Vocalista do Pretenders fala sobre novo álbum, velhos sucessos e EUA

New York Times |

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Nos bastidores da 23ª edição anual do show Farm Aid, a voz de Kenny Chesney toma conta do ar. Enquanto isso, Chrissie Hynde xinga seu celular, arranca suas botas e se enrola em um sofá, depois da apresentação ao pôr-do-sol da atual configuração de sua banda, o Pretenders.

Em uma atitude tipicamente geniosa, a maioria das canções que tocaram fazem parte de um álbum que ainda vai demorar semanas para chegar às lojas: Break Up the Concrete , o primeiro álbum da banda em seis anos.

Ambição não é meu nome do meio, diz Hynde. Eu sou um pouco hippie, então a idéia não era ter objetivos ou nada assim. Apenas circular e observar e viver a vida; é preciso antes de fazer um disco.

Bebericando uma cerveja sem álcool e fumando um cigarro enrolado à mão, Hynde, 57 anos, continua magérrima como era quase três décadas atrás, quando o álbum de estreia do Pretenders misturou perfeitamente a energia punk ao estilo British Invasion. Ela agora deixa aparecer alguns fios grisalhos nos cabelos negros repicados, sua marca registrada, mas, com a maquiagem borrada pelo calor do final de tarde no palco, ela ainda guarda o visual de lenda do rock.

Entretanto, ao discutir o álbum Concrete , fica claro que os pensamentos mais recentes de Hynde foram basicamente formados por um fator tradicional: passar mais tempo em Akron, sua cidade natal no estado de Ohio. Akron, que também é berço de alguns excêntricos - como o diretor de cinema Jim Jarmusch, o rebelde da música country David Allen Coe e os integrantes da banda de rock de garagem Black Keys - vem sendo duramente castigada por muitas décadas, assim como outras cidades da região do Rust Belt: a cidade registra taxas de desemprego muito acima da média do país e apenas uma fábrica de borracha restou na antiga Capital Mundial da Borracha.

Hynde pode parecer uma cheerleader fora dos padrões. Ela se mudou para Londres, sua residência oficial, no início dos anos setenta e apenas recentemente adquiriu um apartamento em Akron. Porém, sua cidade natal é tema de algumas canções escritas por ela, como My City Was Gone, o que deu oportunidade para defender causas importantes, como o transporte coletivo e a renovação urbana.

Meus pais já estão bem velhos, então quero estar mais presente, disse ela. Estou tentando descobrir minha relação com a cidade ¿ existe uma ressonância que você sente quando volta para o lugar onde nasceu.

O fato mais marcante neste retorno se deu no ano passado, quando ela abriu o restaurante vegetariano Vegiterranean. Hynde é uma ativista pelos direitos dos animais e já foi presa várias vezes durante protestos (uma delas por ter rasgado produtos feitos de couro em uma loja Gap de Manhattan).  Durante o Farm Aid ela usou uma camiseta onde se lia Tax Meat (Imposto sobre a Carne) e manifestou seu desejo que um dia todos os MacDonalds e abatedouros fossem queimados ¿ sentimento que provavelmente não foi compartilhado pelos fazendeiros presentes no evento.

Não tinha nenhum restaurante vegetariano em Akron, então tive a idéia de abrir um, e ele se tornou um fenômeno desde então, disse ela. Ela descreveu detalhes do restaurante, que serve pratos de sabor internacional, que pode ser degustado até mesmo no saquinho de chá dentro da chaleira. Em sua abertura, ela mesma serviu hambúrgueres vegetarianos a policiais.

Todo mundo dizia para eu não abrir o restaurante, que não ia dar certo, ela comentou sobre o empreendimento. Mas eu tinha de abrir mesmo assim, pois queria ter um lugar onde pudesse ir comer. E mais importante do que a música é a maneira como sou. Para mim, a música é um veículo que me permite ter voz ativa.

Quebrando concreto

Eu realmente não acho que o mundo precisa de mais um álbum dos Pretenders. Mas, para ser franca, todo esse tempo sem lançar um álbum já estava me deixando sem graça. E a gente estava fazendo muitas turnês, eu não tinha mais estômago para ficar tocando aquelas músicas antigas. É uma tortura.

Quando começou trabalhar em novas canções, ela viu sua vida tomar outro rumo. Ao passar mais tempo em Akron minha sensibilidade foi captando mais uma sensação americana, disse ela. Além disso, no ano passado os Pretenders saíram em turnê com o ZZ Top, e Hynde participou de um show em homenagem a Jerry Lee Lewis. Quando foi ao Joshua Tree National Park, na Califórnia, e visitou o lugar onde foram espalhadas as cinzas do pioneiro do alternative country Gram Parsons, ela comentou: Eu tive uma epifania naquele lugar, e então pensei: Uau! Acho que sei onde isso vai parar.

Gravado ao vivo em estúdio em menos de duas semanas, o álbum Concrete é solto e fragmentado, permeado por rockabilly e country. Ele traz também uma outra versão dos Pretenders, cuja formação já passou por diversas mudanças desde a morte do guitarrista e fundador da banda James Hoenyman-Scott e do baixista Pete Farndon, no início dos anos oitenta. O baterista Martin Chambers, o segundo integrante de maior constância, está em turnê com a banda, mas é o músico de estúdio Jin Keltner que toca bateria no álbum. Chrissie é sutil como napalm, disse Chambers em uma entrevista por telefone. Ela é completamente determinada. Ela sabe quando tem algo errado, que precisa ser consertado, e ela vai e faz.

Apesar da faixa título do álbum ser uma meditação em ritmo acelerado sobre a expansão urbana desenfreada e a homogeneização cultural, Hynde mostrou otimismo durante o Farm Aid. Ela citou a aceitação mais ampla do vegetarianismo e uma atenção maior para as áreas urbanas como uma evidência da mudança de atitudes.

Tenho muita sensibilidade em relação a estas questões, disse ela. É parecido com o que aconteceu nos anos setenta, quando fiquei me mudando de um lugar para outro tentando formar uma banda. Fui para Cleveland, fui para Paris; mas, por volta de 76, pude pressentir que tinha algo para acontecer em Londres. Dito e feito: em 77 todo o movimento punk estourou. E tenho a mesma sensação em relação à América neste momento.

Pode acreditar, não estou fingindo otimismo, sou muito realista. Mas, posso pressentir uma mudança, e muito disso irá acontecer porque as pessoas não terão outra escolha.

Versão feminina de Mick Jagger

Embora os Pretenders nunca mais tenham alcançado o mesmo sucesso do álbum de estreia em 79 (que incluía o sucesso Brass in Pocket) e do glorioso Learning to Crawl de 84 (Back on the Chain Gang), a banda conseguiu se tornar quase que uma instituição. O estilo desafiador de Hynde influenciou roqueiras famosas, como Shirley Manson, Liz Phair e Lucinda Williams; hoje seu espírito é visível  em Karen O, da banda Yeah Yeah Yeahs.

Porque ainda não fizeram um filme sobre ela?, perguntou Katy Perry. Ela é a pioneira das mulheres com estilo no rock. É uma versão feminina de Mick Jagger, só um pouco mais punk.

Volta e meia a atenção pública se volta para ela: seja em sua aparição no seriado "Friends", por exemplo, ou na versão de Carrie Underwood para sua canção Ill Stand by You. Apesar da origem punk (Hynde tocou nas primeiras formações do Clash e do Damned), a banda agora é produto obrigatório nas rádios de classic rock e foi introduzida no Rock and Roll Hall of Fame em 2005.

Entretanto, Hynde se recusa veementemente a pensar em termos do legado da banda. Odeio tudo isso, disse ela, chamando o Hall of Fame de mais um momento americano de mau gosto. Ela completou: Essa coisa de Hall of Fame é para o esporte. Isso era uma coisa importante para os meus pais, mas eu não vejo isso como nenhuma honra.

A percepção comum é que, em algum momento, os Pretenders se tornaram um projeto solo, com a ajuda de quaisquer músicos que Hynde juntasse. Ela disse, porém, que os Pretenders sempre serão uma banda genuína. Mudei a banda com o passar dos anos, mas nunca fui processada, sempre mantive a amizade com os caras, disse ela. Eles podem ver que eu não toco muito bem, mas tenho certa visão ¿ e que sempre tenho de ser leal à música em primeiro lugar. Eu nunca teria sido interessante se estivesse sozinha, ela concluiu. Se fosse Chrissie Hynde e sua guitarra, nós nem estaríamos tendo esta conversa agora. Você nem saberia quem eu sou. 

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