U2 quer ser relevante com novo álbum

Em entrevista ao New York Times, grupo esmiuça gravações e planos de No Line on the Horizon

Jon Pareles, The New York Times |

No palco do centro de exibições de Earls Court de Londres acontecia o glamoroso ensaio geral para o Brit Awards, premiação anual britânica equivalente ao Grammy. Apesar do U2 não fazer parte da lista dos indicados, a banda faria a abertura do evento do dia 19 de fevereiro: uma apresentação ao vivo de Get On Your Boots, faixa do novo álbum da banda intitulado No Line on the Horizon . O U2 já havia apresentado a mesma canção no início do mês, na cerimônia de entrega do Grammy.

Após o ensaio, os quatro integrantes da banda seguiram para uma área suja de carga e descarga, atrás do auditório, para uma sessão de fotos. Seguindo as orientações do fotógrafo, eles foram caminhando por uma rampa: Bono, que geralmente se diz um ator de método (técnica de atuação que internaliza emoções), quis saber o estilo da caminhada. Uma conversa curta foi o suficiente para decidir. A banda começou então a caminhar com um ar de orgulho e arrogância quando Bono anunciou: Chegou a mais nova gangue da cidade!.

Aquilo não era bem uma piada. Já com uma carreira de quatro décadas, iniciada em 1978, quando ainda eram colegas de colégio em Dublin, os integrantes da banda irlandesa agora são todos quarentões. E o U2 pode muito bem ser a última das megabandas: roqueiros internacionalmente conhecidos, cujos álbuns, desde Boy de 1980 até How to Dismantle an Atomic Bomb , de 2004, já venderam milhões de cópias pelo mundo. Numa época em que as vendas de CDs se encontram em queda livre e o rádio favorece o hip-hop e o teen-pop, os álbuns estão ameaçados pelo modo randômico dos tocadores de MP3 e a velha idéia do rock alcançando o topo das paradas parece cada vez mais como uma miragem. Ainda assim o U2, sem nenhum constrangimento, quer lançar um grande sucesso de vendas.

Como seria ainda possível marcar a consciência pop com uma melodia? Essa é, na verdade, a primeira tarefa de um letrista, disse Bono mais tarde, ao saborear uma cerveja Guinness no restaurante do renomado hotel Claridges.

Um bate-papo com Bono é uma aventura de livre-associação. Entre pensamentos sobre o novo álbum ele elabora divagações fascinantes ¿ colocadas em on e off de maneira casual, porém cuidadosa. Ela fez uma demonstração em plena voz de trechos de ópera italiana e do estilo de Frank Sinatra, chamando a atenção de quem estava por perto. Ele refletiu sobre a arquitetura de catedrais, descreveu encontros com presidenciáveis e planos para suas futuras colunas na página de editoriais do New York Times. Ele falou com carinho sobre seus colegas de banda, como pessoas que ela ainda está tentando compreender, sobre o fato de canções serem explosões do acaso e sobre o que ele espera de uma apresentação: Energia elástica e espasmódica.

Desde seu surgimento, no alvorecer do punk-rock, o U2 sempre fez música em grande escala. Com a ardente voz de tenor irlandês de Bono ¿ acompanhada por acordes ecoantes da guitarra de The Edge, das batidas marciais de Larry Mullen Jr. na bateria e Adam Clayton no baixo ¿ o estilo característico da banda desde o início sempre foi adequado para ressoar em grandes espaços, enquanto Bono cantava sobre desejos sem limites ¿ sejam eles românticos, sociais ou espirituais.

U2 caminha do lado de fora do Earls Court, antes do Brit Awards / New York Times

Uma vez que a banda conquistou o circuito de shows em estádios e grandes palcos nos anos 80, ela nunca mais o deixou. O U2 nunca teve mudanças na formação, rupturas, reconciliações ou qualquer apelo à nostalgia. As pessoas não sabem o que virá a seguir. Nossos fãs não têm certeza. Será que poderíamos envergonhá-los? Talvez. Poderíamos inspirá-los? Talvez. Eles não sabem. Isso é muito importante, porque, quando você se torna um amigo confiável, confortável, não tenho certeza se sobra espaço para o rocknroll, comentou Bono.

Ele acrescentou: É muito difícil ser relevante, por isso há tanta coisa em jogo pra nós nesse álbum. Sei que ele traz a qualidade do trabalho, mas, será que ele será aceito? Realmente não sei dizer. Estou realmente curioso. Talvez ele tenha um começo tumultuado.

Paixão e inquietude ainda movem o U2

O single Get On Your Boots recebeu uma acolhida morna das estações de rádio americanas: seus riffs de guitarra de tom confuso não se adéquam às listas das 40 mais tocadas, repletas de Taylor Swift, Britney Spears e Beyoncé. O U2 também enfrenta a concorrência de bandas mais jovens, inspiradas pela própria banda irlandesa. Outras bandas de rock que tocaram na premiação Brit Awards ¿ como o Coldplay, Kings of Leon e mesmo a banda Take That ¿ não puderam evitar soar como imitações do U2.

Entretanto, mesmo que outras bandas acabem garimpando o catálogo do U2, a banda irlandesa desafia seu passado. Depois de dois álbuns de rock comparativamente dominados pelas guitarras, o décimo segundo álbum de estúdio da banda, o pungente No Line on the Horizon , toma novas tangentes experimentais, mais uma vez redefinindo o U2. Com lançamento marcado para terça-feira, o álbum está repleto de ritmos cruzados, guitarras sobrepostas e correntes eletrônicas subjacentes em canções que a banda escreveu com seus produtores de longa data, Brian Eno e Daniel Lanois. Não é um desafio tão diferente quanto o disco Achtung Baby , de 1991, no qual o U2 se reinventou depois da seriedade dos anos 80, com ironia e batidas eletrônicas. Porém, No Line on the Horizon , resultado de um processo cheio de reviravoltas de dois anos, apresenta a inquietude e a paixão que ainda movem a banda, que deixa de lado as fórmulas.

Em canções sobre o amor verdadeiro, conexões globais, transcendência e tecnologia, a música segue caminhos extremos. Get On Your Boots, com 149 batidas por minuto, é a canção mais rápida que o U2 já fez, enquanto Cedars of Lebanon, que fecha o álbum, é uma meditação sombria sobre guerra, separação e inimizade. O álbum também traz faixas para serem entoadas em grandes estádios, como Magnificent, Unknown Caller e Ill Go Crazy If I Dont Go Crazy Tonight, mas também inclui os padrões ricocheteantes de Fez - Being Born e da majestosa White as Snow, cuja melodia tem como base o hino adventista Veni, Veni Emmanuel (Clayton afirmou que White as Snow foi criada como os últimos pensamentos de um afegão morto por um dispositivo explosivo improvisado: seus quatro minutos são o tempo que uma vítima de explosão leva para morrer).  

Segundo Bono, Get On Your Boots é quase uma coletânea jornalística de imagens que retratam sua família em um parque de diversões no sul da França às vésperas da guerra no Iraque, com aviões de guerra sobrevoando suas cabeças. Um verso da música proclama: Não quero falar sobre guerras entre nações/ Não agora.

Aquela frase, juntamente com alguns trechos de White as Snow e Cedars of Lebanon, demonstram o que Bono descreveu como visão periférica: um reconhecimento do mundo turbulento que vai além dos pensamentos subjetivos presentes na letra. É como um elefante na sala, que praticamente atrai toda a atenção, disse ele. Ele nunca consegue desviar nosso foco do pessoal ou dos dramas psicológicos que estão acontecendo, mas está lá.

Fama nada mais é que do que a preocupação consigo mesmo, diz Bono / NYT

Bono afirmou que um tema que persiste nas canções é a habilidade de se render, de se dar, seja através da divagação ou da celebração. E a jornada do artista é certamente a jornada para além da preocupação consigo mesmo. Ele fez uma pausa, deu um sorriso constrangido e continuou: A fama nada mais é que do que a preocupação consigo mesmo.

Rock e política em dois anos de trabalho

Bono alavancou sua fama no meio político. Por um lado entusiasta da política, por outro showman e carismático, ele trabalha em prol de causas como o fim da miséria na África. Apesar de já ter recebido o apelido pejorativo de Santo Bono, ele também se esforça para não ser tão obcecado. The Edge está sempre cochichando em meu ouvido: Você é um artista. É assim que você lida com as coisas. Se você começar a se comportar de uma maneira correta e séria demais, fazendo um trabalho sério, será horrível.

Bono completou: Como artista, sinto que meu trabalho é tentar entender as forças que estão moldando o mundo, que é ocupado por nossas canções. E, talvez, se tiver uma oportunidade, tentar moldá-lo também. É isso que a banda não entendia. Eles achavam que a publicidade natural que iríamos receber por ousar querer tocar com os caras grandes, filosoficamente e de outras maneiras, iria afugentar nosso público. Mas, na verdade, nosso público se sente muito mais forte.

The Edge sugeriu que ser roqueiro é como tirar férias dos esforços políticos de Bono. Acho que é isso que ele almeja. Não existe fim para a outra coisa. A luta é permanente. Com o U2 é mais ou menos assim: tem coisas que podem ser ditas; bem, fizemos isso. Lançamos um CD. Fizemos um show.

Fazer o novo disco foi um trabalho "árduo", disse Mullen. "Tem que haver uma maneira mais simples", continuou, "mas nós não entendemos o que é simples ou fácil".

Primeiro, o U2 decidiu gravar com Rick Rubin, que produziu Dixie Chicks, Johnny Cash e Metallica. Rubin é reconhecido por fazer com que as bandas voltem ao básico, e em vez de supervisionar as habituais sessões livres do U2 em estúdio, ele pediu para a banda levar músicas acabadas para gravar. Duas músicas feitas com Rubin estão em U218 Singles , uma antologia de 2006.

Mas o grupo engavetou o resto das sessões com Rubin e começou de novo com uma estratégia contrária. Bono havia sido convidado para um Festival de Música Sacra ecumênica anual em Fez, Marrocos. Ele convidou os outros membros da banda para acompanhá-lo e talvez gravar alguma coisa durante a estadia de duas semanas. Para sua surpresa, todos concordaram, assim como Eno e Lanois.

Eles alugaram uma casa e montaram o equipamento no jardim, a céu aberto, e começaram a tocar sem prazo nem objetivo. "Isso estava bem longe da volta ao básico", disse Edge. "Foi como explorar as fronteiras." Apesar de sugestões de ritmos de transe e vocais árabes aparecerem ocasionalmente, o U2 evitou o que os integrantes da banda chamam de "turismo musical".

A banda mergulhou nas gravações. Os fundamentos instrumentais de três músicas ¿ No Line on the Horizon, Moment of Surrender e Unknown Caller ¿ emergiram praticamente completos em poucas horas. Ainda assim, depois dessas duas semanas prolíficas, a gravação se estendeu por dois anos: em Dublin, no sul da França e em Londres. Steve Lillywhite, que produziu os primeiros álbuns do U2, e will.i.am, do Black Eyed Peas, ajudaram a formatar e terminar as músicas.

Mira em um público mais jovem

O prazo que teria permitido ao U2 lançar o disco antes da lucrativa temporada de Natal chegou e passou, mas a banda não estava satisfeita com a música até novembro. O U2 espera lançar outro disco em seguida, que, segundo os integrantes, terá um tom mais meditativo e religioso, antes do final do ano.

Construir a música foi um processo decididamente intuitivo: uma colagem de impulsos momentâneos e faíscas colaborativas. As letras de Bono irrompem em declarações de amor, esboços de personagens e auto-reprovação irônica: "Cuidado com homens pequenos de grandes idéias".

Capa do single de "Get On Your Boots", cartão de visitas do novo álbum / Divulgação

The Edge, depois de fazer um documentário sobre guitarra com Jimmy Page do Led Zeppelin e Jack White do White Stripes, chamado It Might Get Loud, decidiu tentar escrever o tipo de riffs de guitarra exagerados que há tempos vinha evitando. Eno trouxe repetições e texturas que se tornaram sementes de músicas e induziram a banda às harmonias vocais. Em todo o disco, os pontos fortes do U2 ¿ melodias que lembram hinos, superestruturas de guitarra ¿ são preservados e revitalizados, usados de novas formas à medida que as músicas alcançam a dualidade que define o U2: uma intimidade que tenta abarcar o universo.

Com o lançamento do disco, a intuição deu lugar ao cálculo. No Line on the Horizon começa sua turnê mundial em julho. O U2 pretende se apresentar com o palco no meio dos estádios, oferecendo lugares mais baratos para os fãs atrás e bem na frente do palco, esperando atrair um público novo, mais jovem.

Como o U2 não pode mais depender da exposição no rádio e na MTV, agendou grandes momentos na televisão. Três dias depois do "grammy britânico", a banda terminou um show no Echo Awards na Alemanha. Esta semana, deve aparecer no "Late Show With David Letterman". Essas são prerrogativas de uma banda com prestígio, mas também são sinais de que o U2 não está tomando nada como garantido.

O grupo representa uma última esperança para o setor cada vez mais desesperado das gravadoras: uma perspectiva de lucro. No ano passado o U2 assinou um contrato de 12 anos com a promotora de shows Live Nation, que tem os direitos mundiais da turnê da banda, de merchandising e branding. Diferente de Madonna e Jay-Z, cujos acordos com a Live Nation incluem novas gravações, o U2 manteve seus contratos de gravação e distribuição com a Universal Music, que absorveu os antigos selos do U2, Island e Interscope. O agente da banda, Paul McGuinness, disse por e-mail que o U2 está comprometido com a Universal "por mais vários discos", recusando-se a especificar o número.

"Minha intuição diz para ficar com as gravadoras. Eles têm que vender os seus discos ou vender os downloads, qualquer que seja o formato. Para isso, antes de mais nada, eles precisam amar e entender a música, e nesse momento não vejo nenhum outro grupo que possa competir com as gravadoras nessa frente", explicou The Edge.

Bono falou de forma mais vaga. "Estou interessado nas vendas. A desculpa para a grandeza é que as músicas pedem para ser ouvidas quando são boas. E sem o clima uma grande banda de rock, você não consegue que suas músicas sejam ouvidas".

Quando o ensaio do Brit Awards começou, o U2 usou sua passagem de som para tocar Whole Lotta Love do Led Zeppelin, com todo o barulho de uma clássica banda cover. "Casamentos, funerais, bar mitzvahs", anunciou Bono depois. "Estamos disponíveis para trabalhar. U2."

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