acho que ser um cara bonzinho deve ser uma sensação boa.

Spencer, que além de baterista também é blogueiro e gosta de se encaixar na cena musical, disse que ele e seu pai se relacionam como músicos. Relaxado em uma grande cadeira de palhinha na beira da piscina, Sam disse que adorou o novo álbum do pai. Quando alguém sugeriu que talvez ele não dissesse isso se não fosse Dia dos Pais, ele finalmente olhou nos olhos do interlocutor e disse: Diria sim.

Embora a faixa I Am Trying to Break Your Heart seja um retrato clássico de uma banda em guerra, Kotch afirmou que não havia mais tanto drama para dar continuidade à lenda. Você fica com essa impressão de que ele é um tirano nas relações de trabalho, e na verdade ele é justamente o oposto. Ele é generoso tanto como artista como quanto pessoa. Em uma noite dessas, em El Paso, alguns de nós estávamos viajando com nossas esposas e filhos, e ele se ofereceu para ficar com as crianças para irmos ao cinema. Acho que poucos líderes de bandas de rock fariam essa oferta.

Durante o show no Wiltern, Tweedy não pode evitar zombar dos fãs hippies na plateia, que pareciam exaustos quando o vocalista os implorava para bater palmas. Você perdeu a cena no show em Pomona. Eles batiam palmas como se tivessem nascido para fazer aquilo.

A vontade de fazer isso é um bom indicativo de quão livre você é, disse ele, levantando suas mãos sobre o rosto iluminado por um sorriso, batendo palmas e olhando para as luzes, para a plateia, para o espetáculo.

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