"Sou a favor do capitalismo, do lucro", diz Lobão

Na quarta e última parte da entrevista, músico fala sobre direita e esquerda e sua relação com sambistas

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

AE
Lobão no palco
Entrevista com Lobão: primeira parte
Entrevista com Lobão: segunda parte
Entrevista com Lobão: terceira parte

iG: Logo no início do livro, você cita que é primo do Carlos Lacerda. Como é isso?
Lobão: Sim, somos primos. Quando eu ouvia falar, achava que era porque minha mãe era fanática, mas recentemente fui em negócio de genealogia na internet e está lá, sou primo pelo setor Werneck, por parte de avó materna. Ele era sobrinho da minha avó. É primo em terceiro grau. Não deu tempo de conviver com ele, só de adorá-lo. A gente era fanático pelo Lacerda, pelo governo dele: o Quarto Centenário do Rio, o Aterro do Flamengo, o túnel Rebouças, a remoção das favelas da Praia do Pinto e da Catacumba. Neguinho ficou puto, mas imagina se tivesse a Catacumba hoje na Lagoa?

iG: Hoje é meio xingamento chamar alguém de “lacerdista”.
Lobão: Exatamente, acho que há uma certa injustiça. Lacerda era um gênio, um grande orador. O Brasil estigmatiza muito, você tem de ser de esquerda. E mesmo ele foi de esquerda, começou na esquerda, mas se você vira de (hesita)... Eu mesmo não sou de esquerda, flertei mais pressão externa, por parte do colégio que eu frequentava, da “intelligentzia”. Se você vai fazer música no Brasil, tem de ser de esquerda, não pode ser de direita, senão você é “simonalizado” (faz referência a Wilson Simonal, que se alinhou à ditadura e acabou rejeitado por todas as correntes políticas). As pessoas compram o pacote, não por convicção, mas porque é fashion, sexy, herdado ou seja lá o que for. A direita e a esquerda são a mesma coisa: conservadoras, nacionalistas, caretas, retrógradas, e adoram uma ditadura. Minha mãe era fascinada pelo Médici e pelo Chico Buarque ao mesmo tempo.

iG: Você absorveu isso? Acabou gostando de ditaduras também?
Lobão: Não, nunca gostamos de ditadura. Minha mãe era totalmente em cima do muro. Ela gostava do “milagre brasileiro” (apelido dado à arrancada econômica vivida pelo país durante a ditadura militar, especialmente entre 1969 e 1973) porque a gente se locupletou. Tínhamos dois carros, casa de três andares em Ipanema. Mas ela sempre falava de preso político, tortura. Tinha um tio que era general, sediado no Forte de Copacabana. Ele sabia mil coisas, mas era progressista, foi exonerado, virou general de pijama. Esse tipo de ambiguidade era muito mais corrente do que as pessoas retratam agora. Esse período, pelo que me consta, é unicamente escrito por pessoas da esquerda. Era época de guerra, cara, Che Guevara estava ali na Bolívia, eram duas ditaduras. As pessoas não estavam lutando pela democracia, mas para aqui virar Cuba. Isso ia acontecer, porque toda a “intelligentzia” estava fã de Cuba, era stalinista. Hoje, como todo mundo sabe que o stalinismo é hediondo, as pessoas se camuflam, mas não abrem mão da epígrafe de esquerda. Quando você fala que é de esquerda no Brasil, parece que você é do bem e inteligente, senão você é mau e burro. É maniqueísmo muito primitivo e primário.

iG: E você, como se classificaria?
Lobão: Acho que nós deveríamos evoluir o capitalismo, ser mais generosos, melhores como seres humanos. E ser menos pudicos, menos culpados e mais efetivos. Para distribuir renda você não precisa ser socialista. Governo ficar assistindo as pessoas eu acho de última, fica tirando do setor produtivo sem promover o progresso daquele segmento. É parideira profissional, mulher com bucho, oito filhos, investindo no Bolsa Família, uma fábrica de analfabetos.

iG: Sua resposta é em cima do muro, como você diz que sua mãe era?
Lobão: Não! Eu não sou, dizer que é de esquerda ou direita hoje é de uma antiguidade... Como baterista, sempre refutei ser esquerda ou direita, porque sou ambidestro. Eu bato com as duas, como posso? Ser de direita está estigmatizado, associado a ser torturador e pró-ditadura. É uma palavra contaminada. Você é "simonalizado”, vira burro, conservador. Pô, tem conservadorismo de esquerda! A “intelligentzia” de esquerda se acha martirizada e vítima de uma ditadura que já acabou. Vou em debate com Ariano Suassuna e Antônio Abujamra, eles se autojactam, são os tais. Fico pasmo. Não vem que não tem, passar perrengue em cadeia tu não vai achar que passou mais do que eu. Antropófago, índio, herói sem caráter, preguiça, vai tomar no.... Pô, eu não consigo me inserir na minha cultura. E um japa lá de Maringá, como ele vai fazer pra ser brasileiro? O “roqueiro”, para ser esperto, vira MPB quando está mais velho. Você vê Arnaldo Antunes e Frejat na prateleira de MPB, eu graças a Deus ainda não. Nos tacham de colonizados, macaquitos, porque imitamos o rock, mas pega todas as produções brasileiras, os caras tocando feito Jaco Pastorius. Não estão imitando o rock, mas estão imitando o jazz - muito mal, inclusive. Essa gentileza, essa brejeirice do brasileiro torna a violência muito maior, porque é o anteparo que permite os atos serem muito violentos, quando a representação é toda no frufru. Nós somos um povo violento, e nossa representação cultural é toda simpática, benfazeja, ingênua, naïve, elegíaca.

iG: Você já disse em entrevista: “Eu sou de direita”. A gente nunca sabe se você está falando sério ou se é frase de efeito.
Lobão: Falei que sou de direita no sentido de ser capitalista, a favor do capitalismo, da meritocracia, da competitividade, do lucro. Se isso é ser de direita, então eu sou de direita.

iG: Você foi golpista em relação à indústria fonográfica em certos momentos?
Lobão: Fui golpista. Eu estava arquitetando, comprando uma briga que não foi comprada pela classe de uma maneira absurda. A numeração de discos era uma coisa pela qual a gente lutava por 40 anos avidamente. Teve uma história que não pude contar no livro: estava na casa da Beth Carvalho, articulando, e Beth queria que Rita Lee aderisse à causa da numeração. Eu estava brigado com a Rita, e Beth tentando falar com ela por e-mail: “Você precisa aderir”. “Não, tendo o Lobão do lado é impossível”. Beth olha pra mim: “Lobão, faz esse favor, pede desculpa pra ela”. “Não vou pedir desculpa!”. “Porra, pede aí!”.

André Giorgi
Lobão
iG: Uma sambista querendo promover a paz entre roqueiros?
Lobão: “Porra, Beth, não vou me humilhar, foda-se!”. “Porra, Lobão!”. “Tá bom, tá bom, desculpa”. “Lobão está aqui pedindo desculpas”. A Rita: “Não dou!” (ri). Aí a Rita, nervosa, deu um enter lá qualquer e caiu na nossa mão uma correspondência dela com Gilberto Gil. Eles manobrando, “estimado guru”, “Ritinha”, “guru”, “Ritinha”, “guru”... “Ritinha, nós não somos partido nenhum, somos terceiro partido, só eu e você. Perante o público, a gente fala que é a favor, mas aí eu escrevo uma carta para o Fernando Henrique Cardoso. A gente não pode deixar isso vingar.” Que é isso? Que barbaridade! Foi um desperdício incrível, porque dentro da lei a gente conseguiu garantir R$ 0,01 centavo da venda de cada disco para criar uma associação. A gente calculou, na época, que daria uns R$ 400 mil por mês. Eu, Frejat e Beth e o pessoal do Sindicato dos Músicos passamos seis meses reunidos, toda sexta-feira, esperando vir alguém. Ninguém aparecia.

iG: E esses centavos, que fim levaram?
Lobão: Eles não estão sendo cobrados, porque não tem associação. As gravadoras podem dizer “não vou pagar”, porque a associação não se formou. Perdemos esse direito. Não custava nada, já estava pronto. Não precisava mais nem de coragem. Teve também a conversa com a Flora (mulher de Gilberto Gil): “Você é um canalha, moleque, tá querendo acabar com a vida dos artistas”. Uma coisa muito tenebrosa, um carma violento para mim. “Isso não é seu playground, Gil é um grande artista, sofreu ameaça do presidente da gravadora dele”.
Basicamente, acho que foi muito mais vaidade do que falta de coragem. Porque era eu, né? “Lobão detesta os artistas”, disse o Gil. E, pô, eu mirei no que vi e acertei no que não vi. Conseguimos 5 mil assinaturas. Na semana seguinte só tinha os independentes, a Beth e o Frejat. Tem outra história ótima: estávamos quase acampando na casa da Beth, e tinha um cavaquinho lá. “Beth, você podia me dar umas posições de cavaquinho...”. Ela: “Que bonitinho, primeira posição”. Blém-blém, toquei direitinho. Segunda posição, terceira posição, ela ficou olhando para mim, divagando: “Puxa, Lobão... Você é um rapaz tão inteligente, não consigo imaginar você tocando guitarra elétrica (risos)! Você podia ser um cara tão bom...”
Era nesse nível. Na primeira vez que estava na [gravadora] RCA [em 1982], cheguei com a fita debaixo do braço e vi lá com letras enormes: “Bem-vindo à casa do samba”. Ih, eu hein? Mas eu gostava de samba também. Encontrei João Nogueira e Alcione no corredor, falei: “Grande João Nogueira!”. O cara: “Me desculpe, mas eu não aperto a mão de roqueiro”. Alcione também refugou. Depois todos viraram meus grandes amigos. Mas, jogando futebol, com o João Nogueira lá no meio, era “passa a bola”, “não passo”. Não passava a bola para roqueiro, no mesmo time!

iG: Quando eles passaram a aceitar você?
Lobão: Com a Alcione, foi a partir da minha prova na bateria da Mangueira. Ela estava presente na comissão julgadora. Naquela época, não podia entrar na bateria, era só comunidade mesmo. Foi um teste casca-grossa. João Nogueira também, nas concentrações das escolas de samba. Mas rock era uma coisa muito ruim, como se você tivesse uma lepra, e isso está arraigado dentro da cultura brasileira.

iG: De algum modo, você não faz o mesmo quando critica sertanejos, pagodeiros etc.?
Lobão: Olha, só faço com coisas que são maiores do que eu. Só ataco coisas que estão muito em cima, que têm toda a condição de se defender. Nos anos 90, era só rock, rock, rock. Gravavam hino de futebol em rock, ridículo, e eu ficava sempre no meio do fogo. Queria trazer o samba, misturar, e os dois lados ficavam putos, duas classes fundamentalistas. O roqueiro metaleiro é fundamentalista, tanto quanto emepebista. O problema não é ter estilo A, B ou C - é você ficar estancado num fundamento. E eu acabo entrando em conflito justamente porque sou um cara móvel, volátil. Vou para um lado e para outro com a maior naturalidade. Na minha geração, fui o cara mais MPB. Tive influência de bossa nova, harmonia. Poderia fazer carreira de bossanovista.

Leia a primeira parte da entrevista com Lobão .
Leia a segunda parte da entrevista com Lobão .
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