Tensamba registra atual momento da música brasileira no exterior

Festival na Espanha recebe artistas do País e abriga debates sobre mercado

Pedro Alexandre Sanches, enviado especial a Madri |

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Flavio Renegado durante show no Tensamba, em Madri
É corrente há décadas a máxima de que a música popular brasileira é “tipo exportação”. O tema já estava em pauta em 1940, quando Carmen Miranda lançou o samba “Disseram Que Voltei Americanizada”, tentando reagir com bom humor à ciumeira brasileira diante de sua primeira ida a Hollywood. Atualmente, o clichê da “música tipo exportação” se encontra, se complementa e às vezes se choca com o chavão “o Brasil está na moda”, com efeitos ainda difíceis de medir.

O Brasil “está na moda”, por exemplo, na Espanha, onde ao longo deste mês se desenvolve a oitava edição do festival Tensamba. Sob título que acrescenta algum grau de tensão à interpretação do samba como gênero brasileiro por excelência, o festival se move na devoção à música brasileira, num arco que parte do samba, mas chega a locais de brasilidade bem menos explícita, como o hip hop. O rapper mineiro Renegado foi quem encerrou, sob ondas de entusiasmo moderado da plateia, a programação “Tensamba na Rua”, no centro de Madri, no último dia 7. Os shows de rua foram a principal novidade desta edição do festival, que antes acontecia majoritariamente em teatros fechados.

O Tensamba surgiu por iniciativa de dois espanhóis, Tomas Lopez Perea e Antonio Paiz, em Santa Cruz de Tenerife, capital das Ilhas Canárias, um arquipélago espanhol localizado a cerca de 1.000 quilômetros da costa espanhola e 1.800 quilômetros de Madri. A mãe e um tio de Tomas eram apaixonados pela música do Brasil. Hoje com 37 anos, ele herdou a paixão familiar e a transformou em festival de música brasileira e em atividade profissional, apesar de ser casado com uma japonesa, ser amante de jazz e ter se formado em música com especialização em música antiga e barroca. “Na primeira vez que fui para o Brasil, fui cair diretamente na casa do Milton Nascimento”, ele conta, citando um de seus principais influenciadores, ao lado de medalhões da bossa nova e do violonista Toquinho.

“O Tensamba tem sido, neste país, o maior link entre a cultura brasilera e a Espanha, um canal direto de difusão”, Tomas explica a iniciativa aparentemente quixotesca. “A intenção do festival sempre foi trabalhar com cultura de qualidade, mostrar o Brasil mais sofisticado num sentido cultural.” Em edições anteriores, foram escalados nomes como Gal Costa, João Donato, Carlos Lyra, Joyce, Bebel Gilberto, Ed Motta, Adriana Calcanhotto, Seu Jorge, Maria Rita e Yamandu Costa. Em 2011, em formato mais “indie”, contou com Fabiana Cozza representando o samba como nós o conhecemos e artistas de fora da indústria cultural tradicional, vindos de Sergipe, Bahia e Minas Gerais, além dos DJs Alfredo Belo (o DJ Tudo) e Toca Ogan.

Apesar da programação ancorada em artistas “novos”, a impressão de não-renovação é persistente, seja nas manifestações da plateia do debate, seja no discurso dos espanhóis que criaram o Tensamba. Nomes de referência da MPB são os recorrentes, na maioria das bocas: Caetano Veloso, Tom Jobim, Djvan, Milton Nascimento, Joyce, Vinicius de Moraes, Toquinho.

nullNão muito distante do palco armado na rua Fuencarral, no centro de Madri, a megastore Fnac oferece argumentos para legitimar uma impressão de que a música brasileira pouco se renova fora do Brasil. Em meio a agressivas liquidações no que restou do hipermercado de música gravada, uma baia dedicada à música brasileira ajuda a decifrar quem nós somos (ou éramos, nos tempos de hegemonia das grandes gravadoras) aos ouvidos dos espanhóis. Os títulos, quase sempre fabricados fora do Brasil, variam entre Marisa Monte, Maria Bethânia, Chico Buarque, Tom Zé, Simone, Baden Powell, Astrud Gilberto, João Bosco, Marcos Valle, Martinho da Vila, Nelson Ned… De artistas mais contemporâneos, há Casuarina, Clara Moreno, Vanessa da Mata, Beto Villares e pouco mais.

O caráter de fim de feira, mais mundial que espanhol, é dado por edições como o “Pack Regalo”, que oferece num só pacote, por 28 euros, quatro CDs de quatro artistas distintos: Chico Buarque, Maria Bethânia (cantando Vinicius), Toquinho com MPB 4, Gilberto Gil. Por 10 euros, o álbum duplo “Beginners Guide to Samba” sintetiza uma aproximação do que seja o “samba” segundo ouvidos europeus, com faixas de Nelson Sargento, Exporta Samba, Teresa Cristina, Arthur de Faria, Clube do Balanço, Bossacucanova, Cabruera, Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta, Cibelle, Kiko Dinucci, Samba de Rainha, Marcelo D2.

Não passaria no teste de alguma comissão purista em defesa do samba, mas não se pode negar que seja uma compreensão moderna do gênero brasileiro por excelência.

Thiago Cury, músico e produtor que foi diretor do Centro de Música da Funarte na gestão passada do Ministério da Cultura, arrisca opinar sobre o que falta para que pontes de comunicação se (re)estabeleçam: “Faz-se necessária a criação de um programa de internacionalização da música brasileira, com a integração dos âmbitos federais, estaduais e municipais, desenvolvido junto à sociedade civil e pensado a médio e longo prazo, passando pela Copa do Mundo, as Olimpíadas e outros eventos internacionais de porte”. Ele conclui: “Talvez o principal obstáculo seja ainda uma certa imaturidade do Brasil no desenvolvimento de políticas de exportação de cultura”.

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Fabiana Cozza em show no Tensamba, em Madri
Se no lado brasileiro há imaturidade, no europeu há o fantasma da crise econômica, que os organizadores do Tensamba demonstram conhecer de perto. “Como produto, estou convencido de que o festival poderia ser mais rentável do que é”, afirma Pedro Autuori, 37 anos, que desde 2006 completa o trio formulador do Tensamba e acabou por se radicar nas Ilhas Canárias.

“A crise economica europeia dos ultimos anos castigou bastante o setor cultural, e nós sofremos com isso. Mas por outro lado o Brasil está em um bom momento e pouco a pouco estamos conseguindo ajudas do país para o festival.” Em 2011, o Tensamba se ancorou nos apoios institucionais da Telefônica, espanhola, e da Tam, brasileira.

“Neste ano, por falta de grana, a gente não conseguiu nomes famosos, mas o nível musical das bandas foi muito mais que razoável”, Tomas abre o jogo. “Agora o festival não está sendo economicamente sustentável nem rentável, e a cada vez nosso investimento privado está sendo maior. Agora não e rentável, e seria uma pena muito grande não poder ter mais condições de sustentar o festival”, queixa-se.

Nos dois últimos anos, parte da programação do Tensamba foi garantida com o auxílio das secretarias de cultura dos estados citados por Tomas, que enviaram delegações locais para o festival. Foi o que permitiu, em 2011, a presença dos sergipanos “underground” Café Pequeno, Patrícia Polayne e Cobra Verde. Foi o que permitiu que esse último grupo esbanjasse sotaque nordestino e ensinasse, não sem algum grau de choque cultural, ritmos agrestes nordestinos como xote e xaxado ao público heterogêneo, flutuante e misturado que prestigiou o palco armado na rua madrilenha.

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