Susan Boyle: comentário da miséria popular

O fenômeno que, pela internet, tomou conta do mundo

The New York Times |

O que foi Susan Boyle? Não pergunto quem, pois isso nós já sabemos. Ela é uma escocesa robusta e modesta de 48 anos cuja corajosa interpretação de I Dreamed a Dream, do musical Les Miserables, em um programa de talentos britânico no mês de abril se tornou um sucesso estrondoso no YouTube.

No mês seguinte, a reação de um tablóide ¿ ou algo do gênero ¿ corroeu o apoio popular a Susan. Apesar de, mais uma vez, cantar maravilhosamente bem nas finais do programa Britains Got Talent, o júri escolheu o grupo Diversity, trupe de dança multirracial formada por 11 integrantes, para levar o prêmio principal da competição. Quatro semanas atrás, poucos dias depois de ter admitido a derrota no palco (Os melhores venceram, disse ela), Susan foi internada em uma cínica londrina para tratar seu esgotamento.

Agora os fãs também precisam de um pouco de descanso. Precisamos retomar nossas forças, pois quando surgir mais um vídeo de uma estrela emergente precisaremos novamente nos surpreender. Porém, esse período ocioso nos oferece uma oportunidade de reflexão: o que foi exatamente o espetáculo Susan Boyle, aquela porção substancial de cultura que nos manteve, mesmo que por poucos dias, profundamente absortos?

As respostas ainda se encontram no vídeo, a pequena e insidiosa obra de arte que certamente vale a pena ser vista diversas vezes por seu comentário acidental da miséria popular, por seu conceito de expectativa e pela forma que culturas se parabenizam. Para começar, o fenômeno Susan Boyle certamente pertence ao mundo do vídeo online, cuja principal diretriz é deixar o espectador estupefato. Os grandes temas de vídeos online são dublês, trotes, violência, pegadinhas, virtuoses, distúrbios e transformações. Enquanto espera-se que a televisão satisfaça seus espectadores com seus gêneros e fórmulas, o vídeo online os deixa perplexos.

No vídeo de Susan, primeiramente a vemos sentada, sozinha, usando sua melhor roupa de domingo e comendo um sanduíche. Susan conta para as câmeras que nunca foi beijada. Que vergonha!, ela completa, com a teatralidade doce e patética de David Brent ¿ personagem de Ricky Gervais na versão de The Office da BBC.

Fãs torcem por Susan Boyle no programa Britain's Got Talent

Uma vez no palco, não é sua falta de atrativos físicos, mas seus esforços dramáticos para ter um pouco de sex appeal que parecem desconcertar Simon Cowel, o jurado mais conceituado do universo dos shows de talentos. Afinal, Simon é um especialista em britânicos feiosos, tendo coroado Paul Potts, o tenor esquisito que venceu a primeira temporada de Britains Got Talent. Poucos segundos depois que Susan começou a cantar, Simon levantou as sobrancelhas. Quando a escocesa cantou a frase I dreamed that God would be forgiving (Eu sonhei que Deus poderia perdoar), ela já estava salva: a plateia estava de pé e Simon estampava um sorriso radiante.

Em certo momento, um chefe de cerimônias saltitante se vangloriava, perguntando para as câmeras: Vocês não esperavam por isso, não é mesmo?

Edição habilidosa e expressões teatrais

Bem, não esperávamos mesmo. Mas, quais eram exatamente nossas expectativas? É certo que o fato de uma mulher gorda conseguir entoar uma melodia afinada não nos causa surpresa alguma. Talvez o desconforto de expectativas generalizadas venha, ao contrário, da edição habilidosa do vídeo e das expressões quase teatrais dos jurados embasbacados. Porém, o efeito também deve ter origem na própria música, na incrível força da canção I Dreamed a Dream. Citando um clichê do American Idol, a escolha da música foi realmente excelente.

Todas as culturas gostam de representar seus melhores momentos. Assim como a vaidade americana é dramatizada no entusiasmo de Tom Sawyer, para os britânicos tal sentimento muitas vezes vem à tona através do drama do populismo romântico. Caipiras humildes dizem o que pensam, hipócritas sofisticados são tomados de vergonha. Simon conhece bem o inconsciente cultural, e ele faz seu papel lascivo de padre supremo. E não é de se admirar que um jurado diz a Susan - a escocesa filha de irlandeses ¿ que o que ela fez foi para toda a Grã-Bretanha ¿ para Falstaff, para os rústicos, para os personagens mais humildes de Dickens. É provável que sua derrota ¿ dado o profundo desconforto do povo britânico em relação ao triunfalismo, assim como a profecia da miséria descrita na canção ¿ também não cause nenhuma surpresa.

Mas não se preocupe, Susan: existe uma terra de sonhos onde as pessoas adoram vencer e onde tigres vivem para se aproveitar dos sonhos dos sonhadores. Naquela última noite, Simon fez menção a este lugar quando sugeriu que, ganhando ou perdendo, Susan iria encontrar oportunidades vindas da América. Como era de conhecimento de Simon, o trabalho de base em direção aos Estados Unidos já havia sido iniciado no YouTube.

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