Sonny Rollins deixa público em transe na primeira noite do Tim Festival em SP

Fred Leal |

Acordo Ortográfico

Se não fosse pelo brilho dourado de seu saxofone, e seus cabelos prateados, Sonny Rollins poderia passar despercebido em sua entrada: junto à banda, cabeça baixa, um leve aceno. No entanto, bastaram os primeiros acordes de Strode Rode para justificar a comoção em torno daquele que vem sendo alardeado como a grande atração do Tim Festival para 2008.

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Com uma carreira que se estende por toda a segunda metade do século 20, e ainda um pouquinho da primeira, Sonny Rollins foi um dos grandes pioneiros do jazz, passeando pelo bebop, hard bop e fusion com a mesma desenvoltura. Revolucionário nos anos 1950 por empregar uma banda que consistia apenas em seu sax tenor, mais o acompanhamento de baixista e baterista, não foi surpresa alguma constatar que a formação atual de seu grupo (que inclui ainda trombone e violão) era mais que suficiente para que Rollins destilasse sua habilidade por pouco mais de duas horas.

Ao final do segundo número, o saxofonista agradeceu ao público brasileiro e sua grande gentileza, e aproveitou para apresentar a banda e fazer piada: essa é a hora de recuperar o fôlego. Logo se desmentiu ¿ como se não fossem suficientes as provas deixadas sobre o palco, em seus riffs vigorosos e notas sustentadas até que não restasse nada além da sensação de que a música estava prestes a explodir ao nosso redor.

Com um baterista impecável ritmando as transições entre sutileza e fúria, a banda passou por temas próprios do compositor, como Tenor Madness, e standards de Irving Berlin (They Say Its Wonderful) e Duke Ellington (o clássico In a Sentimental Mood). Em perversões que duravam quase 20 minutos, Rollins permitia à banda se alongar em solos que lhe davam a chance de respirar, e simplesmente admirar o show que os músicos faziam.

O show prosseguiu em transe quase religioso para a maioria dos presentes (tirando a meia dúzia de perdidos que fugiu entre uma música e outra, mais interessados em marcar presença do que curtir o espetáculo). Aplaudido efusivamente a cada solo, Rollins ia ficando mais inquieto à medida que o show ia terminando: andava de um lado pro outro, com sua coluna para sempre envergada na posição exigida pelo instrumento. O ápice veio com uma blues Jam que fez o público ¿ para desespero dos jazzófilos presentes ¿ acompanhar batendo palmas, enquanto o sax de Rollins dialogava com o trombone de Clifton Anderson.

Nesse momento, a platéia já se levantava para aplaudir ao fim de cada música, e Sonny Rollins encarava a banda como se decidissem entre encerrar o que estava planejado, ou tocar mais um pouco. Com a acertada escolha de continuar, Sonny emendou no que se tornaria o inusitado hit da noite, e também a canção mais breve em todo o setlist: uma versão para Isnt She Lovely, grande sucesso de Stevie Wonder. Do meu lugar na sexta fileira, pareceu que a música foi escolhida como resposta a um comentário feito por uma das mulheres que assistiam ao show de pé, entre o palco e a primeira fila.

Encerrada a apresentação, o público que lotou o Auditório Ibirapuera nessa noite de terça ainda aguardava esperançoso pela chance de um bis. Atendendo às palmas, Sonny Rollins voltou, não para tocar mais, mas para agradecer aos brasileiros por tão bela reestreia em nossos palcos. O sentimento foi, mais do que nunca, mútuo.

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