Silvia Machete une humor e malabarismos à música

Cantora utiliza recursos cênicos em shows e prepara lançamento de DVD

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

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Silvia Machete, em show no Auditório Ibirapuera, em SP
Uma moita se desprendeu do solo do parque Ibirapuera no dia 20 de maio, uma sexta-feira, e foi fazer show no palco do Auditório Ibirapuera.

Vestida de mulher-moita, a cantora, compositora e performer carioca Silvia Machete utilizou o recurso cênico mais impactante do auditório - a parede de fundo que se abre para revelar a paisagem natural do parque - para iniciar o espetáculo, que foi registrado ao vivo para dar origem a seu segundo DVD.

O show corresponde ao segundo álbum de estúdio de Silvia, "Extravaganza", lançado no ano passado pela gravadora independente Coqueiro Verde, de Leo Esteves (filho de Erasmo Carlos) e Marcos Kilzer. Na capa do CD, só aparecem suas pernas - o resto está encoberto pela mesma moita que cantou no palco, brigando para que o microfone alcançasse a boca coberta por folhas, ramos e flores. A direção do DVD está por conta de Roberto de Oliveira, figura lendária da TV e da música do Brasil, por seu trabalho junto a nomes como Elis Regina, Chico Buarque e Rita Lee.

No palco e em entrevista, Silvia, 35 anos, costuma se queixar de modo brincalhão da fama ainda reduzida ("a próxima música é o que vai acontecer comigo", afirma, antes de cantar "Sucesso, Aqui Vou Eu", lançada por Rita Lee em 1970). Mas é inegável que tem conquistado trânsito, junto a gente como Roberto de Oliveira e Erasmo Carlos. Com esse, assina em parceria a canção "Feminino Frágil", incluída na trilha da atual novela das sete da Globo.

"A gravadora conseguiu enchendo o saco do [diretor musical da Globo] Mariozinho Rocha", ela explica. E não deixa de se depreciar, em gag que repetiria um dia depois, no palco: "Eu achava que ia ajudar, mas já entendi que só vou ser conhecida se for tema da Camila Pitanga na novela das nove. Na das sete, sou tema de dois artistas novos, desconhecidos, e o caso deles não está dando certo…".

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Silvia Machete
Filha dos jornalistas Aloízio Machado e Andréa Gouvêa Vieira (ex-"Jornal do Brasil", ex-Globo, atual vereadora carioca pelo PSDB), Silvia começou a reivindicar um lugar ao sol da música brasileira há quatro anos, quando lançou, por iniciativa própria, o CD "Bomb of Love - Música Safada para Corações Românticos". Foi quando começou a usar para valer, em favor da música, a experiência que já acumulava como artista de rua e de circo.

"Aos 18 anos, fui morar em Paris. Foi onde vi um homem fazendo show de rua e falei: 'É isso que eu quero!'", conta, na plateia vazia do auditório. "Vi que era uma forma muito livre de viver, e que as pessoas podiam fazer dinheiro com isso. Lá fora."

A ênfase no "lá fora" se deve ao fato de que, de volta ao Brasil após períodos morando e trabalhando em Paris e em Nova York, ela não vive mais da arte de rua. Em São Paulo, por exemplo, a prática é desincentivada por ações repressivas da Prefeitura municipal. "Na Europa faz parte, é normal. Um euro ou dois reais é o trocado que o artista de rua faz, mas isso vezes 500 é legal. O dinheiro que fazia na rua, eu reinvestia em meu trabalho", diz.

No Brasil, as experiências parecem ter sido menos recompensadoras: "Fiz na praia de Ipanema, foi horrível. Já me apresentei aqui no Ibirapuera, mas na segunda vez a polícia veio e falou que não podia". Silvia está hoje mais próxima dos teatros que das ruas, mas o aprendizado de rua é amplamente utilizado. As apresentações incorporam, segundo suas próprias palavras, acrobacias, comédia física, erotismo cômico, teatro burlesco, humor, malabarismo.

Um dos números ela faz pendurada num lustre. Noutro, evoca ao longe uma Yoko Ono tropical, ao simular uma relação sexual com um violoncelo que surge do alto. Canta uma música do repertório de Maysa, mas profanando-a como fariam os Mutantes: além de incluir interferências irônicas no som da canção de fossa, segura dois espelhos presos ao pescoço - e assim aparece ao público com três cabeças.

O humor é utilizado com eficácia em suas apresentações. "Meu nome é Silvia Machete. Que rima com floresta", sublinha, já despida da moita. Ao ter de repetir alguns números ao final do show, por conta da gravação do DVD, instiga o público a ir embora: "Eu não consigo ficar até o fim de um show, nem morta".

null"Estou afinada?", pergunta logo no início, numa indagação que poucos artistas teriam coragem de fazer, pelo risco de ouvir um "sim" como resposta galhofeira (ou não). Nesse momento, parece ter segurança de quem é, à parte as sucessivas brincadeiras autodepreciativas. Os recursos cênicos e a presença de espírito evidenciam que o palco é seu lugar, e de fato ela parece maior ao vivo que em disco - inclusive por cantar bem.

Das experiências nos palcos das ruas, Silvia transfere à música uma convicção: “Venho de uma escola na qual você tem de ser original. Não dá para copiar. Você pode se inspirar nos outros, mas não faz sentido fazer igual”.

Do alto de sua condição de exceção à regra de artistas trotarem em manadas, Silvia segue adiante em sua verve crítica: "Vejo tantas coisas que me fazem pensar que aquela pessoa ali não está nem um pouco conectada com ela mesma… Quanto mais parecido com algo que já existe você for, aqui ou lá fora, mais chance você tem de se dar bem. Ah, vão se f***r. Não sou conhecida, e, se for assim, não vou ser".

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