Thais Gulin: "Adoro cantar em inferninhos"

Cantora e compositora fala ao iG sobre seu elogiado CD e conta que na infância “via um corredor de luz” saindo de sua cabeça

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Léo Ramos
Thais Gulin, 31 anos

Trinta e cinco minutos após a hora marcada, uma moça ruiva se dirige à última mesa do café Severino, na livraria Argumento, no Leblon, zona sul do Rio. Pede para trocar de lugar, ao ar livre, com menos barulho em volta. “Tem problema se eu falar baixinho? Quero poupar a voz. Fiquei ensaiando sem parar”, pede. Thais Gulin vinha de cinco horas ininterruptas de ensaios de estúdio e, logo após aquela entrevista, embarcaria para São Paulo, onde tem show no dia 18, no Tom Jazz.

Não havia problema em falar baixinho... mas havia mais pedidos. Não quer falar de sua relação com Francisco , como ela chama Chico Buarque. Não é só. Thais pede mais. Agora à garçonete. “Traz uma água sem gás e um ice tea de pêssego sem gelo. Como não almocei, me traz também um suco de laranja natural. Não vou comer nada, só vou beber hoje”, diz.

Bacharelada em Música Brasileira na Uni-Rio, natural de Curitiba, 31 anos, a moça bonita que fala pontualmente, gesticulando, fazendo longas pausas antes de responder, é concentrada. E às vezes tem um jeitão meio odara de ser: “Acredito em imensidão. Quando era criança, via um corredor de luz para cima de mim, da onde eu podia ver o mundo, da altura um pouco acima de onde passam os aviões.”

Thais fez várias peças até enveredar de vez para outros palcos. “ôÔÔôôÔôÔ" é seu segundo disco, um dos mais elogiados de 2011, e título de sua música de trabalho. No Paraná torce pelo Coritiba, no Rio é Fluminense, mesmo time de seu namorado. Mas diz que gosta mais de jogar do que ver futebol. Antes de subir ao palco, como preparação para a voz, toma um copo de uísque. Viu recentemente “Meia-noite em Paris ” e leu “O Último suspiro do mouro”. Na TV, acompanha a série americana “ Two and a half men ”. “Fiquei ouvindo domingo inteiro a caixa de Cds do Dorival Caymmi”, conta.

A seguir, o papo com Thais Gulin. Não sem antes mais um pedido seu: “Põe aí que sou mangueirense”.

Léo Ramos
Sobre o CD: "Foi agressivo estar em contato com uma Thais que nem eu conhecia. É uma Thais sem filtros, mais fluente"

Turnês em inferninhos
“Amei fazer show no Wonka Bar, em Curitiba, é bem underground. Lugar de poetas, rock alternativo, jazz... Adoro um inferninho. Não são lugares fora da moda nem têm cara de moda. É tipo um porão. Lugares meio escondidos, parecem clubes de interior da Europa, de clima esfumaçado, meio obscuro. Adoro fazer show nesses lugares. O público fica mais próximo, é uma coisa mais vulgar. Uma galera lá, conversando informalmente, tipo cabaré mesmo. Meu sonho é fazer turnê em porões de cidades do interior, só em inferninhos. Todo mundo ali suando junto.”

Momento sambista
“Estava tão quieta, que fiquei incomodada. Uma galera ia sair na Mangueira, no carnaval do ano passado, eu nunca tinha desfilado, daí falei que queria ir junto. Sobrou uma fantasia e fui. A fantasia era de Tropicália. Os amigos me ligaram dizendo que sou distraída, que não ia aprender o samba e que por causa disso a escola ia perder pontos. Mas eu decorei em 20 minutos!”

ôÔÔôôÔôÔ
“Chamei o táxi para ir para a Sapucaí. Enquanto esperava o carro chegar, sentei na cama do meu quarto, peguei o violão e a música veio de uma vez só, de uma forma incrível. Dei um acorde qualquer e comecei a cantarolar: ‘Eu vou... cair nesta avenida... eu vou’. Liguei para umas três pessoas, para minha mãe, cantei no telefone, fiquei super excitada... Fui para a Sapucaí feliz, com a certeza de que tinha deixado uma música em casa. Eu chamo esta música de anti-samba. É um samba, mas tem uma segunda parte com forte batida de rock.”

Uma música 80 vezes
“Tem cinco músicas minhas no CD, além de ‘Água’, do Kassim, ‘Cinema Americano’, do Rodrigo Bittencourt , entre outras... Esta do Rodrigo, aliás, quando ouvi pela primeira vez, achei incrível. Fiz ele segurar esta música por três anos para mim. Ouvi oitenta vezes a canção no Myspace numa só noite. Sou muito perfeccionista, exigente mesmo.”

Carnaval com regras
“Tem que cantar o samba, tem que ficar dentro da linha. Carnaval é igual teatro. Tem que ter regras e ao mesmo tempo fazer tudo de forma espontânea. Não pode ficar falso, nem precisa ser militar. Sou a favor de todas estas regras que muita gente critica. Me tornei mangueirense por acaso, ouço Cartola em casa desde pequena. Torço pela Unidos da Tijuca, apesar de ser Mangueira. O que surgiu de interessante nos últimos anos foi Paulo Barros. Ele é o tropicalista do carnaval, é demais.”

Letra do Francisco
Francisco falou : ‘vou fazer uma música para o seu disco’. Respondi: ‘Nossa, obrigada’. Aí entrou. Foi assim, bem natural. E é uma música (‘Se eu soubesse’) que tem tudo a ver com o espírito do disco. Ele já tinha ouvido ‘Horas Cariocas’, que é a letra que vem antes do ‘Se eu soubesse’, e é incrível como elas se comunicam apesar das linguagens completamente diferentes. Se eu escrevesse como o Francisco, iria querer fazer a letra, lógico!”

Relação com as redes sociais
“Tenho facebook, twitter... Entro de vez em quando. Mas jamais respondo a críticas. Imagina! Não vale a pena. Uma pessoa que se dá ao trabalho de falar algo ruim sobre mim? É alguém que não tem muito o que fazer na vida. Não sou eu que vou gastar meus cinco minutos respondendo isso. Vou beber um café ou ler a página de um livro.”

Relação com Francisco
“Não vou falar sobre isso. Mesmo, nada. Não quero. Quero falar sobre o trabalho. Não é o momento de falar de nada mais. Quero falar sobre o meu disco. Senão vira um outro foco. É muito triste. Sei que fiz um disco bom, quero focar apenas nisso.”

Corredor de luz
“Acredito em imensidão. Adoro religiões, quase fiz teologia na faculdade. Acho lindo o candomblé, fui a várias festas. Fui batizada na religião católica, apesar de acreditar zero nestas histórias todas que contam. Também estudei cabala há dois anos... Quando era criança, via um corredor de luz para cima de mim, da onde eu podia ver o mundo, da altura um pouco acima de onde passam os aviões. É como uma película que envolve o mundo inteiro, repleta de energia circulante, começando ou terminando por mim. É minha vontade de ficar na energia do mundo.”

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