Springsteen fala de política, pop e sonho americano

Todas as canções que escrevi são um pouco mais verdadeiras hoje do que seriam um ou dois meses atrás

Jon Pareles, The New York Times |

Às 9 horas de uma manhã recente, Bruce Springsteen e a E Street Band já estavam ensaiando há mais de uma hora e meia no clube de rock Terminal 5, em Manhattan. Enquanto executivos da NFL- National Football League e a equipe de produção de uma televisão trabalhavam, eles ajustavam o miniset de quatro canções ¿ tirando versos, organizando sequências ¿ para se adequar aos 12 minutos de espetáculo que fariam no intervalo do Sunday at Super Bowl XLIII, evento esportivo com perspectiva de alcançar dezenas de milhões de expectadores.

Minha aposta no Super Bowl?, disse Springsteen depois do ensaio. Fundamentalmente, é uma festa de 12 minutos.

Poucos músicos por aí realizam ocasiões simbólicas e grandes eventos melhor do que Springsteen. Ele está acostumado a trabalhar com públicos gigantescos, ocupando estádios, e por décadas seus shows vêm sendo acompanhados por multidões cantando suas canções, incorporando os anseios de comunidade citados em suas letras. Em uma época na qual sucessos da música pop podem ser tão efêmeros quanto um arquivo de MP3 deletado, Springsteen passou grande parte de sua carreira empenhado em escrever canções duradouras sobre os sonhos americanos, como Born to Run e Promised Land.

Mesmo com seu mais recente contrato de US$110 milhões, firmado com a Columbia Records para a produção de sete álbuns, ele personifica a imagem da classe trabalhadora de New Jersey, invocando um populismo compassivo ao cantar sobre empregos, família e o quotidiano, e ao aproveitar a companhia de seus parceiros de longa data da E Street Band. Ele tem a conduta digna para liderar um evento da posse presidencial e a energia necessária para agitar o Super Bowl. Entre um evento e outro, ele lançou um novo álbum de estúdio, intitulado Working On A Dream .

Springsteen ainda busca fazer grandes declarações simbólicas e é convidado para fazê-las. Esses momentos nos oferecem oportunidades para conseguir um tipo de comunicação muito elevado, disse ele.

Em outra transmissão em rede nacional realizada duas semanas atrás, ele incorporou o papel que ocupa há bastante tempo - a voz da América - no We Are One, o estrelado show de abertura das comemorações da posse do Presidente Barack Obama. Ele se apresentou diante de centenas de milhares de pessoas reunidas no Lincoln Memorial, além de ser assistido por outros milhões na televisão e internet. Acompanhado de um coral, Springsteen cantou The Rising, canção que tem como tema o sacrifício e a redenção do Onze de Setembro.

Uma vez que você começa a escrever esse tipo de música, as coisas vão se desenrolando por si só, disse Springsteen. Você escreve 'The Rising' por uma razão, a canção é escolhida e usada por outra, e você acaba aqui onde estou. Se em 2001 alguém tivesse me dito que eu cantaria essa canção no concerto da posse do primeiro presidente negro dos EUA, eu teria dito: Como assim?, disse Springsteen em tom de gargalhada. Porém, oito anos se passaram, e este é o momento onde nos encontramos. Você está lá no meio, nadando na corrente da história, e sua música está fazendo o mesmo. 

Bruce Springsteen move multidões com personificação da classe trabalhadora norte-americana

Ele continuou: A essência de grande parte de nossas canções é a idéia americana: O que é isso? Qual o significado disso? Já presenciei gente cantando canções como Promised Land e Badlands por todo o mundo. Eu já via o país passando por alguma movimentação popular nos anos oitenta, desde minha adolescência. Também conheci pessoas que estavam trabalhando para alcançar este tipo de coisa para nosso país. Mas, em termos nacionais, isso sempre pareceu muito distante. E então, na noite das eleições aquele movimento mostrou sua cara, provavelmente pela primeira vez em minha idade adulta, disse ele. Me sentei no sofá de queixo caído, falando pra mim mesmo: Deus do céu, isso existe. Não era mais só um sonho! Existe e está ali, e seu tudo isso está lá então o resto também está, vamos até lá alcançar o resto. Isso basta para nos fazer prosseguir pelo resto de nossas vidas. Todas as canções que escrevi são um pouco mais verdadeiras hoje do que seriam um ou dois meses atrás.

Melodias e romantismo

A apresentação no Super Bowl no último domingo segue o lançamento do CD Working on a Dream , menos de 14 meses depois do lançamento de Magic , em 2007. Springsteen não fazia um álbum em estúdio com tanta rapidez desde 1973, quando lançou seus dois primeiros álbuns no mesmo ano.

Ainda mais do que Magic , o novo álbum representa uma mudança profunda na música de Springsteen. Depois da produção elaborada e angustiante de Born to Run , em 1975, Springsteen passou por uma fase reativa que durou mais de duas décadas, construindo suas canções com base na música country, folk e blues, com melodias funcionais e produções diretas, bem próximas de gravações ao vivo. Juntamente com o produtor Brendan OBrien, com quem trabalhou pela primeira vez no álbum The Rising de 2002, Springsteen incluiu alguns arranjos pop ao CD Magic . E Working on a Dream dá continuidade a essa tendência.

Encorajado pelo produtor, Springsteen escreveu quatro novas canções durante a semana que precedeu as mixagens finais de Magic , disse ele. Percebi que realmente adoro aquelas melodias arrebatadoras e o romantismo, e não me permiti ter muito disso no passado, disse Springsteen. Quando você tem uma queda por algo que nunca fez, já é o suficiente.

Working on a Dream soa como uma antologia dos anos sessenta: Creedence Clearwater Revival na canção título, os Beach Boys em This Life, The Byrds em Life Itself, Ben E. King em Queen of the Supermarket, o rock-blues psicodélico em Good Eye e as trilhas-sonoras do western à italiana nos oito minutos da faixa Outlaw Pete. Por mais extravagantes que algumas faixas possam parecer, a maioria das letras têm consistência: nelas Springsteen pondera sobre o amor e a morte. A emoção comemorativa de My Lucky Day dá lugar a canções que saúdam a inexorável passagem do tempo.

O pop sempre vem acompanhado de insinuações sobre a eternidade e a imortalidade, disse ele. A matemática do pop continha algo tão sintonizado com o universo, tão imbuído de esperanças, sonhos, amor, desespero, sentimentos imortais, sentimentos da morte chegando¿ e você tenta colocar tudo isso em três minutos. Estando nesta fase de minha vida, é muito estimulante voltar àquelas formas, repletas de sentido de eternidade, e impor a elas uma limitação.

O álbum termina com a canção The Wrestler, a lúgubre faixa título para o filme de Mickey Rourke. Vencedora do Golden Globe Award de melhor canção, a música surpreendentemente não foi indicada ao Oscar. O álbum também inclui The Last Carnival, uma elegia ao tecladista e fundador da Street Band, Danny Fecerici, escrita por Springsteen especialmente para o funeral do músico ¿ nela Jason Federici toca acordeom de seu pai. Viajaremos no trem sem você hoje à noite/ O trem que continua em movimento, canta Springsteen.

Entretanto, é visível o empenho para manter o entusiasmo do pop em grande parte do álbum. Eu queria frases melódicas, facilmente repetidas ¿ coisas para as pessoas cantarem e sons para animá-las, disse ele. Eu quis capturar a intensidade e a urgência da paixão e sua ressonância dentro e além de nossas vidas. Eu queria que o álbum soasse clássico: estrofes, grandes refrãos, acordes de abrir os céus.

Steve Van Zandt, um dos guitarristas da E Street Band, disse ter ficado surpreso que as novas canções de Springsteen evoquem o pop dos anos sessenta. No passado, ele simplesmente ignorava esta parte de seu talento, e ele é o compositor do pop mais talentoso que conheço, disse ele. Em uma época diferente ele teria participado do Brill Building.

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