Show das três cantoras é episódio histórico da MPB

Ademilde da Fonseca, Baby do Brasil e Elza Soares proporcionam episódio raro no Sesc Vila Mariana

Pedro Alexandre Sanches, colaborador iG Cultura |

Carmen Miranda produziu Ademilde Fonseca, que criou Elza Soares, que pariu Baby do Brasil. Não há como Carmen participar do convescote, mas não existe nada mais natural que um sarau musical reunindo as outras três. Ainda que o encontro entre elas fosse breve, apenas no final com "Brasileirinho", uma corrente elétrica percorre, magnetiza e unifica as três apresentações. A plateia se comove com Ademilde, gargalha com Baby, vai às lágrimas com Elza ¿ a ocasião é rara, especialíssima, e ninguém ali ignora isso.

As cordas vocais cansadas de Ademilde pedem o auxílio de sua filha, Eimar Fonseca, que a ampara nos versos de "Odeon", "Carinhoso" e "O Que Vier Eu Traço", cantando em agudos tão virtuosos quanto os que a mãe costumava desenhar. O público percebe a delicadeza da situação e aquece Ademilde com fartos e calorosos aplausos. Na hora de sair do palco, Eimar puxa nervosamente a mãe, que só ao final pegou gosto pela situação e, desobediente, ensaia cantar mais uma. Eclode o "Tico-Tico no Fubá", que ficou célebre na voz de Carmen, mas era de Ademilde originalmente. Terminada a música, a rainha do choro deixa o palco sem olhar para trás, e Eimar tem de puxá-la mais uma vez, agora para que volte e perceba que o público a ovaciona de pé.

Luciano Trevisan

Baby do Brasil na passagem do som: todas as vertentes numa pessoa só

Baby vem em seguida e assombra a plateia logo de cara, com uma versão samba-rock-jazz-funk-choro matadora de "Ziriguidum". Elétrica, desnorteia a audiência a seguir, colocando numa cumbuca só as virtudes de show-woman musicalíssima e de popstora fervorosa. Baby parece desenvolver relação algo conflituosa, exasperada, com o palco, os músicos e a gente ¿ mas, ora bolas, não é o rocknroll uma espécie de religião, e não são os roqueiros em geral tão carismáticos e messiânicos quanto os pastores? Baby une as duas pontas, e paga um preço, mas deixa a plateia rendida com uma releitura envenenada de "Brasileirinho".

Antes de sair, conduz Elza Soares ao centro do palco, e aí é que a barra pesa de vez. Inconformada de ter de cantar sentada numa cadeira, semi-imobilizada, Elza coloca mais raiva e mais peso na voz e na interpretação na hora de cantar, gravíssima, que podem me prender/ podem me bater/ podem até deixar-me sem comer/ que eu não mudo de opinião/ daqui do morro eu não saio, não. Igualmente feroz, reformula o mote de "A Carne", de Marcelo Yuka e Seu Jorge, para a carne mais barata do mercado é a MINHA carne negra.

Enfezada, encerra a porradaria de "A Carne" incitando o público a chamá-la de negra, negra, negra. A minha voz é..., diz, e espera até que o coro responda: Negra!. Elza Soares é... Negra!, Minha mãe é... Negra!, Meu som é... Negro!. Elza é negra, e é mulher, como as duas companheiras de jornada. As marcas impressas no corpo e na alma de cada uma delas evidenciam que não é tarefa das mais fáceis ser mulher no seio da supostamente cordial MPB. Nesta noite, no entanto, todas elas foram aplaudidas de pé, por convicção e não por convenção. Talvez poucos fiquem sabendo, mas quem esteve lá sabe que viveu um episódio histórico, grandioso, dessa altiva senhora chamada música popular brasileira.

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