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Violins BR A Redenção dos Corpos

Diego Fernandes |

Por Diego Fernandes

Charles Bukowski, ao comentar certa vez o estilo de seu colega de profissão maldita Henry Miller, declarou ser difícil de empatizar com sofrimento e miséria quando estes são descritos de modo por demais cheio de floreios. Para muitos, Bukowski era só um alcoólatra misógino e profano, e ele mesmo elogiaria Miller em ocasiões posteriores, mas parece que algumas de suas idéias eram perversamente ancoradas no senso comum. Impossível não lembrar do paradoxo expresso pelo escritor americano ao ouvir A Redenção dos Corpos , quinto disco do quarteto goiano Violins.

O grupo aposta em uma dicotomia para melhor ancorar a proposta conceitual do álbum: a primeira metade é marcada por violões e sóbrias programações eletrônicas, enquanto a segunda aposta (mesmo que sem muita convicção aparente) em guitarras potentes.

Após uma bem-sucedida migração do inglês para o português em suas letras, as músicas introspectivas do Violins ganharam o Brasil subterrâneo através de uma excelente reputação de shows e da clara ambição de seus álbuns. Alguns críticos de olho no sempre ebuliente cenário independente consideram esta A Banda a ser ouvida nesses anos 00, Tribunal Surdo (2007) sendo apontado por muitos como um dos picos artísticos dessa safra. A matriz sonora da banda parece firmemente calcada em guitar bands britânicas em geral e no Radiohead em específico. Conjecturas e apostas à parte, A redenção dos corpos é um disco que mal pode ser classificado como 'médio' graças à insistência em certos maneirismos divisivos - e que, ironicamente, parecem ser os pontos mais admirados pelos fãs da banda.

Se o instrumental é competente (mesmo que, novamente, nunca cheguem ao território do excepcional), os vocais e as letras de Beto Cupertino oprimem ouvintes desavisados. Analisando através de um diálogo truncado entre hermetismo e acessibilidade a dualidade da natureza humana, Cupertino comete uma infindável sucessão de metáforas religiosas opacas e lugares-comuns, todas cantadas em um range vocal enfadonho e contido que conjuga a imagem de alguém cantando com os olhos fechados e os punhos cerrados junto ao peito, tal um pregador pouco convicto.

Há uma segunda dicotomia no disco, esta aparentemente acidental: enquanto Cupertino parece tentar demais, o resto da banda vai no caminho oposto e parece se conformar em um meio-termo apenas proficiente.

E, claro, há também o fato de que Bukowski, patrono dos párias e incompreendidos alheios aos floreios da tristeza, não faria idéia do motivo de tantas lamúrias. Mas essa já é uma análise um pouco mais subjetiva.

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