Templo punk CBGB enfrenta disputa familiar

Ex-esposa de Hilly Kristal reclama parte da herança da casa nova-iorquina

Redação iG Música |

Na festa de abertura do Hall da Fama do Rock and Roll do Fame Annex NYC terça à noite, os fãs e celebridades passaram um tempo juntos enquanto aproveitavam os artefatos da CBGB, uma das casas noturnas marcantes de Bowery que fechou em 2006.

Estudando o toldo velho do clube, a caixa registradora e a cabine telefônica coberta por fliers, Steven Van Zandt da E Street Band e Handsome Dick Manitoba dos Dictators, banda que era um dos destaques do CBGB nos anos 1970, balançou a cabeça em aprovação. Tudo bem, podemos ir agora, disse Manitoba.

Mas enquanto o CGGB está ganhando as honras ao lado do piano de John Lennon e a guitarra de Jimi Hendrix, sua propriedade e legado estão sendo disputados em um processo que coloca em discórdia a família do proprietário, Hilly Kristal, que morreu no ano passado. Como a batalha do imóvel Brooke Astor ¿ menos 100 milhões de dólares ou algo assim, mas ainda valendo muito, graças à popularidade de camisetas do CBGB ¿ o caso está recheado de acusações de fraude e enganos, o que adiciona uma amarga coda à história de uma amada instituição de Nova York.

No processo, que teve início no ano passado na corte de Surrogate em Manhattan e modificado numa audiência na semana passada, a ex-mulher de 83 anos de Kristal, Karen, diz que ela é a dona por direito do negócio, e que Kristal e a filha, Lisa Kristal Burgman, 53 ¿ que herdou a maior parte dos mais de 3 milhões de dólares do pai¿ sistematicamente a enganou ao esconder dinheiro da venda de merchandise.

A velha Kristal não recebeu nada no testamento, e o filho do casal, Dana, 49, que se alia à mãe contra a irmã, vai receber um máximo de 100 mil dólares, dependendo dos impostos e outras despesas do imóvel, disse o advogado dele.

O começo

No centro do caso está um acordo que os Kristals fizeram antes de abrir o CBGB em 1973. Apesar de já terem se divorciado, Karen Kristal se tornou a única dona da empresa que operou o clube porque Hilly Kristal havia decretado falência em um negócio anterior. Ela teve vários empregos lá, e diz que desenhou e pintou o logo.

Eu comecei o CBGB, disse Karen Kristal numa entrevista no escritório de sua advogada em Manhattan. Juntei o dinheiro, gastei meu tempo lá. E agora minha filha diz que eles fizeram tudo. E isso é uma mentira.

Apesar de Hilly Kristal ter sido a figura pública do clube e essencialmente gerenciar o negócio, Karen Kristal esteve sempre presente ali por décadas. Ela trabalhou como barman, fez a limpeza, conferiu identidades na porta e frequentemente foi uma disciplinadora, recebendo um salário semanal de 100 dólares.

Todos tínhamos medo dela, disse Danny Fields, um ex-empresário dos Ramones. Ela era como uma bruxa. Estava sempre carregando uma vassoura.

Karen Kristal, de 83 anos, luta na justiça por resto do templo punk CBGB / Foto: NYT 

Lisa Kristal Burgman não quis dar entrevista, mas em uma declaração os advogados do imóvel classificaram as alegações da mãe dela como enganadoras, acrescentando que o CBGB era, e é, sinônimo de Hilly Kristal.

Em papéis dos tribunais o imóvel diz que Karen Kristal voluntariamente assinou a cessão da propriedade para o seu ex-marido em janeiro de 2005, assim que o CBGB estava começando a ter problemas com o senhorio por conta de aluguéis que não foram pagos, o que no final levou ao encerramento do clube.

Karen Kristal disse que não se lembrava de ter assinado esse documento, que também é assinado por Hilly Kristal, mas não por nenhum advogado ou testemunhas.

Karen Kristal sofre de hidrocefalia, de acordo com seus advogados, o que pode afetar a memória de curto prazo, e em uma entrevista ela repetiu muitas das mesmas anedotas várias vezes.

Seus advogados argumentam que se Karen Kristal assinou de fato o documento, ela foi manipulada pela filha e ex-marido. De acordo com o processo, Hilly Kristal tinha chorado a pobreza para Karen Kristal durante anos, e escondeu dela seu estabelecimento da CBGB Fashions, uma empresa que lidava com merchandise. Em março de 2005 ele disse ao The New York Times que a CBGB Fashions angariava cerca de 2 milhões de dólares por ano.

Templo imaculado

Complicando os problemas, pouco tempo antes de morrer de câncer, Hilly Kristal concordou em vender os bens do CBGB e marca registrada por um total de 3.5 milhões de dólares. O comprador, a CBGB Holdings LLC, que não quis comentar, vende produtos em um depósito no Brooklyn, e emprestou muito da coleção da CBGB ao Hall da Fama do Rock and Roll. A audiência da semana passada adicionou a CBGB Holdings ao caso.

Quando indagado sobre o caso, Michael S. Elkin, advogado de propriedade intelectual em Nova York da Winston & Strawn, que não está envolvido no processo, disse que dependeria de Karen Kristal provar que ela foi enganada e que os documentos citados pelo imóvel são inválidos.

Muito disso terá a ver com a existência de uma prova documental que corrobore, afirmou Elkin, e se essa mulher de 83 anos pode agüentar um exame cruzado poderoso, porque ele vai vir até ela como um morcego do inferno.

Membros de longa data do círculo do CBGB balançaram a cabeça sobre a feiúra da disputa, mas disseram que o que quer que aconteça, o lugar simbólico do CBGB como o local de nascimento do punk rock ficará imaculado.

É triste, mas parece meio inevitável, disse Arturo Veja, diretor artístico de muitos anos dos Ramones, sobre o processo. Mas não deve refletir o que esse lugar era, não mesmo. CBGB era um raio de liberdade para os jovens, algo em que acreditar.

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