Rufus Wainwright tira o fôlego e emociona público em São Paulo

Marco Tomazzoni |

Quando Rufus Wainwright subiu ao palco na noite de ontem, em São Paulo, carregava as expectativas do público diminuto que foi ao Via Funchal ver o segundo show do canadense no Brasil: a de um cantor dotado de voz poderosa, ícone gay e com predileção pelo drama da ópera e grandiosidade da música norte-americana das décadas de 1940 a 1960. Mesmo despido das cordas e orquestra que geralmente adornam suas canções nos discos, ele não só fez o que se esperava, mas foi além, deixando muitas vezes a platéia com a respiração suspensa.

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Sem muita cerimônia, Rufus adentrou o palco depois de uma pequena apresentação de sua irmã, Martha, que tocou algumas músicas de seus dois álbuns acompanhada pela marido, Brad Albetta, no baixo acústico. A entrada de Rufus pode ter sido discreta, embora o figurino não fosse muito ¿ paletó xadrez, broche e colar de brilho intenso e camisa aberta quase até a barriga. Enquanto parte dos espectadores ainda chegava ao Via Funchal e procurava seus lugares, ele sentou ao piano e iniciou o show com "Grey Gardens", de seu segundo disco, Poses , que até hoje, mesmo quatro álbuns depois, permanece seu trabalho mais conhecido.

Ao fim da música, Rufus emendou "This Love Affair", que ilustra muito bem uma de suas facetas. Cheia de dor e desilusão, foi perfeita para ele mostrar a dramaticidade que tanto gosta, amparado pelo vocal, que impressiona ao vivo, pelo perfeito domínio do piano e pelos gestos exagerados. Por estar exposto, sozinho no palco, tudo isso apareceu com muito mais força do que em estúdio, revelando um intérprete carismático, próximo de seu auge.

Por outro lado, pouco depois se sobressaiu aquele que parece ser o Rufus no dia-a-dia. Simpático, bem humorado, superou um nervosismo evidente (e que não combina com sua postura de showman) para mostrar, ao violão, a lírica "Sanssouci". Atrapalhado pelos telões ("Uma vez na Austrália me peguei olhando pra eles o tempo todo, foi um desastre"), recomeçou a faixa do início. O clima de paquera que reina na música talvez seja o motivo de atribuir a ela o adjetivo de "totalmente brasileira", mas ele deixou as entrelinhas a cargo a platéia.

Apesar do espetáculo ainda seguir com belos momentos pop, como "California" (em que ele improvisou uma guitarra no vocal) e "Cigarettes & Chocolate Milk", a última antes do bis, a noite foi mesmo de drama, o que contrastava com a descontração do canadense. A dedicação de Wainwright era tanta que a platéia, em silêncio absoluto, acompanhou hipnotizada canções como "The Art Teacher", "Not Ready to Love" e "Going to a Town", libelo anti-americano incluído em Release the Stars , do ano passado. Sublime.

As duas vertentes se uniram em "If Love Were All", em que, contando com a presença da mãe, Kate McGarrigle, ao piano, ele pôde se soltar para interpretar com garbo o clássico de Judy Garland, presente no tributo Rufus Does Judy at Carnegie Hall , que recriou o lendário espetáculo da diva norte-americana.

A mãe ainda continuou no palco para cantar, ao lado dos dois filhos ¿ Martha participou também ¿ e do cunhado, uma homenagem à América do Sul numa versão esforçada de "Manhã de Carnaval", de Luiz Bonfá e Antonio Maria, que já havia aparecido no setlist do Rio de Janeiro. Mesmo triste e até fantasmagórica, a música do filme "Orfeu" foi um dos grandes momentos do show.

Os aplausos generosos e apaixonados que precederam o bis fizeram com que Rufus não demorasse muito para voltar ao palco. Surpreso pela receptividade do público paulistano, cantou outras três músicas, duas delas ao lado da família: "Hallelujah", de Leornad Cohen, conterrâneo de Montreal, e "Over the Rainbow", outro standard de Judy Garland. Mais palmas se seguiram e Rufus retornou mais uma vez, agora sozinho, para fechar o show em grande estilo com "Foolish Love", de seu trabalho de estréia.

O canadense se apresenta neste sábado em Belo Horizonte, no Freegels Music, e encerra a viagem pelo Brasil na terça-feira, em Brasília, no Auditório do Planalto.

Veja abaixo a lista de músicas do show.

"Grey Gardens"
"This Love Affair"
"Beauty Mark"
"Sanssouci"
"Rebel Prince"
"California"
"Not Ready To Love"
"The Art Teacher"
"Who Are You In New York" (nova)
"Matinee Idol"
"Nobody's Off The Hook"
"In My Arms"
"Manhã de Carnaval"
"If Love Were All"
"Going To A Town"
"Little Sister"
"Zebulon" (nova)
"Cigarettes & Chocolate Milk"
BIS
"Poses"
"Hallelujah"
"Over the Rainbow"
"Foolish Love"

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