Show conjunto de Caetano e Gadú evidencia distância entre os dois

Turnê estreou em Salvador no início do mês e chegou a São Paulo nesta quarta-feira

Augusto Gomes, iG São Paulo |

Jorge Rosenberg, especial para o iG
Caetano Veloso e Maria Gadú juntos em São Paulo
Caetano Veloso e Maria Gadú são artistas bastante diferentes, e a turnê conjunta da dupla, que estreou em Salvador no início do mês e chegou a São Paulo nesta quinta-feira, deixou essa desigualdade bem evidente. Gadú faz uma música mais simples, de comunicação quase imediata com o público, e criou uma persona no palco que usa a timidez para conquistar a plateia. Já Caetano é múltiplo, que vai do popular ao sofisticado, do doce ao agressivo, do caloroso ao distante. E boa parte dessas facetas não funciona ao lado de Gadú.

Fotoshow: veja imagens da apresentação de Caetano Veloso e Maria Gadú em São Paulo

A performance de ontem começou com os dois juntos no palco, interpretando "Beleza Pura", composta por Caetano em 1979. Depois, cada um fez um bloco sozinho: primeiro Gadú, que fez a plateia cantar junto com ela canções como "Tudo Diferente" e "Laranja". Após uma interpretação um tanto nervosa de "Podres Poderes", ela recebeu Caetano de volta ao palco e os dois cantaram "O Quereres" e "Sampa". O cantor então ficou sozinho e interpretou desde clássicos ("Alegria Alegria") até músicas mais recentes ("Odeio").

Jorge Rosenberg, especial para o iG
Caetano Veloso
O bloco de Caetano foi tenso. Começou com duas canções mais obscuras ("Milagres do Povo" e a bela "Jenipapo Absoluto"), que dispersaram a atenção de um público já bastante desatento. Ele então tentou ganhar a plateia de volta com "Odeio", um dos pontos altos de suas duas últimas turnês com a banda Cê. O problema é que o público do Via Funchal, mais velho, claramente não conhecia o Caetano roqueiro de seus dois últimos discos ("Cê" e "Zii e Zie"), e até se sentiu incomodado com alguns versos mais agressivos da música. Quanto ele pediu para o público cantar o refrão junto, foi ignorado.

Ele então teve que apelar para os sucessos. O primeiro foi "Desde que o Samba É Samba", obra-prima do álbum "Tropicália 2" (1994) em que o cantor finalmente foi acompanhado pela plateia. Em seguida, foi "Sozinho", de Peninha, um dos exemplares mais significativos dos flertes de Caetano com a música mais popular. O bloco solo terminou com "Alegria Alegria" ("fiz essa música quando tinha 24 anos, a mesma idade da Maria Gadú", disse o músico) e pronto, o público já estava nas mãos do cantor e pronto para a volta de Gadú ao palco.

Jorge Rosenberg, especial para o iG
Maria Gadú
Ao ver os dois juntos, ficou claro que estar ao lado de Caetano Veloso faz muito bem para Maria Gadú. Afinal, as composições dele são muito melhores que as dela e é bom ouvir a boa voz não ser desperdiçada com bobagens. Já no caso de Caetano, é difícil ver o que ele pode tirar de bom dessa parceria. Comparado com seus últimos espetáculos, esse é um passo atrás: conservador, retrospectivo, desinteressado. De realmente surpreendente, só a versão de "Trem das Onze", de Adoniran Barbosa: mais lenta, com um inesperado tom mórbido, foi o ponto alto da noite.

Foi o único momento de todo o show em que Caetano não pareceu preso pelas limitações de sua companheira de palco. O resto (além de "Trem das Onze", eles ainda cantaram "Vaca Profana" e "Rapte-Me Camaleoa" e, no bis, "Nosso Estranho Amor", "Vai Levando" e "Menino do Rio) foi morno, não muito melhor do que se ouviria num bar de música ao vivo. O clima no Via Funchal, aliás, era bem esse, com garçons andando entre as mesas e o público conversando em voz alta tranquilamente.

    Leia tudo sobre: Caetano VelosoMaria Gadú

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG