Selo independente recupera discos raros de Elza Soares

Álbuns produzidos nos anos 1970 pela gravadora independente Tapecar voltam às lojas

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Augusto Gomes
Elza Soares em 2009
No início dos anos 1970, formou-se um congestionamento de mulheres sambistas na gravadora Odeon. Elza Soares, contratada do selo desde 1959, assistia à conversão da até então romântica Clara Nunes ao samba. Beth Carvalho, revelada na década anterior como cantora de bossa nova, estreara na casa em 1969 sob o rótulo de cantora de festivais, por conta da toada "Andança", mas também ambicionava aderir ao mais brasileiro dos ritmos.

Com Clara plenamente ascendente a partir de 1971, restou pouco espaço na Odeon para a sambista noviça Beth ou mesmo para a pioneira Elza. Quem percebeu a brecha foi um espanhol chamado Manolo Camero, que abrira no Brasil uma gravadora chamada Tapecar, inicialmente destinada a editar aqui títulos do selo norte-americano de black music Motown, de nomes como Stevie Wonder, Diana Ross, Temptations, Jackson Five e o pequeno Michael Jackson.

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Capa do disco "Elza Soares" (1974)
Manolo parecia querer demonstrar que o samba era a “black music brasileira”, e começou a montar um forte catálogo do gênero, que no entanto permaneceu à sombra após o fechamento da Tapecar, ainda nos anos 70, em grande medida porque o selo estava à margem do circuito das multinacionais do disco. Ele próprio se tornaria adiante um alto executivo da grande indústria fonográfica.

Uma iniciativa tão independente como foi a Tapecar no passado começa a recolocar em circulação agora o legado da gravadora. O selo Discobertas, do jornalista e pesquisador carioca Marcelo Fróes, acaba de reeditar em CD as obras completas de Beth e Elza no selo, e promete aprofundar o resgate nos próximos meses. “Vamos reeditar, com faixas bônus de compactos, o lendário LP Poxa, do cantor e compositor de samba Gilson de Souza, e também discos de Novos Baianos, Bezerra da Silva e possivelmente Candeia e Xangô da Mangueira”, conta Marcelo.

O catálogo de samba da Tapecar contava ainda com títulos de Mano Décio da Viola, Partido em 5, Noite Ilustrada, Dora Lopes, Tom & Dito, Zé Di e Cesar Costa Filho. Curiosamente, os dois álbuns de estreia de Bezerra da Silva que a Discobertas promete relançar não são de samba – pernambucano, Bezerra debutou em disco em 1975 sob o codinome de “o rei do coco”.

“Com a fortuna que os discos de Stevie Wonder e Jackson Five lhe proporcionaram, a Tapecar começou a trabalhar num cast próprio, e no início dos anos 70 contratou Beth Carvalho e Elza Soares, entre outros”, Marcelo resume a história. Para Beth, ele formatou a caixa "Primeiras Andanças – Os 10 Primeiros Anos", que compreende os três LPs da artista na Tapecar, "Canto por um Novo Dia" (1973), "Pra Seu Governo" (1974) e "Pandeiro e Viola" (1975), mais dois surpreendentes CDs de raridades gravadas entre a fase de transição nas antigas RCA e Odeon (hoje EMI) e o final da era Tapecar.

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Capa do CD "Pra Seu Governo", de 1974
O pacote inclui alguns dos primeiros grandes sucessos da Beth sambista, como "Folhas Secas" (1973), "1.800 Colinas" e "Maior É Deus" (1974) e "Pandeiro e Viola" (1975). De modo geral, já se apontavam rudimentos da porta-voz do partido alto de fundo de quintal que Beth se tornaria na década de 80. Mas ela contava, também, com o apoio de nomes da nobreza do samba dito de raiz – principalmente seu padrinho Nelson Cavaquinho, mas também Guilherme de Brito, Monarco, Ivone Lara, Darcy da Mangueira e os mais jovens Martinho da Vila, João Nogueira, Paulo César Pinheiro (futuro marido de Clara Nunes) e Eduardo Gudin.

A trajetória de Elza Soares anos 1970 adiante foi mais sinuosa. Diferente de Beth, ela parecia isolada após o rompimento com a Odeon. Abriu a fase Tapecar com um gigantesco sucesso, "Salve a Mocidade", impulsionado pela inclusão numa trilha de novela da Globo, mas logo viu seu campo de ação encolhido na escolha de compositores e no sucesso comercial que obteria. Os discos "Elza Soares" (1974), "Nos Braços do Samba" (1975), "Lição de Vida" (1976) e "Pilão + Raça = Elza" (1977), relançados de modo avulso e com abundantes faixas-bônus, eram pautados principalmente pela presença de autores pouco conhecidos. Entre esses, despontariam futuramente Gilson de Souza, Jorge Aragão e a dupla Romildo e Toninho (que frequentaria as paradas de sucesso na voz de Clara, nos clássicos "Conto de Areia" e "A Deusa dos Orixás").

Desde a capa do primeiro LP Tapecar, a rivalidade com Clara dava as cartas. Elza aparecia de turbante e trajes afro, numa simbologia que remetia diretamente ao candomblé. A principal tranformação acontecia no som: a influência jazzística predominante nos anos Odeon era substituída por uma africanidade plena de garra e energia, em títulos como "Deusa do Rio Niger", "Xamego de Crioula", "Giringonça", "Meia-Noite Já É Dia", "Partido do Lê Lê Lê" e "Louvei Maria". Não chegavam a ser samba-rock, outra moda daqueles anos, mas tinham uma originalidade híbrida, certamente reforçada pela presença do homem-baile Ed Lincoln na construção de todos os discos de Elza na Tapecar.

A “afro-Elza” seguiu soberana nessa fase, em sambas temáticos como "Viagem de Jangada", "Lendas e Festas das Yabás" (1975), "Rainha dos Sete Mares", "Curumbandê" (1976) e "Aldeia Di Okarimbé" (1977). Não produziu sucessos de massa além de dois temas carnavalescos de 1974, "Salve a Mocidade" e "Bom-Dia, Portela", talvez em parte devido à marginalidade do projeto Tapecar. Mas legou quatro dos maiores discos brasileiros daquela década, sobretudo aquele Elza Soares de 1974.

O resgate da artista pela Discobertas não se encerra por aí. Abrange também dois dos (apenas) três discos lançados pela cantora na década de 1980, "Somos Todos Iguais" (1985) e "Voltei" (1988), ambos pertencentes ao acervo da Som Livre, a gravadora da Globo. Voltei apresenta Elza algo aprisionada no gênero fundo de quintal, em gravações de partidos altos (inspirados) de Nelson Rufino, Noca da Portela, Beto sem Braço, Arlindo Cruz e Sombrinha. Era o impalpável “mercado” tentando readequar Elza às fronteiras bem demarcadas do samba, após a ousadia que havia sido "Somos Todos Iguais".

Na embalagem do injustamente desprezado disco de 1985, Elza aparecia de perucão black power e pernas de fora, como a sinalizar uma nova virada. Eram tempos de sucesso estrondoso de Tina Turner, e a intenção parecia ser moldar um duplo nacional da diva sexy e madura, dona de vozeirão negro incomparável.

O lado marqueteiro não funcionou e a Tina Turner brasileira não chegou a alçar voo, mas, como de hábito, Elza não era capaz de entregar trabalhos inconsistentes. "Somos Todos Iguais" misturava partido alto, jazz ("Sophisticated Lady", de Duke Ellington, em dueto com Caetano Veloso), parceria de Martinho da Vila com João Donato ("Daquele Amor, Nem Me Fale"), rock ("Milagres", de Cazuza e Frejat) e uma versão pungente e alucinante do samba-enredo "Heróis da Liberdade", de Mano Décio e Silas de Oliveira. O caminho ainda não estava livre para Elza – talvez nunca tenha estado. Intuitiva, ela seguia produzindo obras de arte.

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