Tiê aparece mais "encorpada" em seu segundo disco

Cantora paulista lança "O Coração e a Coruja"; leia crítica

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Divulgação
Tiê
A paulistana Tiê começa a cantar o disco "O Coração e a Coruja" em voz duplicada, como se existissem duas Tiês. "Na Varanda de Liz" faz referência à sua filha de 1 ano e inicia o segundo álbum em tempo de aconchego. A suavidade persiste, mas a sonoridade não repete a do independente "Sweet Jardim", de 2009. A primeira impressão em relação à tímida e introvertida estreia, é a de que Tiê encorpou.

A impressão se confirma a cada nova audição, e não é por menos. Entre os primeiros piados e os de agora, há uma gravadora multinacional (Warner) e a produção tarimbada de Plínio Profeta. O bicho-de-sete-cabeças do "mercado" às vezes faz bem aos indies, nestes tempos pós-derrocada da indústria, e esse parece ser o caso.

O que há aqui, acima de tudo, é uma adaptação geral de tom. Tiê veio com a onda folk subtropical que nasceu em Los Hermanos e virou efeito-manada após Mallu Magalhães. Paga o preço de pertencer à cena paulistana, onde nove em cada dez novos movimentos se sustentam em plataformas do "não" e do culto ao deprê à la rio Tietê. "Só eu sei/ o que é melhor pra mim/ às vezes é mais saudável chegar ao sim", ela afirma, noutra direção, em "Piscar o Olho", uma simpática e sorridente canção sobre... o final de um romance.

Inspirado nos pantanais norte-americanos, mas engrossado por caipirices de São Paulo e do Mato Grosso, o folk subtropical não abandonou de repente a música de Tiê. O que há é uma ampliação de horizonte, e o sol ameaça brilhar lá no final. Plínio Profeta toca banjo, cellos são acrescentados aqui e ali, Marcelo Jeneci traz sua sanfona cabocla (em "Só Sei Dançar com Você", de Tulipa Ruiz), Tulipa e Thiago Pethit fazem coro em pique de "Hits do Underground" (como diriam Miranda Kassin e André Frateschi). Sim, a música de Tiê está encorpada.

O texto do release do disco chama de "exótica" (por quê?) a releitura passarinha de "Você Não Vale Nada", do forrozeiro Dorgival Dantas, um sucesso pós-industrial maciço (e "brega", segundo o release) na interpretação grupo Calcinha Preta. Não há como não soarem deliciosos os versos "você não vale nada, mas eu gosto de você", mas Tiê segue a estratégia desgastada de fazer apropriação supostamente cool daquilo que não é nem quer ser cool. O violão flamenco, aciganado, é uma graça, mas não haverá quem consiga desabrasileirar Dorgival, nem Tiê - ainda bem.

Noves fora, o barquinho navega bem em "A Coruja e o Coração", mais para Tiê que para Tietê. Fortalecida e nutrida pela ponte indie-indústria, ela deixa acontecer o que talvez (tomara) aconteça com Mallu Magalhães quando ela adultescer. O temor de parecer o que é - caipira - e o esconderijo por trás da caipirice "chique" das terras de Bob Dylan é compartilhado por Tiê com Jeneci, Tulipa, Hélio Flanders e seu Vanguart, Céu, Thiago Pethit, Pedro Granato etc. etc. etc. Mas há de se dissipar, já está se dissipando.

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