Rômulo Fróes: 'Minha geração é das melhores da história da MPB'

Cantor e compositor fala sobre recente cena de músicos brasileiros e comenta seu novo disco, 'Um Labirinto em Cada Pé'

Tiago Agostini, especial para o iG | 09/07/2011 09:10

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"Agora é a hora de falar de música", diz Rômulo Fróes, confortavelmente sentado em uma poltrona na sala de sua casa no bairro da Pompeia, em São Paulo.

Reconhecido nos últimos anos como a voz da nova geração da MPB independente por suas ideias claras sobre a cena musical, o cantor inaugura uma nova fase na carreira ao lançar seu quarto disco, "Um Labirinto em Cada Pé", com uma confiança que nunca teve antes. "Tinha o disco pronto nas minhas mãos há um ano e meio, mas não tive ansiedade de lançar. Estava muito claro para mim que o disco é esse", comenta.

Foto: Fernanda Prado/Divulgação

O cantor e compositor Rômulo Fróes, que lança 'Um Labirinto em Cada Pé'

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Pela primeira vez Rômulo se dedica exclusivamente à carreira de músico. Ao final da Bienal de São Paulo do ano passado, ele deixou seu trabalho de assessor do artista plástico Nuno Ramos para "ver qual é a dessa história de viver de música". O disco novo também marcou uma participação menor dos parceiros Nuno e Clima durante o processo de gravação. "Mas continuamos compondo juntos."

O resultado é o trabalho mais coeso da carreira de Rômulo. Se "No Chão, Sem o Chão", o álbum duplo anterior, atirava para diversos caminhos sonoros, com a guitarra de Guilherme Held à frente, "Um Labirinto em Cada Pé" é um disco de banda, melhor arranjado. Dosando os experimentalismos sem abrir mão deles, o cantor consegue dar um formato de canção às suas boas composições, tornando-as mais pop e acessíveis.

Assumindo-se como não-músico, Rômulo trabalha como um alquimista da canção, um pesquisador que utiliza os elementos da história da música brasileira para testar os limites dos formatos tradicionais e criar uma estética própria. Com uma banda cada vez mais afiada (completam a formação Rodrigo Campos no cavaquinho, Marcelo Cabral no baixo, Thiago França no saxofone e Pedro Ito na bateria), o cantor se propõe a revolucionar a canção brasileira. "Pago o preço de verbalizar isso, mas beleza, pode dizer que eu não consegui, eu vou continuar. Mesmo que eu não consiga, acho que já fiz uma música relevante."

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Focado 100% na vida musical, Rômulo se divide entre a divulgação de "Um Labirinto em Cada Pé" e novos projetos, como programas de televisão e rádio, o primeiro álbum do projeto Passo Torto e a ajuda na produção do disco do parceiro Rodrigo Campos. Com tantas coisas acontecendo, ele não se preocupa com um próximo trabalho, apesar de revelar que possui algumas músicas inéditas. "Discos surgem naturalmente. Mas pela primeira vez, de partida, não vou ter questões não resolvidas. Estou satisfeito com 'Um Labirinto em Cada Pé'."

Neste sábado, o cantor se apresenta no Oi Futuro Ipanema (r. Visconde de Pirajá, 54, Rio de Janeiro), às 21h. Os ingressos custam R$ 15 e podem ser adquiridos na bilheteria do local. Abaixo, a entrevista ao iG.

Foto: Pedro Spagnol/Divulgação Ampliar

O cantor Rômulo Fróes

iG: Como está o novo show?
Rômulo Fróes:
Está curioso, porque agora tem o Thiago França, saxofonista, que toca com o Kiko (Dinucci), na formação, e eu estava muito curioso em como ele ia encaixar com o Guilherme Held (guitarrista). No disco o Thiago está bem comportado, arranjadinho, entra nos momentos pontuais, mas no show... São dois pavões, dois solistas, mas deu tudo certo.

iG: Mas o Guilherme está contido no disco, não?
Rômulo Fróes:
É, acho que o Rodrigo (Campos, cavaquinho) deu uma enquadrada nele, no melhor dos sentidos. Isso até é ponto positivo para o Gui, mostra o tamanho que ele tem. As pessoas cometem o erro de pensar que ele é só um solista, só um guitarrista virtuoso. Ele é um grande compositor antes de tudo. Era engraçado, as pessoas vinham falar comigo coisas como "você precisa conversar com seu guitarrista, ele é muito exibido", mas fui eu que mandei ele ser exibido. Ele tinha lugar de destaque no outro disco, nesse acho que a banda é o destaque, o conjunto.

iG: "Um Labirinto em Cada Pé" me parece mesmo um disco de banda.
Rômulo Fróes:
É um disco mais coeso, mais pensado, com um vocabulário próprio. O último é uma loucura, mas mesmo os discos de samba ["Calado", de 2004, e "Cão", de 2006], apesar de terem o samba como fio condutor, eram menos compreensíveis. Esse tem uma coisa assertiva, as músicas batem uma na outra, elas não se interrompem. Tirando a Dona Inah no abre-alas [a música "Olhos da Cara"] e a última música, que dá nome ao disco. As duas pontas do disco são importantes para isso, são dois Rômulo Fróes. Primeiro a Dona Inah numa música à capela, uma canção tristíssima. E "Um Labirinto em Cada Pé" é uma música toda lírica, com clarinete, baixo acústico com arco, uma canção muito sofisticada. Essas duas pontas dão a volta no meu trabalho anterior. A parte lírica dos dois primeiros discos era muito devedora do Nelson Cavaquinho, do Cartola. Agora ela já não deve nada, tem algo a mais.

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iG: O disco tem umas partes bem funkeadas.
Rômulo Fróes:
É, os timbres secos. Eu brinco que isso pode ser um bom manancial para rappers. Por exemplo, "Máquina de Fumaça", que eu já sugeri para o Criolo [cantor e rapper paulistano] improvisar em cima. Em outra linha, teve alguém que associou o disco a uma MPB dos anos 1980, e eu achei interessante, apesar de ser a pior década da MPB. Achei interessante que quando uni tudo que fiz nos outros discos talvez tenha virado MPB. E, pretensiosamente falando, talvez tenha virado MPB boa. A banda está muito bem arranjada, as músicas têm partes definidas.

iG: No ano passado, você disse que o disco poderia chamar "Rômulo Fróes", porque seria o disco com a sua cara. Mas acabou não chamando.
Rômulo Fróes:
É, mas minha cara inclui ter um título poético, ter obra de arte na capa. "Rômulo Froes" é um título que fala pouco, "Um Labirinto em Cada Pé" revela muito sobre meu trabalho. É uma espécie de complemento do "No Chão, Sem o Chão". Faz parte do pacote, porque é um nome pomposo, pretensioso, e tem obra de arte na capa, mas eu sou isso. Mesmo o lado intelectual, porém, está mais domesticado no disco, a experiência com banda foi determinante. É um disco meio sem dúvida, as músicas são essas. Eu achava que para fazer arte era preciso conflito, mas o disco aconteceu naturalmente. O conflito que existe nele existe desde que eu comecei a fazer música.

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iG: Quais conflitos?
Rômulo Fróes:
Essa coisa de fazer samba no começo da carreira, mas eu não era sambista - e por outro lado eu amava isso, aí danava fazer arranjos esquisitos para músicas que pareciam antigas. Aí eu usei a guitarra do Lanny [Gordin] no segundo. Me chamaram de sambista, eu fiquei puto, aí fiz um disco atirando para todos os lados. Tinha a minha incapacidade técnica de fazer canção, porque meu violão era muito limitado e limitava a minha capacidade de fazer melodia, aí passei a fazer melodia sem o violão. E comecei a fazer canção com músico. A cada hora tinha uma coisa nova. Tudo isso que sempre determinou os discos não esteve presente nesse.
E parei de trabalhar com o Nuno desde a última Bienal, resolvi viver de música. Chegou a hora de falar de música. Dez anos depois, todos nós incluídos na cena, jornalistas, fotógrafos, músicos, técnicos, todo mundo amadureceu. Não à toa saem discos tão bons. Vivemos o começo de uma nova era. Mesmo quem lança o primeiro disco hoje em dia, como a Tulipa [Ruiz] ou o [Marcelo] Jeneci, já vem com um estofo.

Foto: Everton Ballardin/Divulgação

Rômulo Fróes

iG: Como foi o processo de gravação do disco?
Rômulo Fróes:
O disco estava pronto em março do ano passado. Foi rápido de gravar. Aí não tive tempo para mixar. Trabalhei que nem um débil mental com o Nuno no ano passado, porque era minha despedida. Foram 50 dias só no prédio da Bienal com os urubuzinhos, e ainda deu toda aquela merda, você não sabe o quanto eu fiquei puto. Quando passou a Bienal, era final do ano e eu não ia lançar o disco. Tenho ele pronto há um ano e meio e não tive ansiedade nenhuma, porque tinha certeza sobre ele.

iG: Acha que é um disco menos irônico?
Rômulo Fróes:
Nenhum disco meu é irônico, não gosto de ironia. Entendo que, até pelas letras, eu possa soar irônico, mas a intenção é ser sério. Eu acredito em tudo mesmo, acredito na canção brasileira. É pretensioso, e eu aceito ser tachado disso. Sou mesmo, no melhor sentido da palavra, não quero aceitar que a canção acabou. Entendo os argumentos (de quem diz que a canção brasileira morreu), mas eu quero colocar ela pra frente. Não dá pra ser irônico.

iG: Você acha que a pretensão foi demonizada?
Rômulo Fróes:
[Longa pausa] É muito difícil dar conta de um projeto de renovar a canção brasileira, é ate uma idiotice, porque se você não conseguir fazer isso - o que é altamente provável - você vai ser cobrado. O Chico Buarque talvez tenha razão, a canção como a gente conhece não presta mais, apesar de o próprio Chico estar mudando ela nos últimos discos. O Chico, aos 70 anos, está botando um desafio para si. E são os desafios que me levam a gravar discos.
Se comparar com a história da música brasileira é difícil. É por isso que nossa geração não lida com a música de massa, podemos fazer os discos em casa, tocar pros amigos, todo mundo toca entre si, convive, e aí as pessoas vão se protegendo dessa responsabilidade. Talvez a gente tenha o tamanho que tem por não estar disposto a pagar um preço tão alto.
Por outro lado, isso gerou uma nova canção, um sentimento de não querer pertencer a nada. Minha questão é que eu não sou músico, então eu preciso me cercar da história da música brasileira para tentar fazer uma canção nova. Vou conseguir? Não sei. Eu pago o preço de verbalizar isso, mas beleza, pode dizer que eu não consegui, eu vou continuar. Mesmo que não consiga, vou ter feito uma música relevante. Acho que isso eu já fiz. Ela pode não ser nova, mas que é relevante, é.

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iG: Como está a vida nova de músico?
Rômulo Fróes:
Não está ainda (risos). Como não sou músico, não posso sair de casa e ir tocar numa "gig". Agora tem lançamento do disco, então vou ganhar uma graninha. Mas é complicado viver de música. Num sentido mais amplo, eu vou começar a escrever sobre, tenho uns pilotos de programas de televisão com um amigo meu. Então viver de música significa falar dela nos mais diversos planos que eu conseguir. Eu, Rômulo Froes, fiz quatro shows esse ano. Mas eu tinha que ir atrás, de diversos jeitos.

iG: E você está feliz?
Rômulo Fróes:
Estou superfeliz, lançando disco, que é o momento mais feliz. Daqui a três meses vou ter que me virar, já vai ter material novo de muita gente, os assuntos vão se renovar. É muita gente produzindo. É agoniante, porque não sei se tem espaço para todo mundo. Espero que sim. Acho que tem espaço para quem permanece. E os novos chegam ancorados pela gente. Quando lancei o "Calado" em 2004, era tudo meio deserto, as coisas não se conectavam. Agora me sinto completamente ancorado por todo mundo, você faz parte de um negócio, é muito forte.

Foto: Fernanda Prado/Divulgação

Rômulo Fróes

iG: Para onde acha que a cena que vai?
Rômulo Fróes:
É difícil, porque acho que não vai para a indústria - ela morreu no sentido filosófico. Óbvio que a indústria ainda tem dinheiro, taí o Luan Santana, a Maria Gadu para provarem isso. Mas a indústria não nos quer mais, não nos entende, e nós não queremos que seja assim. Já nos fodemos 10 anos e agora não vamos abrir as pernas. Já que não vai ter a indústria, acho que precisa ver quanto a cena vai crescer, quanto tempo vai demorar para eu tocar no Brasil inteiro com o meu tamanho, como acontece nos EUA, onde desde que o rock nasceu existe o rock independente. O caminho natural é esse, é um mercado pequeno ficar cada vez maior, e mesmo assim sendo algo especifico, de nicho.

iG: O [músico] Pélico disse que talvez todos nessa cena ainda são unidos porque ninguém fez sucesso em larga escala. Concorda?
Rômulo Fróes:
De alguma forma, mas acho isso ruim, é muito louco eu estar no mesmo patamar que a Tulipa, que o Rodrigo Campos, o Curumin, o Cidadão Instigado, a Tiê. Porque a gente faz música muito diferente entre si, o Curumin faz música pop para tocar em estádio, eu faço música cabeçuda, esquisita. Torço muito para que todo mundo faça sucesso, porque tenho certeza que se a Tulipa fizer sucesso,vai arrastar muita gente, o Jeneci também.

iG: Você acha que é preciso alguém estourar?
Rômulo Fróes:
Precisar não precisa, porque a gente vive sem isso. Mas ia fazer diferença. O Chico Science só é o que é por causa da indústria. Só chegou no patamar de popularidade pela indústria. O próprio Fred 04 [do Mundo Livre SA, conterrâneo de Chico Science] fala isso. Agora, a gente quer isso? Eu sinto falta da indústria. Você pode demonizar ela, mas se eles deixassem a gente fazer o que a gente quer, tipo deixaram o Caetano, o Clube da Esquina... Esses caras só estão no imaginário popular porque eram da indústria. Você não pode acusar minha geração de fazer uma canção que não é acessível. Vai ouvir o Curumin, é musica dançante de alta qualidade. O problema é da indústria.

iG: Em "Meia-Noite em Paris", Woody Allen lida com a nostalgia. Em qual época da música brasileira você gostaria de viver?
Rômulo Fróes:
Agora, não tenho a menor dúvida. Eu vivo na época certa, e minha música só existe porque eu vivo hoje. Eu faço as coisas do jeito que eu quero, quando quero, e não devo nada a ninguém. Só queria ser mais ouvido. Mas é a melhor época, e não é a toa que essa geração é uma das melhores da história. Esse abandono gerou uma grande música. A gente já sobreviveu a isso, está na hora de começarmos a receber por isso.

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