Tesouros da música brasileira estão escondidos do público

Primeiro disco de Rita Lee após saída dos Mutantes e gravações ao vivo dos Novos Baianos permanecem conhecidos apenas por poucos

Augusto Gomes, iG São Paulo |

AE
Charles Gavin
Em 1966, Marcos Valle estava se preparando para lançar seu terceiro disco. Na época, o músico carioca era um dos nomes mais quentes da bossa nova - no ano anterior, havia lançado duas canções que se tornariam clássicos da música brasileira, "Eu Preciso Aprender a Ser Só" e "Samba de Verão". As gravações do sucessor de "O Cantor e Compositor Marcos Valle", no entanto, foram interrompidas por causa de um outro projeto: "Braziliance", o primeiro álbum internacional do músico, que sairia em 1967.

Com o tempo, as gravações de 1966 foram esquecidas - quatro delas foram lançadas em um compacto duplo, mas o restante permaneceu inédito. Mais de 40 anos depois, quando o próprio Marcos Valle não se lembrava mais delas, essas canções foram recuperadas. Estão no disco "The Lost Sessions", incluído na caixa que ainda traz os dez discos que o músico gravou entre 1963 e 1974. O responsável pela descoberta foi Charles Gavin, ex-baterista dos Titãs e produtor da caixa.

"Encontrei esse material da maneira mais corriqueira possível", revela Gavin. "Eu pedi para a gravadora todo o material que eles tinham em fita. Eles me mandaram os discos e também algumas coletâneas. No meio disso tudo havia uma fita muito mal anotada, batida a máquina", explica. "Quando ouvi me espantei, porque o material era inédito. Aí levei para o Marcos escutar. Passamos uma madrugada ouvindo, mas ele não lembrava o que era aquilo. Depois que bebemos uma garrafa de vinho, a ficha caiu".

O disco de Marcos Valle está entre os que foram achados e, felizmente, resgatados. Mas há diversos casos na música brasileira de tesouros que permanecem escondidos.

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O pesquisador Marcelo Fróes relembra um disco que Rita Lee gravou em 1973, logo após sair dos Mutantes. "Esse disco ia sair em 2000, com faixas bônus ao vivo. Cheguei a masterizá-lo e a acompanhar a feitura da capa, com foto sugerida pela própria Rita", diz. "Mas, em algum momento da negociação com os músicos, a coisa empacou. Por fim, a Rita saiu da Universal e isso só colaborou para que o disco voltasse ao limbo."

Segundo Fróes, "esse disco já rolava entre os fãs por conta de uma velha fita cassete que alguém da banda tinha. Mas o master (gravação original) nunca vazou". "De bônus eu havia colocado as poucas faixas da apresentação interrompida das Cilibrinas do Éden ( dupla formada por Rita Lee e Lucia Turnbull ) no Phono 73 ( lendário show realizado em 1973 no Anhembi, em São Paulo ), mixadas especialmente para o lançamento. Isso ninguém nunca ouviu", completa.

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Charles Gavin lembra de outra preciosidade guardada no baú da Warner: gravações ao vivo dos Novos Baianos da época de disco "Novos Baianos Futebol Clube", de 1973. "Encontrei esse material há uns dez anos. Eram várias fitas dos Novos Baianos ao vivo, que pertenciam ao arquivo da Continental e hoje estão com a Warner", afirma. Para deixar os fãs com ainda mais água na boca, ele revela: "Como elas foram gravadas pelo (produtor e técnico de som) Pena Schmidt, o som deve estar muito bom".

Rita Lee e Novos Baianos são apenas dois exemplos. Quando perguntado se conhece alguma outra preciosidade da música brasileira ainda inédita, Fróes responde: "sim, com todas as letras". Só não diz o que é. "Não vou entregar o ouro (risos)".

Reprodução
Capa do primeiro disco de Roberto Carlos, de 1961
Do vinil para o CD

Se há muito material inédito guardado no baú das gravadoras, os exemplos de discos lançados em vinil e até hoje indisponíveis em CD são infindáveis. Incluem desde o primeiro álbum de Roberto Carlos, "Louco por Você", renegado pelo cantor e, por isso, um dos álbuns mais raros do mercado brasileiro, até os primeiros trabalhos de João Gilberto - alvo de uma disputa jurídica entre o músico e a gravadora EMI.

Além, é claro, dos discos esquecidos por falta de interesse dos selos. "Há muita coisa que não foi lançada e não será lançada nunca. E não é um fenômeno somente brasileiro", diz um resignado Charles Gavin.

No que depender do Discobertas, selo dirigido por Marcelo Froes, esse cenário vai mudar, ainda que aos poucos. Ele acaba de lançar uma caixa com os primeiros discos do Zimbo Trio e, recentemente, colocou nas lojas compilações de raridades de Milton Nascimento, Joyce e Fafá de Belém. "Existe um público fiel, que inclusive está aumentando. Praticamente todos os produtos de catálogo hoje em dia saem com tiragem inicial de mil cópias, seja por um selo ou seja por uma multinacional", diz. Seu próximo projeto é uma caixa com discos de Cauby Peixoto, a sair no início do ano que vem.

Direto do baú

AE
Gilberto Gil em 1973
Achados como os do disco perdido de Marcos Valle têm precedentes no Brasil. O próprio Charles Gavin fez outra descoberta do mesmo porte em 2002, quando produziu uma caixa de Caetano Veloso: uma gravação de um show completo de 1978 do cantor com a Banda Black Rio. "As condições foram semelhantes às do Marcos Valle. A fita estava guardada no acervo do Warner, sem maiores informações. Estava escrito 'Caetano e Black Rio' e mais nada", lembra. "Depois de pesquisar, descobrimos que foi um show que eles fizeram no Teatro Carlos Gomes, no Rio."

"Se você fizer um trabalho de pesquisa sério, encontrará muita coisa boa nos arquivos das gravadoras", afirma Gavin. Mas é um material difícil até de ser ouvido, já que há poucos estúdios com equipamento para tocar as fitas antigas.

Marcelo Fróes, por exemplo, chegou a montar um estúdio em casa nos anos 1990 quando produzia a caixa "Ensaio Geral", de Gilberto Gil. "Tive de fazer isso para ouvir e mixar as fitas antigas, que não conseguia rodar em nenhum estúdio moderno já naquela época."

"Ensaio Geral" trazia uma série de sobras de estúdio e gravações ao vivo de Gil completamente inéditas. "Foi o primeiro box que eu produzi, levou três anos pra ficar pronto", lembra. O currículo de Fróes ainda inclui "Tecnicolor", disco em inglês que os Mutantes gravaram em 1970 e nunca lançaram, e "O Trovador Solitário", coletânea de gravações caseiras de Renato Russo.

"Os arquivos das gravadoras são razoavelmente organizados para masters de produtos lançados. Já as fitas contendo o material bruto normalmente nem estão catalogadas", explica Fróes. "Eu ouvi muita coisa que sei que talvez ninguém nunca mais ouça, até porque desde que comecei a fazer isso os arquivos foram todos terceirizados para empresas de arquivamento e saíram de dentro das gravadoras. Não estão mais acessíveis como eram."

Reprodução
Capa da coletânea "O Canto Livre de Leci Brandão"
A terceirização dos arquivos já fez com que alguns discos se perdessem no meio do caminho. "Quando estava coordenando um projeto do Baden Powell para a Warner, pedi todas as fitas de todas as gravações que ele fez para gravadora", recorda Charles Gavin. "Só que o caminhão que estava trazendo esse material foi assaltado na Dutra. Todos os discos que o Baden fez para a Warner se perderam."

"O problema é que as gravadoras eram grandes conglomerados e hoje são umas salinhas", afirma Rodrigo Faour, outro pesquisador com uma série de achados no currículo - os mais recentes, gravações inéditas de Leci Brandão reunidas na coletânea "O Canto Livre de Leci Brandão". "Na Universal, que é a gravadora com o arquivo mais organizado, ainda dá para procurar. Mesmo assim, se eu acho alguma coisa, é sorte."

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