Slash leva cariocas ao delírio com vocalista em noite inspirada

Myles Kennedy não deixou fãs sentirem falta de Axl nem nos maiores clássicos do Guns'n'Roses. Guitarrista fez show impecável

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |

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Slash toca clássicos do Guns
O público foi ao Vivo Rio, no Aterro do Flamengo, na noite desta quarta-feira, para ver Slash . Mas a surpresa ficou por conta do vocalista Myles Kennedy, da banda Alter Bridge, emprestado à primeira turnê solo do ex-guitarrista do Guns'n'Roses, "We are all gonna die". Ele justificou os elogios da estrela da companhia, em entrevista concedida mais cedo em um hotel . Oscilando sem esforço entre os timbres distintos de Scott Weiland e Axl Rose, Kennedy não deixou a plateia sentir muita falta do desafeto de Slash em momento algum. Mostrou ser mais do que um cantor "tampão". Nesta quinta, a banda se apresenta em São Paulo, no HSBC Brasil, e, na sexta, em Curitiba, no Master Hall.

Ao contrário da coletiva, que começou com duas horas de atraso, as primeiras notas de "Ghost" foram ouvidas pontualmente às 21h30, horário marcado para o início da apresentação. Uma rara oportunidade para os fãs apreciarem uma ótima banda livres da desgraça dos shows de rock atuais chamada de Pista Vip. Sem o gargarejo cercado para quem pagar mais, mesmo com a casa longe de sua lotação máxima, a vibração do público compensou os espaços vazios.

Calça, cartola e colete de couro, camiseta branca sem manga, correntes e tatuagens à vontade, Slash mostrou pegada na abertura, enquanto o baixista Todd Kerns destoava abusando das caras e bocas. Fato curioso, apesar do ritmo do show, é que os músicos pouco, ou nada, trocam de posição. Slash, por exemplo, só deu as graças do lado esquerdo do palco (do ponto de vista do público), em "Paradise City", que fechou a noite. Além de Kerns e Kennedy, completaram a banda o baterista Brent Fitz e o guitarrista Bobby Schneck, sem grande destaque para ambos.

Solos, improviso e vocal irrepreensível

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Vocalista Myles Kennedy empolga os fãs
Depois de "Ghost", um cover da Slash's Snakepit: "Mean Bone". Peteleco no tímpano que agradou em cheio à plateia, com Myles Kennedy mostrando o motivo de ter sido escolhido para a turnê. A postura, mais sóbria, a começar pelos trajes, não lembrava nem de longe Axl Rose, mas os agudos esganiçados tornavam a comparação inevitável. Slash também tratou de fazer o seu primeiro solo mais longo, intercalando trechos de alta velocidade com seus riffs melódicos característicos. A passagem dessa música para a seguinte, "Sucker Train Blues", do Velvet Revolver, deixou nítida a versatilidade do vocalista da Alter Bridge. Slash afirmou que ele não será o novo cantor do Velvet, justamente por causa falta de tempo em função da sua banda, mas a interpretação de Kennedy foi impecável.

Ele aproveitou a empolgação no gargarejo para afanar uma bandeira do Brasil de um dos espremidos na grade. Enrolou no pedestal do microfone e Slash logo botou a sua Les Paul, réplica do modelo de 1959, na vertical para um novo solo fazendo pose no melhor estilo Guns'n'Roses. Era a deixa para a primeira referência à antiga banda. "Nightrain" incendiou de vez os cariocas, que cantaram tudo. Kennedy, com voz um pouco mais grave do que a versão original, soou como se cantasse aquela melodia há décadas. O guitarrista passou a praticamente fazer exercícios de escalas antes de emendar um solo recheado de puxadas nas cordas com agudos de fazer coçar o ouvido.

Clássicos do Guns'n'Roses foram ponto alto, mas repertório atual empolgou
"Rocket Queen" entrou pesada com uma bateria simples, mas bem marcada (Fitz toca no estilo "old school", com poucos pratos e surdos, sem muita firula). Com um slide de metal dourado, Slash arregaçou novamente a Les Paul antes de Kennedy anunciar a terceira em sequência do Guns'n'Roses: "Civil war" não teve assovio do vocalista, mas a plateia resolveu o problema. Mesmo sem a rouquidão acentuada de Axl, o cantor segurou bem a difícil segunda parte da música, com Slash maltratando os trastes, desta vez usando um Wah-wah. Terminou a música com as notas de Voodoo Child (Slight Return), de Jimi Hendrix.

Voltando ao trabalho atual, outra surpresa. O público cantou boa parte da letra de "Back from Cali" e se empolgou com "Starlight". Em "Nothing to say", Slash trocou de guitarra, passando a usar uma Les Paul preta, com uma alavanca que não faz parte do desenho original. Terminou a pancadaria ajoelhado em frente ao cabeçote Marshall brincando de controlar microfonia. Em seguida, "Beautiful Dangerous" fez a plateia pular. Então, Myles Kennedy deixou o palco e Todd Kerns assumiu o vocal. Com um tom bem mais grave, cantou "We are all gonna die", interpretada no disco de Slash por Iggy Pop, e se saiu bem.

"Jam session" e delírio em "Patience"
O guitarrista então começou a solar blues a esmo, no que se transformou em uma extensa "jam session", que apesar de demonstrar a categoria de Slash com o seu instrumento, foi um dos momentos em que uma mostra de habilidade se transformou numa arrastada sessão de masturbação musical. Mas, se tratando de show de rock, entrou no contexto. Kennedy voltou ao palco, cantou mais uma da Slash's Snakepit, "Just like anything", e deu início a uma nova série de músicas do Guns'n'Roses. "My Michelle" foi seguida de um dos grandes momentos da noite. Como em "Civil War", "Patience" não teve a introdução com assovio, mas o publico chegou a cantar mais alto do que o vocalista. Slash tocou com guitarra acústica e teve gente deixando o celular ou câmera digital de lado para voltar ao velho isqueiro, enquanto algumas meninas sacudiam bandeiras com a foto de Axl. Novamente, a execução de Kennedy foi irrepreensível.

O guitarrista então repetiu a brincadeira que fazia nos tempos da banda que o levou ao estrelato. Solou o tema de "O Poderoso Chefão" antes de fazer ecoar as primeiras notas de "Sweet Child O'Mine", talvez a sua composição mais consagrada. Desnecessário dizer que a casa de espetáculos veio abaixo. Se havia alguém parado, ficou no passado. Slither, do Velvet Revolver, fechou a primeira parte do show.

Slash: "Desde 1991, o Rio é o meu lugar favorito"
Slash, que pouco abriu o bico nas 2h15 de apresentação, voltou para o bis sem camisa, jogou palhetas e pegou o microfone: "O meu português é péssimo, não sei se o inglês de vocês é bom, mas em 1991 (no Rock in Rio II, com o Guns'n'Roses) foi a minha primeira vez no Rio e desde então posso dizer que é o meu lugar favorito. Muito obrigado, vamos continuar com o show". O guitarrista emendou então "By the sword", também do seu disco solo, logo voltando aos tempos antigos. "Mr. Brownstone" teve introdução improvisada com Wah-wah e, no fim, pela primeira vez, Slash correu pelo palco, deixando o seu cantinho que ocupou durante toda a apresentação.

Truculência descabida na cidade paraíso
Foi a vez então de Kennedy fazer sua média antes de fechar a fatura: "Tocamos essa música pelo mundo, mas aqui podemos dizer que estamos de fato na cidade paraíso". Antes mesmo de ecoarem os acordes iniciais de "Paradise city", o público já estava elouquecido. Slash passou a imitar os fãs e pulava sem parar, alternando solos viscerais mas sem mudar os riffs clássicos da canção. No fim, a tradicional rodinha com a banda em ritmo infernal. Os músicos foram até o centro do palco reverenciar a plateia e Slash deixou a guitarra ligada com distorção, fazendo um barulho ensurdecedor.

Uma cena lamentável aconteceu quando os músicos já deixavam o palco. Um rapaz driblou a segurança, subiu no tablado e foi arrancado de forma bastante violenta, desnecessária, pelos guarda-costas da banda. Mas ficou nisso. Slash encerrou: "Vocês arrasaram, muito obrigado!".

Confira o setlist do show de Slash no Rio de Janeiro:

"Ghost"
"Mean Bone"
"Sucker Train Blues"
"Nightrain"
"Rocket Queen"
"Civil War"
"Back from Cali"
"Starlight"
"Nothing to Say"
"Beautiful Dangerous"
"We are all gonna die"
Jam session
"Just like anything"
"My Michelle"
"Patience"
"Godfather Theme solo"
"Sweet Child O'Mine"
"Slither"

Bis
"By the sword"
"Mr. Brownstone"
"Paradise City"

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