¿Sou nganga, abicum obicurá, filho de Santo Antônio¿

Na segunda parte da entrevista, Carlinhos Brown fala sobre funk carioca e orgulho racial

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Agência Estado
Carlinhos Brown
Na opinião de Carlinhos Brown, as correspondentes brasileiras a Lady Gaga escondem-se em algum lugar entre Elke Maravilha e as funkeiras dos morros cariocas. “A menina faz um funk, desce até embaixo. O puritanismo começa a dizer que não. E cresce o número de mendigos na rua”, provoca.

Na segunda parte da entrevista, Brown fala sobre a parceria com o funkeiro carioca Mr. Catra, reflete sobre orgulho racial e conta a história dos quatro vistosos anéis que leva nos dedos e que remetem, ao mesmo tempo, à ancestralidade africana, ao candomblé, ao catolicismo e à aristocracia baiana.

iG: Por que diz que este ano foi o mais difícil para você?
Carlinhos Brown: Eu vivo muito do exterior, e os caras entraram em crise. Desceu muito a coisa de show na Europa. Diminuiu mesmo, radicalmente.

iG: Por isso eles estão vindo mais para cá?
Carlinhos Brown: Por causa disso. Vamos dividir, são benvindos, ninguém tá dizendo que não. Mas estão roubando nosso mercado, olha a mídia que se tem sobre um artista estrangeiro. Lady Gaga (pronuncia “Gagá”)? Genial, mas eu tenho a Elke Maravilha, caramba, uma artista genial. A gente, como brasileiro, precisa se orgulhar da gente. Aqui a menina faz um funk, desce até embaixo. O puritanismo começa a dizer que não, que não, que não. E cresce o número de mendigos na rua, numa economia que se fala crescente. Por mais que haja esforços, crianças continuam abandonadas. A falta de maturidade dos governos na América Latina inteira para a descriminalização de alguns psicotrópicos levou sobretudo os pobres a essa droga patológica que é o crack.

iG: Não são só os governos, a maioria da população é contrária à liberação das drogas, do aborto, do casamento gay…
Carlinhos Brown: É contra construir escola, é contra o desarmamento. Houve um plebiscito, um país que é contra o desarmamento não pode reclamar de bala perdida. Essa xenofobia, esse caminho de apartheid, ora, quando nós vamos aprender a aceitar as diferenças? Quem não é genial esfrega a lâmpada e pede que o gênio lhe abençoe, não taca a lâmpada na cara de outro. Resultado: os caras maltratam crianças, abandonam os velhos, batem nos gays. Sabe aquilo que eu disse no Rock in Rio dez anos atrás, “meta o dedo no rabo pra se conhecer”? Não foi mágoa, foi educacional. Só disse que esse dedinho (repete com o dedo o gesto obsceno dos metaleiros) você tem que meter no chicote pra se conhecer. Fica mostrando o dedo pros outros, mete logo, talvez você tenha uma outra sensação. Aquele cara que arrumou a lâmpada na cara do cara, enfia no cu, pra perder essa cerimônia. Primeiro, tem um país à margem. Segundo, tem um país que não se encontra direito. Essa sociedade fica falando que é contra a descriminalização porque não são os filhos dela que estão na ponta de faca. Se você é contra a descriminalização e contra o desarmamento, você é a favor da cultura bélica. Eu sou o mesmo brasileiro de antes, descoberto pelo francês. Foram os franceses que botaram “A Namorada” pro Brasil, não foram os brasileiros. E no dia em que eu pedi as contas na EMI o meu patrão correu pro jornal e disse que tinha me demitido. Quem me contratou? A Sony europeia. Foram os únicos que fizeram campanha de artista comigo até hoje. Tiveram resultado milionário. O grupo Telefônica investiu 8 milhões de euros nos carnavais que fizeram, com pessoas africanas, da América Latina, com os os Ronaldos, que ajudaram muito o êxito do Brasil naquele lugar. É um coletivo, a música só junta tudo.

iG: Na Copa de 1970, Pelé e Wilson Simonal posavam juntos, cada um vestindo a roupa do outro.
Carlinhos Brown: Exatamente, dois reis. Um foi sucumbido pela ideia da ditadura – nunca engoli, foi injusto, nunca ficou claro. O que me faz confiar em Simonal é que é a mesma sociedade que reprimiu Cassiano ou até Tim Maia. Nelson Motta é um gênio da crítica, mas acho muito grosso quando fala que Tim Maia faz “música de corno”. Tim é genial, faz música de sentimento. Talvez seja a gente que seja consumidor dessa música assim. Às vezes acho escárnio, a pessoa liga o rádio, não é uma letra de Lulu Santos, “ela me faz tão bem”. O cara só fala que foi traído, um corno alegre. Não acho que Tim Maia seja isso. Um poeta como Itamar Assumpção, Cassiano, Luiz Melodia… Eu não vou ser o próximo. Não vou, porque eu tive essas pessoas pra me defender. Não é rancor, não é amargura, é porque já sabemos como a sociedade se porta conosco. Não deixaram o funk se erguer. Funk é o beat eletrônico mais moderno que tem. Se você não vai nas comunidades, não fornece uma educação literária, como quer que saia letra? Vai sair letra das vivências deles. Mas se tem consumidores, que são tantos… Quando você vê a música que gosta discriminada, você se perde, também acha que está discriminado, nessa mídia concentrada no sul do país e em algumas famílias. A internet é maravilhosa, legal baixar música de graça, é bom, é generoso. Mas generoso seria se baixássemos um quilo de feijão, ou a conta da luz, o leite, o café, a sobervivência.

iG: A discriminação do funk, ou de outros gêneros musicais, não é em grande medida racial?
Carlinhos Brown: Coincide. Mas por que quando se fala em racial só quem se fode são os pretos? Não venha, não venha que não tem conversa. A gente não é preconceituoso, a gente se aceita. Tudo que nós queríamos foi reafricanizar o Brasil, e nós conseguimos passar o jeito, a forma de suingar. E ficam aí, “o pagode não pode”, “essa música não é boa”. Nego utiliza as palavras pagodeiro e traficante com a mesma ênfase, como se o pagode estivesse dentro da ilegalidade (um homem negro se aproxima e se declara baiano e grande fã de Brown).

NYT
Carlinhos Brown e sua barba grisalha
iG: As barbas brancas estão fazendo efeito, ele chamou você de senhor.
Carlinhos Brown: Mas é porque na Bahia me associam ao mestre. Tem segredos rítmicos e percussivos, e fui herdando coisas, fui ganhando todos esses anéis. Este aqui vem com os negros de Angola, ganhei do mestre Pintado, que passou da avó Benvenuta para ele. Negra, hein? Parece italiana, né? Passou no mínimo por outras duas gerações. Já tenho a pessoa pra quem vou dar. É um menino, louro dos olhos azuis. Mas é mestre de percussão. É uma hierarquia, daquele que realmente pode.

iG: Nós estamos falando de candomblé, ou não necessariamente?
Carlinhos Brown: (Hesita.) Não necessariamente… É, vamos dizer que talvez. Tem umbanda… Mas, falando em candomblé, o ritmo funk é terreiro, é o terreiro eletrônico.

iG: Por isso você chamou Mr. Catra para um dueto com você em Adobró?
Carlinhos Brown: Ah, sim, pra mostrar essa coisa. E ele chegou assim (imita a voz grave de Catra), “pô, malandro, você já fez o creque”. “Que diabo é creque, Catra?” “Eu tô trabalhando nisso, você já fez, eu ia misturar tudo.” “Só fui pegando coisa eletrônica e botando.” E ele: “Tamborzão!”. Fez aquilo na hora. Eu disse: “Catra, você é meu parceiro na música”. “Mas eu não fiz isso, não.” “Você é meu parceiro, a gente é parceiro nisso.” Por isso brinquei que é Bahioka Funk. Da Portela de Paulo da Portela a Papin de Los Papines, em Cuba, somos todos bantos, ou bantus. E eu sou nganga.

iG: Não sei o que é…
Carlinhos Brown: Tá, eu vou lhe explicar (risos). O nganga é um intercessor. Tem que ter uma pequena compreensão que vem de sons, mas tem que compreender o ser humano e saber interferir no emocional, tanto na partida como no cotidiano, no nascer ou na morte. No fundo, no fundo, eu sou um abicum obicurá. Um abicum é uma pessoa que nasce com orixá determinado, nunca ouviu falar história de cabeça feita? Sou Ogum, pelo dia de hoje. E sou abicum obicurá, que é raro mesmo. Tenho que estudar a vida inteira pra saber me cuidar, e cuidar dos outros. Um obicurá tem uma ancestralidade aguçadíssima, então pode ir no passado e no futuro com muita facilidade, da mesma forma que uma pessoa vai num livro estudar uma matéria, e muitos olham como inteligente, um orador. Sou filho do vento e da intuição.

iG: E os outros três anéis?
Carlinhos Brown: Este aqui foi um bispo que me deu. A igreja brigava muito comigo, porque fiz a música da camisinha. E não era uma campanha, eu via o problema de Aids, a galera da Bahia não é brincadeira no carnaval, e quem vai também quer cair na madeira. E a igreja é contra. Mas eu não tinha essa noção, e o bispo, dom Lucas, implicava muito comigo. Aí eles descobriram que eu já tinha outros carinhos, o dom Avelar foi um instrutor maravilhoso na minha vida. O frei Hildebrando instalou no ano de 1949 o Retiro de São Francisco no bairro do Candeal, uma roça ecumênica, de espíritas, terreiros e tudo, dentro de toda essa liberdade. Sou filho de Santo Antônio, faço trezena, às vezes de três dias, às vezes de 13. O bispo me deu e disse: “Carlinhos, a igreja é rígida, nós temos preceitos e dogmas que precisam ser respeitados. Mas nossas discussões também nos levam a nos modernizar. Você é um filho de Santo Antônio, amado e querido. Tenho um presente, tchau”. Foi isso, não foi nada de outro mundo. Este outro é a Santa Cruz, que era de meu avô Bertolino Gonçalves. Mas ele não é católico, não. E esse aqui é de barões do cacau. A pessoa que me deu disse que eu era líder, não sei o quê. A Bahia é cheia dessas coisas.

iG: Como era sua vivência com os terreiros, quando era criança?
Carlinhos Brown: Morria de medo, saía correndo. Até hoje eu corro léguas. Tem coisas que são muito fortes. E forte não é que é do mal, é que emociona muito. Uma das coisas mais impressionantes do terreiro é você ir ver uma festa e tocar a música do seu orixá. A pessoa diz “não”, pra não entrar em transe, rapaz, é o “não” mais lindo que possa existir. Você acha que todo mundo entra em transe porque quer? Não, já é, foi Tata que me deu o transe. Pessoas de 80 anos dançam parecendo que têm 17. O que é isso, gente? Não é o transe eletrônico. No eletrônico tem o ecstasy, no máximo numa festa de caboclo você toma uma jurema, feita com raízes, sem álcool. Eu nasci em roça. Chamam de roça o terreiro. Tenho uma história bem louca, que confunde com a de muitos brasileiros. Você acha que só os paulistas vieram dos italianos? Eu também.

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