Ultimate Chart mede popularidade de artistas com base na internet

Nova parada musical pretende ser mais confiável do que os rankings tradicionais que checam apenas vendagem de discos

Augusto Gomes, iG São Paulo |

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Cake
Em janeiro deste ano, o topo da parada americana de discos foi ocupado por uma banda que certamente não está entre as mais conhecidas do planeta, o Cake. O grupo americano alcançou o primeiro lugar vendendo apenas 44 mil cópias do disco "Showroom of Compassion", seu sexto álbum. Como o Cake conseguiu ser a banda mais popular dos EUA durante uma semana? A resposta é simples: não conseguiu. Numa época em que as pessoas ouvem músicas das mais variadas maneiras, uma parada baseada apenas na venda de álbuns físicos não representa a realidade.

Para retratar quais músicas (e artistas) o público está consumindo, seja comprando um disco ou vendo um vídeo em seu computador, foi criado o Ultimate Chart . A parada reúne dados das mais variadas fontes para criar uma lista única.

"As paradas tradicionais quase sempre mostram o disco mais recente (aquele lançado naquela semana) no topo. O que isso diz? Só que o disco é novo", afirma Eric Garland, CEO da Big Champagne, empresa responsável pelo Ultimate Chart. "Nós medimos as ações dos consumidores (comprar, tocar, ver etc.), nos baseando no valor gerado por cada transação", explica. Comprar, por exemplo, "pesa" mais do que apenas ouvir em streaming. Com base nestes dados, é criado o ranking.

Nesta semana, o primeiro colocado do Ultimate Chart é o LMFAO, grupo que ficou conhecido pela música "Party Rock Anthem". Em segundo vem a cantora britânica Adele. Na Billboard, os dois também estão no topo: Adele lidera a parada de discos mais vendidos e o LMFAO, a de singles. Mas essa coincidência, segundo Garland, é normal apenas no topo da lista. "Afinal, Lady Gaga é mesmo muito popular, não é mesmo? O que difere é como as paradas são montadas, que tipos de comportamento elas mostram e como isso se reflete à medida que você vai descendo [no ranking]", explica.

Jorge Rosenberg, especial para o iG
Shakira
Um bom exemplo das diferenças é a canção "Waka Waka", de Shakira. "Como ela foi o tema oficial da última Copa do Mundo, continuou popular entre fãs de futebol nos EUA. Apesar de as vendas da música ainda impressionarem, os fãs preferem assistir ao video de graça, que traz cenas da Copa", explica. Ou seja, isso significa que a música continua sendo ouvida, mesmo tendo desaparecido das paradas convencionais. "Essa é uma grande medida de popularidade e é também o tipo de acontecimento que achamos importante descobrir", afirma.

No Ultimate Chart, Shakira aparece no 42º lugar, abaixo de Pink e acima de David Guetta. Na Billboard, ela não está nem entre os cem primeiros, tanto na lista de discos quanto na de singles.

No Brasil, as informações sobre popularidade na música aparecem de forma pulverizada. Quando muito, há a lista de discos mais vendidos da ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Discos) e a relação das músicas mais tocadas reunida pelo ECAD (Escritório Central de Arrecadação). Fenômenos como A Banda Mais Bonita da Cidade , que fez sucesso na internet com o clipe da música "Oração", passam em branco nessas duas listas.

"O jeito é ficar de olho na internet", diz o produtor de shows Marcos Boffa. É o que ele faz, por exemplo, para ter ideia da popularidade dos artistas que pretende trazer ao país. "Vejo blogs, YouTube, Twitter", conta. "É claro que, para nomes maiores, rádio e vendas são um bom indicativo. Mas, no caso de artistas menores, temos que ver o quanto eles aparecem na internet. É um grande cruzamento de informações."

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Eric Garland, da Big Champagne
Leia abaixo a entrevista com Eric Garland, CEO da Big Champagne, empresa responsável pelo Ultimate Chart.

iG: Como o Ultimate Chart funciona?
Eric Garland:
O conceito do Ultimate Chart é bem simples: nós coletamos muito mais informação sobre como as pessoas ouvem música do que as paradas tradicionais.

iG: Quais tipos de dados vocês usam?
Eric Garland:
Todos os tipos! Músicas todas em rádio e televisão, vendas (física e online), serviços de streaming pagos e gratuitos, vídeos online (YouTube, Vevo etc.), redes sociais, apresentações ao vivo, vendas diretas para fãs. É uma lista bastante grande. Temos mais de 100 parceiros que compartilham seus dados com o Ultimate Chart.

iG: E como essa informação é reunida para formar a parada?
Eric Garland:
Nós medimos as ações dos consumidores (comprar, tocar, ver etc.), nos baseando no valor gerado por cada transação. Portanto, comprar um disco "vale" dez vezes mais do que comprar uma música, que por sua vez vale muito mais do que ouvir uma música em streaming. Por fim, nós fazemos relatórios geográficos e demográficos.

iG: Vocês usam dados de troca de arquivos?
Eric Garland:
Nós coletamos muita informação sobre troca de arquivos e downloads não autorizados, mas não incluímos esses dados no Ultimate Chart porque eles não têm um valor de venda, então eles não "pesam" nada. Nós colocamos esses downloads num ranking próprio chamado "TopSwaps".

iG: O Ultimate Chart foi uma demanda da indústria da música?
Eric Garland:
Realmente, não foi ideia nossa. Nossos parceiros e clientes precisavam de algo como o Ultimate Chart porque sim, havia uma opinião geral na indústria da música que as informações não estavam incluídas nas paradas tradicionais, que elas eram "antiquadas". Além disso, os fãs queriam ver algo mais atual, mais relevante.

iG: As paradas tradicionais não representam mais o que acontece na música atualmente?
Eric Garland:
Vendas "convencionais" e listas de mais tocadas em rádios são apenas uma parte do que acontece. O mercado é muito maior e mais variado do que essas paradas sugerem.

iG: Ultimate Chart e uma parada tradicional como a da Billboard têm resultados muito diferentes?
Eric Garland:
Fundamentalmente diferentes. No topo, elas às vezes são parecidas. E deveriam, afinal Lady Gaga é mesmo muito popular, não é mesmo? Se elas fossem muito diferentes nos dez primeiros lugares, seria um sinal que não estamos medindo o mercado corretamente. O que difere é como as paradas são montadas, que tipos de comportamento elas mostram e como isso se reflete à medida que você vai descendo [no ranking].

iG: Poderia dar algum exemplo dessas diferenças?
Eric Garland:
As paradas tradicionais quase sempre mostram o disco mais recente (aquele lançado naquela semana) no topo. O que isso diz? Só que o disco é novo. Se o disco novo é de uma banda menor (por exemplo, Cake), e Lady Gaga sempre será mais popular do que eles, por que o Cake deveria ficar uma semana no topo? Até eles vão concordar que não deveriam estar lá.

iG: Quais artistas são mais populares no Ultimate Chart que nas paradas convencionais?
Eric Garland:
Artistas virais como Rebecca Black e Cee-Lo, por exemplo. Já esses casos de vendas de primeira semana, como o Cake, são menos populares.

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