Sérgio Mendes e o fim da canção

Para o cantor, radicado nos Estados Unidos desde os anos 60, não se fazem mais melodias como as de Tom, Milton e Baden

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

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Mendes e o instrumento de trabalho: "Sempre coloquei o nome do Brasil nos meus grupos"
A seguir, Sergio Mendes comenta reações brasileiras à sua música internacional e conta sobre o carpinteiro Harrison Ford. Fala sobre suas relações com Stevie Wonder e a música negra em geral e revela que tem ascendência africana.

São recorrentes desde Carmen Miranda as críticas aqui, tipo “disseram que voltei americanizada”. O Brasil torceu o nariz para você?
No início existiu uma resistência, por parte da critica especializada, nunca por parte do público brasileiro. Diziam: “O que é isso, o cara tocando música em inglês?”. Mas a ironia é que Mas Que Nada foi a única vez que uma música brasileira estourou no mundo cantada em português, e depois se repetiu a mesma coisa, em 2006. É impossível argumentar com isso, né?

A mistura de repertório é uma das coisas mais originais do seu trabalho, vai de Jorge Ben a Beatles, de Edu Lobo a Stevie Wonder.
São as melodias, é a primeira coisa em que penso quando vou fazer um disco. Começa com a canção e termina com a canção. Se não tiver grandes canções como as de Tom Jobim, Baden Powell ou Milton Nascimento, você não tem nada. Hoje sinto que existe um vazio, uma falta de grandes melodias. É uma crise mundial. Por isso tenho um enorme prazer em revisitar essas canções, para que toda uma nova geração, no Brasil e no resto do mundo, conheça essas joias da MPB.

O show que você fez no Maracanãzinho em 1969 ficou famoso por Wilson Simonal ter feito mais sucesso que você, que era o artista principal…
Foi uma noite maravilhosa. Não só tinha Simonal, como Gal Costa e outros artistas também. Simonal era o cara da época, né? Mas o nosso show foi excepcional também.

Foi por sua intermediação que Stevie Wonder cantou e gravou Sá Marina (sucesso de 1968 com Simonal) em inglês (em1970)?
Decidimos botar uma letra em inglês, e Pretty World virou um grande sucesso. Duas músicas que Stevie Wonder adorava eram Sá Marina e Você Abusou, que também gravei. Ele era um grande fã e amigo, é até hoje. Queria cantar em português, fiz uma letra para ele no disco Fulfillingness’ First Finale (1974). Stevie adorava e adora a música brasileira, e fez duas músicas para mim nessa época, The Real Thing e Love City. Veio ao estúdio, participou da gravação, tocou clavinete, cantou. Por curiosidade, quando eu estava gravando Timeless, 30 anos depois, ele estava no estúdio ao lado, e disse: “Amanhã vou trazer minha gaita e fazer um solo”. Que maravilha, mais uma vez a arte do encontro.

Como conheceu Stevie Wonder?
Eu tinha uma cantora na minha banda que se chamava Marietta Waters. Ela era namorada de Michael Sembello, um guitarrista fantástico, que me levou para conhecer a banda de Stevie. Sembello tocava com Stevie, antes de escrever Maniac (sucesso pop mundial de 1983). Ele gravou em vários discos meus também. Acabou casando com minha outra cantora (ri).

São fortes suas ligações com a soul music e a música negra em geral, não?
Toda música que veio da África, não só para o Brasil como para Cuba, foi uma grande contribuição – para o jazz norte-americano, para o nosso samba, para o maracatu. Para mim, onde existiu África no início da formação de um país, a música é muito interessante. Quando nasci já ouvia os batuques em Niterói, cresci com o samba na veia. Meu avô José Augusto Mendes, pai de meu pai, era um negro. Do lado da minha mãe são portugueses, então é o clássico, português com negro. Também isso deve ter contribuído muito para eu me identificar com essa música.

Os discos Ye-Me-Le (1969) e Raízes (1972) eram impactantes, cheios de referências ao candomblé, à África.
Exato. Raízes foi a primeira vez que fiz um disco no meu estúdio, que eu tinha acabado de construir na minha casa aqui em Los Angeles. Aliás, quem constriui foi o Harrison Ford. Ele era o carpinteiro, ainda não tinha começado como ator, foi um pouquinho antes. Ficou um ano e meio trabalhando lá em casa, com os amigos dele. Na hora do almoço ele estava sempre lendo os scripts, mas é difícil você falar que alguém vai ser ator. Mas Raízes foi a primeira vez que fiz um disco na minha casa, no meu quintal, então resolvi fazer uma coisa voltada às raízes mesmo.

Você foi um dos descobridores do Carlinhos Brown?
Eu trabalhava com um percussionista chamado Meia-Noite, que era baiano e cresceu com Carlinhos Brown no Candeal. Falava muito dele, e um dia perguntou se ele podia me telefonar. Carlinhos me ligou às duas horas da manhã, eu não sabia quem ele era, e começou a cantar uma música que fez para mim. Achei genial, fui à Bahia especialmente para conhecê-lo. Quando cheguei, estava com a Timbalada toda na rua tocando aqueles tambores. Fiquei fascinado, convidei Carlinhos para fazer parte do Brasileiro (1992). Veio para cá, gravei quatro ou cinco músicas dele.

Por que ficou dez anos sem gravar, de 1996 a 2006?
Pois é, não sei exatamente por quê. Uma hora você tem que der uma parada. Estava realmente sem inspiração, sem nenhuma motivação. Continuei fazendo shows pelo mundo inteiro, e toda vez que pensava em gravar via que não tinha uma ideia. E de repente conheci o will.i.am. A gravadora dele me ligou, dizendo que queria vir aqui em casa. Eu também não sabia quem era ele. Meus filhos começaram a me gozar: “Papai, como você não sabe? Black Eyed Peas!”. Tocou a campainha, abri a porta, ele estava segurando uma porção de discos antigos meus, de vinil, discos instrumentais lá de trás. Ele disse: “Nasci aqui em Los Angeles, nos projects”, que são uma espécie de favela daqui, “cresci ouvindo a sua música, conheço tudo que você tocou. Você não tem ideia, os rappers, todo mundo, Q-Tip, John Legend, o pessoal adora o que você faz”. Falei “pô, não é possível”.

Surpreendeu você?
Muito, me surpreendeu e me emocionou, né? Como é que esse cara, da idade dele, conhece tudo que eu fiz? E a razão da visita era que queria me convidar para tocar no disco Elephunk (2003). Botei um solo de piano, e adorei o jeito maneiro de ele fazer música. Por coincidência, era Insensatez, do Tom Jobim. Quando voltei para casa falei para Gracinha: “Acho que vou começar a gravar de novo”. Perguntei se gostaria de coproduzir um disco comigo, ele disse: “É o sonho da minha vida”. Daí saiu o Timeless, de novo um encontro, um encontro inesperado. E, depois de não gravar por dez anos, o disco vendeu mais de 1 milhão de cópias no mundo inteiro. Fizemos um show juntos, eu não conhecia India.Arie, Jill Scott, Justin Timberlake. De repente você não sabe da dimensão do seu trabalho, e tem pessoas no resto do mundo que curtem, como Juanes, aí na América do Sul, ou Jovanotti, na Itália, jamais iria pensar nisso. Todos têm metade da minha idade.

Você entende por que os rappers se identificam com a sua música?
Olha, eu acho que são as melodias. No mundo do hip-hop não existem assim grandes melodias e harmonias. Quando você canta “ariaraiô, obá, obá, obá”, o mundo inteiro reconhece e sabe que é Mas Que Nada. Tem toda uma nova geração que possivelmente não teria escutado essas grandes canções da música popular brasileira, Baden Powell, Jobim, Donato...

Poderiam ter ido às próprias fontes, mas encontraram por seu intermédio. Tem também algo que pertence a você atraindo eles, não?
Deixo você fazer esse comentário…

Quais são suas lembranças sobre Niterói?
Éa minha terra, o começo de tudo, onde aprendi a tocar piano, jogava bola na praia de Icaraí, mais tarde tomava a barca para ir para o Beco das Garrafas. Não tinha a ponte, eram 45 minutos de barca. Essa foi a minha primeira partida. Depois era tomar um avião para ir para São Paulo. Depois outro avião para Nova York. E aí não parou mais.

E como é viver perto dessa indústria gigante do cinema que é Hollywood?
Usam à beça minhas músicas em filmes, sempre. Estou fazendo agora a música para um filme, uma animation da Fox que se passa no Rio de Janeiro, que aliás tem um diretor brasileiro, Carlos Saldanha. Sou o produtor musical executivo, chama Rio, vai sair em abril de 2011. Eles fizeram A Idade do Gelo, é um filme importante. É também a primeira vez que faço esse tipo de trabalho, estou adorando. Adoro cinema, desde Niterói. Era garoto quando vi pela primeira vez Os Sete Samurais, do Akira Kurosawa, e fiquei fascinado. Agora vou ao Japão todo ano, encontrei o filho dele, que me disse que Kurosawa era meu fã, imagina você, e me deu uma gravura do pai, uma storyboard do filme Ran. Essas coisas são fantásticas.

Quantos filhos você tem?

Tenho cinco. Três do primeiro casamento, Rodrigo, de 46 anos, Bernardo, de 44, Isabela, de 41. Depois tenho com a Gracinha o Gustavo, de 23, e o Tiago, de 17.

Gracinha Leporace chegou a fazer disco solo aqui no Brasil nos anos 60…
Sim, ela cantava num grupo chamado Grupo Manifesto, que foi muito importante. Veio para cá em 1968, para cantar no Brasil ’66, e desde então participa das minhas gravações. Faz show também, não é constante por causa dos filhos, não dá para viajar toda hora. Mas foi ela quem ensinou todas as vocalistas a cantarem em português. Fazer cantora que não fala em português cantar em português, sem sotaque, é complicado. É dona Gracinha quem quem cuida desse departamento (ri).

Elas têm algum sotaque, a gente sabe que não são brasileiras cantando. É um charme a mais? Você não poderia chamar cantoras braslleiras?
Podia, mas é complicado. Já tem uma, que é a melhor, a Gracinha, trazer outra brasileira complica (ri)… Mas tive cantoras na banda que viraram famosas, como Diane Reeves, que começou comigo, e a Siedah Garrett, que fez The Man in the Mirror com Michael Jackson.

Como você vê a percepção geral sobre o Brasil no mundo hoje?

Acho que não é só agora, o Brasil foi sempre respeitado no mundo, não só pela música e pelo futebol, como também pela beleza do país, das mulheres, o calor humano das pessoas. E hoje é um país um sucesso enorme na área econômica. É uma democracia, um país estável. Acho que devemos nos orgulhar disso. Eu me orgulho, sempre coloquei o nome do Brasil nos meus grupos.

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