Um crítico linha-dura chamado Tinhorão

Objeto de biografia e lançando dois livros, ele é o homem que chamou a bossa nova de "filha bastarda da música americana"

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

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Tinhorão: O crítico como entrevistado, lançando livro
José Ramos Tinhorão dava o que falar nos tempos idos em que a sociedade consumidora de cultura precisava de críticos musicais. Militando desde os anos 1950 em veículos como Diário Carioca, Jornal do Brasil e Veja , ele acumulou má fama por desempenhar o papel de nota dissonante (solitária) no samba de várias notas cantado em coral pelos amantes da bossa nova.

Chamava de gago o violão de João Gilberto. Acusava Tom Jobim de copiar temas folclóricos e canções estrangeiras. Dizia que a bossa era filha bastarda de mãe brasileira (pobre) com pai estadunidense (rico) ignorado. E por aí afora.

De orientação marxista, Tinhorão passou a reprovar cruelmente qualquer manifestação musical que se comunicasse com a cultura pop do “império” e/ou se filiasse ao cada dia mais poderoso mercado de massas. Agressivo em relação à indústria fonográfica, foi sendo igualmente isolado por ela – e pela indústria jornalística.

Nos anos 1980, saiu da imprensa e da crítica diária para entrar nos livros de história. Como historiador da música brasileira, nunca mais parou. Agora mesmo, é autor de dois livros recém-lançados e objeto de uma biografia que procura aliviá-lo da caricatura de crítico ranzinza, sem por isso evitar episódios controversos, curiosos ou divertidos.

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O jornalista na redação, em 1955, fantasiado para um baile de carnaval
Ao Tinhorão crítico fast-food coube o clichê de “polêmico”, sinal de que era odiado, mas era também consumido vorazmente, talvez com secretos apetites. O Tinhorão historiador compenetrado é lido e admirado bem mais discretamente – causa menos discordância e mais menosprezo. De modo algum o silêncio em torno dele significa que, aos 82 anos, ele tenha diminuído ou perdido a verve provocadora. Não. Volta e meia ainda causa confusão – quando causa, não costumam dizer que foi ele o provocador, mas foi ele provocador.

Há seis anos, por exemplo, o desafinado da (não-)crítica musical proferiu a frase bombástica: “A canção acabou”. Houve burburinho, o coral fez muxoxo e gesto de “psiu”. Pouco depois, Chico Buarque, um dos maiores heróis da “moderna” MPB, indicou em público concordar com Tinhorão – mas, é óbvio, sem mencionar seu nome. O coral irrompeu em aplausos e concordou com o ídolo em silêncio ensurdecedor. Abaixo, Tinhorão conta essas histórias e outras mais. E começa ele mesmo falando, antes que a primeira pergunta aconteça (a entrevista está dividida em três partes).

Foi você que me entrevistou uma vez, anos atrás, para a Folha de São Paulo, aquela célebre entrevista em que eu falava da morte da canção, não foi?

Pois é (a entrevista saiu no caderno “Mais!” de 29 de agosto de 2004).
E agora está todo mundo falando disso... Você vê a canção italiana dos anos 1960, acabou tudo, rapaz! A chamada criação não interessa mais, a indústria cultural é feita para vender produtos. Hoje o que vende não é a coisinha do telefone que toca (cantarola "Pour Elise", de Beethoven), o que vende é o telefone. Como vejo a história do ponto de vista do materialismo histórico dialético, vejo como um processo que se desenvolve no tempo, com todas as suas contradições internas. A história está sempre mudando. Na verdade, não é que a canção acabou. Nada acaba inteiramente. A mídia do momento hoje é a internacionalização, a globalização de um ritmo da década de 1950 nos Estados Unidos, que é o rock, com uma vertente mais ou menos autônoma que é o rap. Isso quer dizer que as outras formas desapareceram? Não. Mas elas vivem em nichos. Quando era garoto, ouvi programa de fado no Rio, rapaz! Tinha patrocinador, portugueses donos de padaria. Hoje não se ouve fado nem em Portugal.

Chico Buarque se apropriou dessa ideia sem citar seu nome – ou então foi o jornalista que o entrevistou (Fernando de Barros e Silva) que não citou.
Claro que ele nunca ia dizer “eu li isso na entrevista para fulano de tal, o Tinhorão tem razão”. Nunca que ele vai dizer isso. Tinhorão só é citado apud, sabe o que é apud? É quando você cita um cara que citou alguém. Por que eu só sou citado apud? Para não serem apanhados de saia justa, os caras citam o que eu citei e eles não podem deixar de lembrar. De resto, o que Tinhorão diz não tem importância.

Como você se sente virando objeto de uma biografia ( O Legendário , de Elizabeth Lorenzotti, editado pela Imprensa Oficial de São Paulo)?
Eu me sinto objeto (ri). Você usou a palavra certa. Agora mesmo a menina vai me pegar ( é dia do lançamento ), o que é que eu vou fazer lá? A dona do livro é ela, eu sou o objeto em torno do qual gira a história de que ela é autora. Como ela fez direitinho o que eu falei, tudo bem. Junto com a minha sai a do Paulo Francis, que está morto. Vai falar o quê? Coisas que o Paulo Francis fez na imprensa, como ele era, se era controvertido. É a mesma coisa eu. Como vivi o suficiente para ser objeto de curiosidade de alguém, pronto.

Não se sente exposto? Tem umas fotos de você criança, muito doces, contrastantes com a imagem do crítico...
Pois é, se isso pretendia ser uma biografia, se subentende que vai contar a história do cara desde quando era pequenininho, que foi aluno de colégio de freira, “tem uma foto de quando você era de colégio de freira?”, “tem”, publica. Mas quando o personagem é um cara que escreve livros, ele só tem importância para essas coisas de atender à curiosidade. Não tem interesse nenhum. O Tinhorão está nos livros, não está no Tinhorão. A curiosidade existe pela velha razão que você como jornalista conhece muito bem: “Entrevista aí o Tinhorão, que ele esculhamba todo mundo, e isso ajuda a vender”. Nunca houve um cara que dissesse: “Tinhorão, em tal livro você diz isso assim, assim, isso me parece original’”. Nunca ninguém falou isso, rapaz! 

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