Roger Waters no Rio: 'Se ventar como hoje, não poderemos tocar'

Ex-Pink Floyd, que se apresenta nesta quinta, mostra preocupação com o clima e alfineta David Gilmour: 'Está aposentado'

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |

Néstor J. Beremblum/Divulgação
Roger Waters em entrevista no Rio de Janeiro
Roger Waters oscilou entre a seriedade no discurso político e o sarcasmo em entrevista concedida nesta quarta-feira (dia 28) em um hotel em Ipanema, na zona sul do Rio, onde está hospedado. Ao mesmo tempo em que chegou sorridente falando do resultado do primeiro tempo do jogo da Copa dos Campeões da Europa, o ex-baixista do Pink Floyd não perdoou o sistema de som do local. Chamou David Gilmour, guitarrista do Floyd, de "aposentado" e se mostrou preocupado com o clima carioca.

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Ele afirmou que a forte chuva que caiu sobre o Rio nesta quarta não seria um problema, mas admitiu que o vento que veio com o temporal pode provocar até um cancelamento do show. A previsão para esta quinta, quando o músico deverá premiar o público com a execução na íntegra do clássico álbum "The Wall", é de chuva.

"Não tanto quanto hoje", brincou o baixista ao ouvir a previsão do tempo. Como começou apenas a tocar em estádios abertos em março, na parte sul-americana da turnê, o clima, até agora, não representou problema. Mas a preocupação no Rio existe. "Tivemos alguma chuva em Buenos Aires. Com a chuva nós podemos lidar. Mas se tivermos um vento como esse na hora do show, não poderemos tocar. Porque pessoas vão morrer, é perigoso demais. Nós tocaremos na chuva, eu não tenho problemas com chuva. Vamos entrar no palco e sair molhados, não me importo, contanto que ninguém se machuque", disse.

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Water ainda lembrou de uma outra solução, em vez do cancelamento, no caso de a ventania se repetir e durar na quinta-feira. "Isso aconteceu algumas vezes na minha carreira, eventualmente o clima pode tornar as coisas bem difíceis. O que fazemos, se pudermos, é esperar. Uma vez, na Pensilvânia, nunca vou esquecer, começamos a tocar às 20h e tivemos de parar às 20h15. Havia uma forte tempestade com raios, estava muito frio, e me lembro de ter ido ao palco e dito: 'Se vocês ficarem, nós ficaremos'. Esperamos por 5h, mas fizemos o show inteiro. Eu faria isso de novo sem problemas, mas não tocarei se qualquer pessoa da minha equipe, ou qualquer de vocês, estiver em qualquer tipo de perigo. Chuva não é perigosa, só é molhada".

INFOGRÁFICO: COMPARE A VERSÃO ATUAL DA TURNÊ "THE WALL" COM A DE 1980

AE
Roger Waters em show em Porto Alegre

Do tom preocupado, Waters foi ao sarcasmo em segundos, quando indagado se havia trazido a chuva de Londres e se estava triste por não haver sol no Rio. "Ho ho ho", disse primeiro, ao ouvir a piada sobre a chuva, para em seguida responder: "Eu gosto de sol. Até hoje, estava sol. Boa pergunta", encerrou com um "sorriso amarelo". Em outro momento, o alvo foi o som. "Nossa, esse sistema de som é tão ruim. Você poderia aumentar o médio, uns três pontos? Assim poderei ouvir o que estão dizendo, seria ótimo", reclamou o músico, para então tentar ouvir mais uma pergunta. "Não escutei nada. Temos de aumentar isso. Eu sei que sou surdo, mas... (risos)".

Ouça músicas do Pink Floyd

AE
Cenário do show de Roger Waters em Porto Alegre
Quando indagado sobre a sua apresentação em Londres, no ano passado, com o Pink Floyd, incluindo David Gilmour, o inglês destilou mais veneno. Aquela foi a segunda vez em que Gilmour, Waters e Nick Mason tocaram juntos nas últimas décadas. Um novo reencontro para presentear os fãs? "Muito improvável", disse o inglês.

"Não ouvi a primeira parte, mas acho que foi a pergunta do Gilmour, não? Alguém me fez essa pergunta no Chile, tinha muita gente lá, mas a pessoa prolongou bem mais do que você (disse, fechando os olhos e roncando no final). A resposta curta é: é muito improvável que a gente toque junto novamente. Por quê? Acho que ele está aposentado. Ele apenas se aposentou. Não tenho mais respostas para isso".

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Depois de morder, assoprou. "Mas ao vivo em 2011 foi maravilhoso, não vamos nos esquecer que estivemos juntos em uma banda e ter essa experiência depois de quase 20 anos foi ótimo para mim, creio que para eles, e para muitas outras pessoas. Só acho que está acabado", afirmou Waters, que revelou ter um "embrião" para um novo álbum, uma nova música, mas que por enquanto está totalmente concentrado na turnê, que o "consome". "Por enquanto não tenho planos para outras coisas, outro disco ou outra turnê. Estou totalmente focado nisso, consome toda a nossa energia".

Em "Another Brick in the Wall", um dos maiores sucessos do Pink Floyd, Waters terá a ajuda de 16 crianças da Rocinha, comunidade na zona sul do Rio, mas não fez questão de fazer média ou fingir que sabia tudo sobre elas.

"Não os conheci ainda. Vou encontrá-los às 17h30 amanhã. Trabalhamos diferentes crianças pelo mundo, normalmente são 16 no palco. Usualmente eles têm um passado de adversidade. A gente se encontra quando vamos ensaiar. Espero que tenham aprendido já o básico do que teremos de fazer e toda vez que fazemos isso sentimos que é uma ótima experiência para as crianças, eles levam muito disso, nós também. É realmente maravilhoso. De qual favela eles são?", indagou. Ao ouvir Rocinha, completou: "Bem, como vocês podem perceber, o nome não significa nada para mim. Mas tenho certeza que serão ótimos".

INFOGRÁFICO: COMPARE A VERSÃO ATUAL DA TURNÊ "THE WALL" COM A DE 1980

Depois de cerca de 35 minutos de conversa, Waters procurou encerrar o papo de forma amena, mas curiosa. "Fico feliz por informar a vocês, mais jovens, que há vantagens em ficar velho. Você tem a oportunidade de entender um pouco melhor as coisas, ficar um pouco mais humano. Reagir de outra forma. Eu era bastante nervoso aos 35, hoje já não sou tanto...sobre coisas que não importam, de qualquer forma". Levantou-se, recusou fotos e se retirou. "Muito obrigado. Se houvesse um Deus, eu rezaria para parar de chover".

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